sábado, 22 de agosto de 2009

Os Signos da Subversão: Punks e Anarquistas em Santa Catarina no final do Século 20

Através de jovens oriundos dos subúrbios, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, que viam suas perspectivas de vida frustradas frente um cenário de crise econômica que se refletia no crescente desemprego, nasceria na década de 1970 o Movimento Punk. Nesse sentido, “uma geração que, insatisfeita com tudo, acaba de invocar o espírito de mudança”, fazendo para tanto “(...) uma crítica e um ataque frontal a uma sociedade exploradora, estagnada e estagnante nos seus próprios vícios”[1], valendo-se para isso da “criação de atitudes provocantes, desafiadoras, ´deflagradoras de desordens`, em todos os sentidos: da desordem semântica à desordem comportamental”[2], associados a um choque estético através de cabelos espetados e moicanos coloridos, trajes negros e andrajos, seguido de correntes e alfinetes, que causavam espanto aos olhares desavisados.
Por sua vez, ainda no final dos anos 70 o punk ecoava pelo Brasil através da imprensa e da venda de discos, surgindo dos subúrbios de São Paulo e do Rio de Janeiro os primeiros punks e bandas como AI-5, Restos de Nada, Condutores de Cadáver, Lixomania e Coquetel Molotov. Na época, “o ´milagre econômico` da ditadura militar brasileira estava se esgotando, as perspectivas para o futuro se delineavam sombrias para esses jovens. Suas canções não falavam de amor. Ao contrário, eram agressivas e ensurdecedoras, desesperadas.”[3]
Porém, concomitantemente ao crescimento da cena punk no Brasil, surgem as gangues, que se valendo do uso da violência enquanto resposta ao sistema – assim como os protagonistas de A Laranja Mecânica[4] -, produziam rixas entre grupos e ocasionavam uma “´guerra de regiões` (...) onde cada grupo, por meio da agressividade e força busca impor limites para a atuação de seus oponentes”[5]. Todavia, neste ínterim “alguns punks também se intelectualizaram, lendo clássicos da filosofia política anarquista, como Bakunin e Malatesta, defendendo o anarco-sindicalismo e o anarquismo em geral, considerando-se apóstolos da contracultura”[6]. Surgiam assim, nos anos 80, das clivagens do punk, os anarco-punks, que através da assimilação das idéias anarquistas projetavam uma linha de pensamento político que “rejeita todo tipo de autoritarismo”.[7] Entretanto, assim como, o anarquismo, o punk mostrava-se averso a homogeneidades, dando origem a inúmeras tendências, tais como: os punks 77, hardcores, niilistas, assinalando assim, divergências de idéias e práticas, alimentadas por conflitos.
Sobre a postura anarco-punk Rafael Lopes de Sousa pontua:

O movimento Anarco-Punk é, portanto, decorrência direta das diversas incursões que alguns punks vinham fazendo ao CCS[8] para participar de “palestras libertárias”. Esse contato mais permanente com os anarquistas e da constatação de que o movimento passava por uma crise de identidade, surgiu o interesse em criar um espaço mais teórico para refletir sobre a realidade social e, ao mesmo tempo, divulgar e popularizar as idéias anarquistas dentro de suas comunidades[9].

Assim, novas perspectivas de luta iriam surgir para o Movimento Anarco Punk (MAP) que, na busca pela difusão da cultura libertária e ambicionando alternativas ao sistema, colocava em prática as primeiras experiências de ocupações urbanas – os squats - enquanto moradia e espaço cultural. Assim, em julho de 1993, cerca de dez anarco-punks invadiam um prédio (composto por 15 cômodos) em Florianópolis, localizado na Alameda Adolfo Konder, local que havia pertencido à Santur (órgão oficial de turismo de Santa Catarina). Os jovens punks anarquistas, ao ocupá-lo, pretendiam constituir um squat (termo em inglês que corresponde a propriedade invadida), pondo em prática idéias libertárias como a autogestão, a solidariedade e o apoio mútuo, e nesta perspectiva almejavam dividir o espaço com outros grupos underground e de minoria.
Nascido na Europa durante a década de 1960, o movimento squatter buscava alternativas à falta de moradia, propondo a invasão de casas ou apartamentos fechados ou abandonados devido à especulação imobiliária, que os mantinham “para que se valorizem e possam ser vendidos num momento de bom preço”[10], ou que almejava sua deterioração para facilitar a demolição visando dar lugar a empreendimentos lucrativos.
E, enquanto ressonância no Brasil o movimento squatter tornava-se bandeira de luta entre os anarco-punks, e neste sentido a ocupação em Florianópolis sinalizava a primeira experiência de repercussão no país. Sobre a mesma o jornal O Estado publica:

Eles querem transformar a casa em um espaço alternativo para a cultura e dizem que só saem de lá depois que a prefeitura arranjar um outro lugar para eles abrirem à manifestação da arte, da música, da pintura e do teatro locais. Caso contrário, a casa vai virar um grande centro cultural.
Elenice Gouvêa, 17 anos, integrante do movimento, garante que existem vários prédios públicos abandonados na cidade e que poderiam ser transformados em espaços alternativos para a cultura. Grande parte, segundo ela, fica na avenida Mauro Ramos, uma das mais movimentadas da cidade.
[11]

E acrescenta:

Eles são anarquistas, mas frisam que não são desordeiros. Prova disso é a tentativa de recuperar o local abandonado desde o incêndio que aconteceu no ano passado. Sonham com um mundo onde não existam governantes, apenas respeito entre as pessoas.[12]

Diante de toda uma descaracterização do ideal anarquista, por vezes tachado como desordem pelos meios de comunicação, os anarco-punks faziam questão de afirmar a força e criatividade do pensamento libertário enquanto intervenção urbana em busca de saídas ao sistema vigente, neste caso a constituição de um squat que buscava tornar-se um espaço alternativo destinado a eventos e trabalhos que se colocavam na contramão do estabelecido. Desta forma, a criação de tal espaço alternativo era vista como uma possibilidade de afronta aos valores do mundo capitalista, entre eles o da propriedade privada e da massificação cultural. E nestas circunstâncias, um dos punks afirmava ao jornal Zero: “tem um Opala que pára todo o dia na frente do prédio. Os caras ficam olhando por uns dez minutos e depois vão embora”.[13]
Nos anos 90, outras ocupações foram levadas a cabo por anarco-punks. Em julho de 1995, na periferia de Curitiba, surgia o Squat Kaäza, e na mesma cidade, no final dos anos 90, os Squats Payoll e Sobrado, entre vários outros na região sul-sudeste[14]. Nesta senda, especialmente em Florianópolis, as ações do Movimento Anarco-Punk[15] (MAP) ganhavam certo dinamismo, como veiculou a imprensa local:

“Pela vida, pela paz, militarismo nunca mais!”. O som alto das caixas de som não conseguiu abafar o grito de protesto dos sete integrantes do Movimento Anarco Punk, logo após o desfile militar de 7 de Setembro, (...) em Florianópolis. (...) segurando faixas com frases antibélicas (...), os anarquistas desfilaram ao longo de toda a avenida Beira Mar Norte chamando a atenção de quem passava (...). Mesmo não obtendo adesões, o movimento conseguiu dar seu recado contra o serviço militar obrigatório, garantiu um dos anarquistas (...).[16]

As comemorações cívicas do 7 de setembro, com seu desfile militar, seriam freqüentemente marcadas por passeatas de protesto organizadas por anarco-punks sobretudo nas capitais brasileiras, que na defesa de um “anarquismo ativista” punham-se contra o serviço militar obrigatório e a produção de armamentos. Não obstante, muitas destas manifestações públicas terminariam com a intervenção da polícia, ocasionando detenções e agressões. Nestas circunstâncias o Movimento Anarco Punk (MAP) de Florianópolis, “na manifestação de setembro de 1993, prevenindo-se contra a ameaça de repressão policial, a exemplo do que havia ocorrido com o MAP de São Paulo, impetrou habeas corpus preventivo, explicando o objetivo da ação.”[17]
No ano seguinte (1994), o Jornal do Brasil, reportando-se a esses desfiles e aos protestos dos punks, noticiou a ação repressiva da polícia contra manifestações nas capitais de Belo Horizonte, Florianópolis e Porto Alegre: “em Florianópolis, a Polícia Militar impediu 20 integrantes do movimento Anarco-Punk de se manifestar. (...) os punks pretendiam distribuir panfletos, mas foram rapidamente afastados e saíram aos gritos de ´vamos desarmar o mundo para alimentar os povos`”.[18] Ao jornal Diário Catarinense, alguns militantes punks afirmavam: “(...) a independência do País não existe. ´Achamos uma palhaçada esta comemoração, quando o País tá atolado na miséria, quando se gasta em armamentos para o Exército e pessoas morrem de fome`”.[19]
Por sua vez, o jornal O Estado, referindo-se aos episódios do ano de 1997 escreveu: “(...) o manifesto dos ´anarco-punks` aconteceu na lateral do palanque e chamou a atenção da população e das autoridades que estavam na área”, acrescentando: “para os anarco-punks, no entanto, o país deve vaiar os militares que utilizam o dinheiro que poderia ser investido em áreas sociais, como educação e habitação”.[20] Ainda sobre o ato um dos manifestantes anarco-punk comentou:

(...) realizamos (...) uma manifestação ANTI MILITARISTA no dia 07 de setembro (FALSA INDEPENDÊNCIA), onde juntamente com um pessoal da MARCHA DOS EXCLUÍDOS (pessoas ligadas ao PT, PSTU, PC do B, sem terras, etc...) conseguimos atrasar em uma hora o desfile que se realizou na Beira-mar (...). Ocorreram várias coisas entre elas conflito com a polícia (pauladas, chutes, socos ...) e fomos também cercados por um cordão de isolamento feito pela PM, polícia do exército e tropa de choque (...). Saíram notícias até na T.V., mas nunca comentando sobre os conflitos ocorridos.[21]

As campanhas pelo Voto Nulo, por sua vez, foram mais um das bandeiras de luta do Movimento Anarco Punk (MAP) de Florianópolis. Dentro desta lógica, e agrupados na rua Felipe Schmidt – o calçadão do centro de Florianópolis -, os anarco-punks gritavam palavras de ordem e distribuíam panfletos em que se lia: “o voto nulo é a consciência e amadurecimento de um povo que já sofreu demais nas mãos dos governantes”, assim, “o que nós vemos hoje, com esse esquema político de representatividade através do voto, é a perpetuação de um proletariado, dos burgueses e de uma nova corte que administra, que são os políticos eleitos”, complementando:

a união com a esquerda (...) é um sonho que somente poderia dar certo no começo do século (...) quando os movimentos operários tinham uma coloração anarquista. Com Getúlio Vargas o movimento sindical começou a perder autonomia e liberdade, virou burocrata e comandado por gente paga para comandar[22].

Mas se por um lado descriam da esquerda e dos sindicatos, por outro promoviam a articulação com organizações do movimento negro, do movimento feminista ou de grupos de livre expressão sexual, enquanto novas alternativas para a luta social. Por isso, procuravam contato com grupos de outras regiões brasileiras, como a Juventude Libertária de Curitiba, junto com quem participaram do Punkaraná, realizado em dezembro de 1993, evento que contou com participantes também do Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso e São Paulo.
Discorrendo sobre a estética e a motivação política dos anarco-punk de Florianópolis, Janice Tirelli Ponte de Sousa, destacou:

Coturnos, jeans cheios de adereços de metal e bottons, cabelos coloridos e intencionalmente preparados para sua diferenciação, roupas rasgadas ou com inscrições e pinturas davam-lhe a identidade desejada: a de serem o veículo de uma denúncia, da “podridão” e da perversidade da civilização. Contudo com a participação de jovens dos 15 aos 30 anos aproximadamente, apresentavam-se como um grupo político relativamente articulado à rede movimentalista da cidade, procurando, porém, manter distância e autonomia na organização das manifestações públicas. Contavam com o apoio físico da Ong CECCA (Centro de Estudos, Cultura e Cidadania) para centralizar suas correspondências nacionais e internacionais.[23]

Mas o ser punk também tinha suas dificuldades. Em realidade, “o grupo punk da capital sabe que não é fácil viver neste mundo com o estigma de diferente. Durante a semana eles têm que tirar suas roupas, ajeitar os cabelos e batalhar no mercado de trabalho. A maioria é da classe baixa e tem que lutar para garantir a sobrevivência”, e neste sentido, acabavam por “(...) usar uma máscara de normalidade (...)”[24].
Em 1996, com a desestruturação do MAP/Floripa, surge o Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP), sobre o qual um de seus integrantes comentou:

(...) é um grupo de caráter especificamente ANARCO PUNK, ou seja, ANARQUISTA como proposta de luta política contra o Estado e toda forma de autoridade e opressão, e também como proposta de organização social baseada na descentralização, livre associação, solidariedade, apoio mútuo e autogestão.
E PUNK como forma de negação à massificação e a descaracterização juvenil. Também vemos o PUNK como uma forma de rejeição aos padrões, costumes e valores sociais burgueses dominantes, fruto do sistema capitalista.
[25]

Nesta senda, criam uma distribuidora de materiais punk, chamada “Bandeira Negra”, que servia como veículo de divulgação e socialização cultural valendo-se de um sistema de troca e venda de materiais, conforme assinalou o mesmo integrante: “adotamos uma postura totalmente ANTI-CAPITALISTA e ANTI-COMERCIAL, por isso, todo o dinheiro arrecadado será aplicado na distribuidora para que a mesma possa continuar fazendo seus trabalhos, e não para interesses ou diversões pessoais”. Mais ainda, a partir do grupo formaram-se bandas como: Distruggere e Guerra de Classes que se agregavam a cena juntamente com a banda Lixo Urbano (formada no final dos anos 80), que com seu som rápido e politizado marcara presença em discos como “Cenas Anarco Punks – vol. 1” (1995) e “Resistência Anarco Punk” (1997). Por seu turno, a produção de zines[26] (pequenos jornais de diminuta tiragem, confeccionados de forma artesanal e fotocopiados) era outra forma de expressão do grupo, surgindo assim os zines Grito, Ódio a Polícia, Liseas Liberata, Lixo Urbano e Atos de Ódio.
Sobre as atividades promovidas pelo movimento, o jornal A Notícia registrou:

Para buscar o rompimento do preconceito social contra a estética que os identifica, cinco anarco-punks fizeram ontem durante toda a manhã, na esquina democrática (cruzamento da Felipe Schmidt com a rua Deodoro), exposição com fotografias, edições de fanzines, revistas e jornais em várias línguas e mensagens em faixas contrárias ao militarismo e racismo.
Chamado Coletivo de Ação Anarco-Punk (CAAP), à organização em Florianópolis busca diálogo com a comunidade (...).
[27]

E, paralelo a ele, surgia o projeto do Movimento de Objeção de Consciência (criado a partir das deliberações, do Primeiro Encontro Nacional de Objetores/as de Consciência, ocorrido em 1996 na cidade de São Leopoldo), com o propósito de lutar contra a convocação militar e o próprio sistema militar. De acordo com isso, enquanto seu mote de inspiração, estavam as idéias defendidas pela Confederación Nacional del Trabajo (CNT) da Espanha, a qual pontuava:

(...) a objeção de consciência é um direito legítimo e inalienável da liberdade individual de uma pessoa diante o qual nos negamos a prestar ao Estado qualquer tipo de serviço, seja civil ou militar. É “se negar a colaborar com esta superestrutura que é o exército e que sustenta o Estado. Nenhum Estado pode funcionar sem exército, nem atuar sem sérios riscos contra os interesses desse setor. Por tanto, a objeção ataca a mesma base que se sustenta esse tipo de sociedade. Se questiona o poder que pode ter o Estado de obrigar aos indivíduos a cumprir leis que se consideram injustas. Se nega colaborar em um sistema preparado para uns poucos explorarem a uma maioria com a desculpa que cada um tem o seu lugar na grande maquinaria que é o Estado. Se opõem a um sistema no que se educa e programa seus indivíduos para que em todo momento cumpram o que lhe é ordenado, seja na escola, na família, no trabalho, ou no exército. Não é a simples negativa de empunhar armas e sim a atitude de opor-se ao Estado militarista. Assim adquire a objeção sua dimensão política, não como uma luta individual, mas sim como uma luta coordenada contra o exército e o que esse defende”[28].

Entre as lutas políticas do movimento anarco-punk, pode-se ainda agregar a luta anti-rascista, anti-homofóbica, antimanicomial e anti-nazista, a defesa do aborto e posturas individuais que vão do vegetarianismo ao ateísmo. Quanto ao ateísmo, aliás, entre o final da década de 1990 e começo de 2000, dois anarco-punks criavam a “Liga das Senhoras Atéias”, enquanto uma espécie de organização panfletária para depositar textos em igrejas que continham trechos como o seguinte:

você acha estas palavras um tanto ofensivas e violentas? Pois é, e isto porque elas não traduzem sequer um terço de nossa revolta, mas não se iluda com a aparência ou formas destas linhas, pois elas são da mesma essência e profundidade que tuas orações choramingosas a pedir migalhas às divindades, que jamais lhe atenderão[29].

Neste sentido, percebe-se que a concepção anarquista manifestada em vários circuitos do movimento punk traria consigo expressões atéias, diferindo assim da corriqueira postura anarquista do começo do século 20, que se por um lado fazia uma propaganda anticlerical, por outro concebia Jesus como o primeiro anarquista[30], denotando verberações deístas e cosmológicas. Nestas circunstâncias, percebe-se entre os anarco-punks a preferência por uma literatura a exemplo de “Provas da Inexistência de Deus” de Sebastien Faure.
Voltando à imprensa alternativa produzida ou distribuída por punks na capital catarinense, vários zines ganharam forma, entre os quais Disordem Nacional, A Revolta, Blasfêmia, Le Quasymodo, Alarming, Infame, Sick Girl, Veneno (o qual fazia a seguinte afirmação: “um zine anarckopunk com gosto de cacos de vidro e pregos oxidados”), Poesia de Combate, Hate, Estupro Mental e Monänoz.[31] Este último, aliás, era um informativo feito pelo Grupo de Estudos Sexuais Monänoz, confeccionado em São Paulo com a colaboração de moradores de Florianópolis, que assim se definia: “é um coletivo de amigos que uniram-se com a mesma vontade, a mesma disposição de denunciar e combater todo tipo de violência de que são vítimas: GAY, LÉSBICAS, BISSEXUAIS; e também os que se PROSTITUEM. Sempre denunciando e combatendo ainda o RACISMO e toda forma de AUTORITARISMO”.[32]
Por seu turno, a cena punk da cidade deu ensejo, desde a década de 1980, a diversas bandas, engajadas na luta política ou não, como Confusion of Tongues, Anti-Mísseis, Chute no Saco, Vômito Infernal (banda que mudaria seu nome para Marcha Fúnebre), PostMortem, Tragédia Social, Provocazione, Ódio, Taedium Vitae, Ímpio (embrião da banda Guerra de Classes), Sobreviventes do Aborto e Grito Sufocado[33].
Na senda de 1997 diante da desavença entre membros do Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP) que culminaria em seu fim, nascia a Organização Autonomia, que se assumindo como um coletivo especificamente anarquista estabeleceu uma nítida diferença com o extinto CAAP, que se definia como anarco-punk. E enquanto instrumento de propaganda, a Organização Autonomia lançou o informativo “Da Resistência à Revolução”[34], além de estimular a criação de “Libertina - textos e provocações”, espécie de grupo editorial responsável por brochuras tais como: “Abandone o Ativismo” de Andrew X, “O Ciúme e o seu antídoto” de Emile Armand, “Marxismo: negação do comunismo” de Jeff Stein, entre outros.
Ao mesmo tempo, novas mobilizações foram surgindo em outras cidades de Santa Catarina. Um exemplo disso aconteceu em Piçarras, também no litoral, onde no começo dos anos 90 foi criado outro núcleo do Movimento Anarco Punk (MAP):

tudo começou quando um militante de outro estado veio para Piçarras-S.C. Morar. Dando início a uma movimentação. No decorrer do tempo foi-se surgindo simpatizantes, que em pouco tempo foram se identificando com o anarquismo e vindo a se tornarem militantes, e assim, se concluindo um movimento[35].

Desta forma, por intermédio de um anarco-punk oriundo de Curitiba, o agrupamento de Piçarras ganhou forma. E através de articulações com grupos anarcopunks de Joinville e Florianópolis, organizou seus primeiros atos públicos, com panfletagens contra a pena de morte e o plebiscito de 21 de abril de 1993, que pleiteava votação acerca da forma de governo (Monarquia x República), seguido do sistema de governo (Presidencialismo x Parlamentarismo). Outrossim, através de vínculos com anarco-punks de Curitiba participavam de pedágios anti-nazistas, realizados durante a 3ª edição do evento Maio Negro, organizado desde 1991 pelo Movimento Anarco Punk (MAP) de Curitiba, no Parque do Bacacheri, durante o 1º de maio.
Pelas mãos dos anarco-punks de Piçarras surgiram os zines: Sedição Revolucionária (que afirmava: “todos os regimes e sistemas governamentais já provaram suficientemente falidos! Só uma sociedade auto-gestionária, organizada livremente pode trazer a harmonia, a alegria e o prazer”)[36], Kaos ou União e Consciência, Oitava Cor. E diante da possibilidade de realização de um 2º Congresso Nacional Anarco Punk[37], um de seus militantes escreveu:

O que proponho é que neste 2º Congresso nos concentremos apenas em aspectos de como melhor reger o movimento e como funcionará a tal federação, para que se consolide um movimento mais intenso e sensato em suas aplicações em seu contexto geral, bem como uma aliança muito mais abrangente para se caracterizar uma organização realmente federativa LIBERTÁRIA com características ampliadas em visões ao futuro e ao trabalho coletivo a nossa união.

Todavia, ao que parece tal anseio federativo somente ganharia forma uma década depois, no III Encontro Internacional Anarco-Punk, ocorrido em Salvador em 2002, surgindo então a Federação Anarco-Punk sediada nessa mesma cidade. Antes disso, porém, ainda em 1993 o Movimento Anarco Punk (MAP) de Piçarras informava que encerrava suas atividades porque a grande maioria dos seus integrantes havia se mudado para a cidade de Joinville, para lá iniciarem uma “comunidade urbana autogestionária”, assim como um núcleo do MAP, conforme registrou o jornal A Notícia:

O Movimento Anarco-Punk já consegue em Joinville dezenas de simpatizantes, todos na faixa de 16 a 22 anos. Três militantes são quem difundem a ideologia do socialismo libertário. (...) pregam a total ausência do Estado – representado pelos políticos -, da igreja e da família autoritária. Buscam a liberdade do indivíduo, que se torna autogovernante. Cabelos vermelhos ou os conhecidos moicanos (homenagem a aborígenes norte-americanos exterminados), roupas rasgadas e muitas mensagens agressivas são mais do que a aparência de rebeldia: tratam-se do fundamento político de um movimento antipolítico. Conforme os militantes, refletem a “podridão” da sociedade hipócrita que vêem.[38]

A noção de “antipolítica” referia-se à oposição contra qualquer forma de representação parlamentar, bem como contra os partidos políticos, pois como pontua Sílvio Gallo, o socialismo libertário é: “radicalmente contrário à democracia representativa, onde são eleitos representantes para agir em nome da população (...)”, defendendo para tanto “(...) uma democracia participativa, onde cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade”[39]. Por outro lado concretizando a necessidade de “um espaço, para reuniões, estudo, debates e encontro do pessoal underground da cidade”, a comuna libertária de Joinville abrigava “anarcopunks, alternativos, bangers e dois menores de rua”[40].
Vinculados a cena libertária de Joinville, estavam ainda um núcleo da Juventude Libertária e os zines: Not Profit, Filhos do Medo, Ameaça, (produzido em parceria com um militante de Jaraguá do Sul), além da distribuidora de materiais punks e anarquistas Not Profit. A idéia de confeccionar zines, aliás, estava disseminada por várias cidades do Estado catarinense, como se pode ver com as publicações Contracorrente (em formato tablóide), surgida na década de 1980 em Brusque; Consciência Anarquista (que posteriormente passaria a se chamar União e Consciência) em Chapecó; Liturgia Operária em Rio do Sul; Total Riot em São Bento do Sul; Ataque de Ódio em Araranguá; IAPI (Informativo Anarco-Punk Içarense) em Içara. E reportando-se a outro expoente desta imprensa alternativa, o jornal A Notícia publica:

O Distorção Alternativa é editado à base de xerox, e aos poucos pode-se sentir uma evolução dentro da sua linha editorial. (...) O responsável pelo zine é o vocalista da banda Kontra Ordem, (...) de Jaraguá do Sul. A tiragem apesar de militada como em quase todas publicações alternativas, tem seus exemplares distribuídos por vários estados brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Brasília, Sergipe, Minas Gerais, entre outros) e tem algumas cópias circulando pelo México. O Distorção Alternativa tem como prioridade divulgar a imprensa alternativa e os movimentos libertários[41].

Por sua vez, na cidade de Mafra em meados dos anos de 1990, surgiam os primeiros vultos de uma presença punk integrada também por militantes da cidade vizinha de Rio Negro, pertencente ao Paraná, que daria lugar ao Movimento Punk de Rio-Mafra. E acerca do intercambio entre o Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP) de Florianópolis e o Movimento Punk de Rio-Mafra, um de seus membros escreveu:

É muito bom saber que os ideais PUNX/ANARQUISTAS estão se espalhando e tomando força a cada dia. Ainda não sabíamos da existência de um movimento em Mafra. Gostaria de obter mais informações de como andam as coisas por aí, manifestos, atividades, bandas, gigs, etc...[42]

Discorrendo sobre a cena punk de Rio-Mafra publicou-se o zine Manifesto Punk, elaborado coletivamente e que assinalava o início da imprensa alternativa nas duas cidades, surgindo em seguida os zines: O Caos nosso de cada dia, Revolta, Grito Suburbano, Reflexão Cotidiana, Liberdade de Expressão, Arriba l@s que luchan, Celo je Indignosento[43], Anarkis Attack, Infame. Neste ínterim, as bandas Rede Maldita, Sex Sida (posteriormente chamada Abuso 64), Dizperdício e Escarro Social, foram organizadas numa espécie de sistema cooperativista. Além disso, era criada uma distribuidora de fitas-k7 e vídeos de bandas punks, chamada Resíduos, e no final de 1996 realizada a Primeira Noite Punk de Rio-Mafra, com show de bandas e presença de punks de Curitiba.
Reportando-se a algumas de suas manifestações, a imprensa registrou:

(...) em 22 de abril (500 anos do Brasil) e 1º de Maio (Dia do Trabalhador), punk´s realizaram atos de protesto em Mafra (...). Faixas reivindicando os direitos do índios e dos trabalhadores foram estendidas, o que prova a inteligência dessas pessoas, que muitas vezes são discriminadas apenas porque escolheram um meio alternativo e maluco de viver.[44]

Por seu turno, em Criciúma surgia o Coletivo Anarquista de Organização Social (CAOS), assim como era implementado o projeto Anarquistas Contra o Racismo (ACR), ambos articulados por anarco-punks. Mas, para além da mera expansão quantitativa dos núcleos e das intervenções anarco-punks, percebe-se, ao percorrer a trajetória deste movimento, que tanto na forma de expressão, quanto nas reivindicações esmiuçadas, a militância de uma significativa parte dos punks passava a assumir mais e mais uma identidade anarquista.

Anarquia no plural

No começo dos anos 90 em Florianópolis, Carlos Gustavo Guerra, motivado por paixões como: anarquismo e computação[45], dava forma ao informativo libertário LiberNete, enquanto produção do Libérula – Tribo Cultural, coletivo de aspiração libertária iniciado por ele e sua companheira Graça Carpes, que mantinham expressivo contato com pessoas ou organizações libertárias, assim como vínculos com o Movimento Anarco Punk (MAP). E, junto com esta experiência, surgiam os primeiros ensaios voltados à criação de uma Rede Libertária:

(...) a Rede é composta por libertários (grupos e pessoas) de diversos lugares do Brasil, organizados através de um conjunto mínimo de acordos livres e que mantém uma comunicação regular, principalmente pelo correio, mas também de outras formas (pessoalmente, telefone, fax, redes de computadores, etc.) afim de trocar informações relevantes ao movimento libertário[46].

Nesses termos, a Rede enquanto anseios de uma parcela do movimento libertário brasileiro dava seus primeiros passos em 1993 através de “nós” constituídos em Santa Catarina, via o Libérula – Tribo Cultural de Florianópolis; no Paraná, através do coletivo Grávida de Curitiba; no Rio de Janeiro, com o Centro de Estudos Libertários (CEL) e em São Paulo[47]. Entre as funções destes “nós” estavam a divulgação de informações esporádicas, editoração e envio de informativos, etc., em consonância com o processo de descentralização sob o qual se movia a Rede. E através das páginas do LiberNete, notícias de outras realizações libertárias em Santa Catarina eram registradas, como a seguinte:

Florianópolis no verão é praia, turismo, movimento. No inverno, a situação se inverte, e poucos são os espaços para arte, cultura e debate.
Em julho de 93, aconteceu o 1º Encontro Libertário da Grande Florianópolis. Primeiro não no encontro (comum numa cidade média como esta), mas em reunir movimentos anarco-punk, artístico-cultural, informativo, alternativo e universitário para discutir o movimento em si.
Da interação deste encontro com a Rede Latino-Americana de Desenvolvimento Ambiental com Justiça Social (de onde foi gerada a Carta do Campeche
[48]), surgiu a proposta de um Encontro de Encontros para uma Rede de Redes[49] em julho de 94 em vários locais de Floripa[50].

Esses encontros estimularam a realização do II ENCANASUL, Conferência Regional-Sul de Grupos Anarquistas, de 13 a 18 de julho de 1994, em Florianópolis, onde foi discutida a possibilidade de um meio unificado de propaganda, assim como a organização libertária federada. E, anos depois, pelas mãos de militantes anarco-punks e anarquistas que estudavam na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) era publicado em 1996 o combativo aperiódico Subversidade, jornal de idéias anarquistas, que em seu editorial afirmava: “O SUBVERSIDADE chegou, e como toda publicação anarquista/ libertária, veio para quebrar padrões, expor ideais, propor rumos, incomodar os de direita, de ´esquerda`, enfim, subverter e questionar todos os valores capitalistas (...)”. Neste sentido, através de um texto intitulado “Universidade e representatividade”, assinalavam:

(...) partidos são todos iguais, mudam-se os nomes, as posições (ou oposições), mas seu discurso é sempre o mesmo. Querem competir e se destacar as custas da ignorância e ingenuidade da maioria. Suas bases são conservadoras, uma vez que acreditam piamente nos arcaicos valores hierárquicos e nos tradicionais moldes de representatividade. Não quero aqui me restringir a partidos propriamente ditos, mas também as chapas, que não deixam de ser partidos pois anseiam por um objetivo através das mesmas artimanhas, e a líderes estudantis, usurpadores oportunistas em pessoa, UNE, DCE´s,..., e todas as centralizações estudantis interesseiras e partidárias (Aliás, BOICOTEM essas instituições que fingem te representar, não seja mais um nesse rebanho)[51].

Desta forma, lançavam suas críticas a paradigmas de representatividade sedimentados em relações, para eles, centralizadoras e autoritárias, e reproduzidas em espaços como a Universidade, ambiente este, que segundo destacavam os redatores do jornal, deveria fomentar a construção da liberdade (individual e coletiva) via formação de pessoas conscientes e propensas ao sentimento de mudança. Mais ainda, eles criaram o programa Subversidade veiculado pela rádio comunitária sediada no campus da Universidade. E aproveitando a estadia do anarquista português José Maria Carvalho Ferreira[52], editor em Lisboa da revista anarquista Utopia[53], que a convite ministrava na UFSC entre os dias 15 e 16 de maio de 1997 as palestras “Marginalização promovida pelo sistema capitalista” e “Sindicalismo e anarquismo”, eles incluíram em sua programação uma entrevista-debate com o libertário português, onde se destacava a seguinte passagem:

(...) anarquia quer dizer, negação da autoridade, quer ela provenha de um governo, do Estado, ou ela provenha de Deus, neste sentido anarquia é uma utopia, é uma ética, uma possibilidade de viver uma sociedade sem amos e senhores, na qual a soberania das decisões consiste basicamente nos indivíduos e na comunidade, onde ele esta incluso. (....)
Anarquia não é sinônimo de desordem, anarquia é fundamentalmente a mais alta expressão da ordem, sendo que esta ordem não é pautada pela submissão, pela opressão, pela exploração, mas fundamentalmente pela seguridade e felicidade entre os seres humanos.
[54]

E mais adiante ele acrescentou:

(...) os anarquismos são práticas diferenciadas da própria anarquia, com isto quero dizer, que o individuo por si só, tem uma personalidade, uma maneira de aprender e de viver, por tanto, a partir daí, ele assimila e aprende a anarquia a sua maneira, aí neste sentido podemos dizer, que um outro individuo, com outra personalidade, com outro tipo de aprendizagem, outro tipo eventualmente de cultura, ele vai perceber a anarquia de outra maneira, eu diria é uma outra possibilidade de interpretar e viver a própria anarquia.[55]

Essa concepção de uma pluralidade anarquista que alimentaria os anarquismos era corroborada também pelo anarquista espanhol Carlos Diaz, que sobre ela se expressou em sua passagem por Santa Catarina. Durante uma série de conferências sobre educação libertária realizadas em várias partes do Brasil em 1994, inclusive em Florianópolis[56], este pensador libertário e professor da Universidade Complutense de Madrid expôs de maneira pormenorizada tais pontos de vista, e em entrevista ao jornal catarinense Linha Viva abordou a simbiose de seu pensamento político, permeado pelo anarquismo, cristianismo e marxismo:

Minha formação básica é cristã. Mas travei contato com o movimento operário, durante meus estudos de doutorado na Alemanha. Foi quando contatei com marxistas e anarquistas. Então me pus a estudar o marxismo e o anarquismo. Traduzi alguns livros de Marx para o espanhol. Mas dentro do cristianismo de Jesus de Nazaré me identifiquei mais com o anarquismo, que é uma ética da soliedariedade, do apoio mútuo, que não apela nunca para a ditadura de qualquer natureza. A ética anarquista é do ter todas coisas em comum, da transformação espiritual do coração. Mas não é só uma transformação interior como também das estruturas. Por isso não tive nenhuma dificuldade com o anarquismo.[57]

E ao meio de concepções tão maleáveis das teorias anarquistas, que projetavam o anarquismo como elemento anti-padronizante, a imprensa de Florianópolis registrava as ações de um grupo vinculado a uma organização denominada Animal Liberation Front (ALF), que mesmo não se assumindo como entidade anarquista, mundialmente reúne entre seus membros indivíduos que se afirmam como libertários. Buscando estender aos animais as aspirações de liberdade conferidas pelo anarquismo à condição humana, a ALF insurgia-se contra práticas antropocentristas e desencadeava ações tendo como alvo laboratórios de experimentação com animais.
Em entrevista ao jornal A Notícia os integrantes do núcleo catarinense do Animal Liberation Front (ALF), explicam o que era esta entidade e quais os seus propósitos.

A “Animal Liberation Front” é uma organização que atua fora da lei, no mundo inteiro. Não possui qualquer centralização ou liderança, sendo formada por pequenos grupos independentes. A ALF pratica ação direta contra o abuso animal, de forma a resgatar animais e causar o máximo de prejuízo financeiro aos exploradores de animais, geralmente através de danos e destruição de propriedade[58].

Sobre a essência (ou emergência) da luta pela libertação animal, o filósofo austríaco Peter Singer[59], explicou:

Comparado aos outros movimentos de libertação, o movimento de Libertação Animal apresenta várias desvantagens. A primeira e mais evidente é o fato de que os membros do grupo explorado não podem, eles mesmos, protestar de forma organizada contra o tratamento que recebem (embora possam protestar e o façam, da melhor maneira, individualmente). Nós é que temos de falar em nome dos que não podem falar por si próprios.[60]

Embasado em premissas similares o grupo ALF Florianópolis invadia em 2 de fevereiro de 1997 o Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade Federal de Santa Catarina, libertando mais de 80 sagüis mantidos em cativeiro para estudos comportamentais. E, através de frases escritas a tinta na paredes do laboratório, interpelava: “Ciência ou Hipocri$ia”? Nesses termos, o jornal A Notícia publicava: “(...) os manifestantes dizem que ´as universidades têm sido grandes produtoras de lixo pseudo científico. Quantas vidas serão necessárias, quantos animais terão de sofrer nas mãos de débeis pesquisadores que não hesitam em destruí-las por teses que somente trarão status?`”[61].
Em carta enviada ao jornal Folha da Lagoa integrantes do Animal Liberation Front (ALF) ainda afirmava:

Um recado aos torturadores
O recente ocorrido no Laboratório de Psicologia Experimental da UFSC, no qual foram libertados alguns macacos, não ocorreu segundo as expectativas. Infelizmente nem tudo ocorre como planejado. A intenção era capturá-los e levá-los seguros a uma mata com árvores frutíferas. Resta, porém, a certeza de que não foi a liberdade que causou mal aos macacos. Se algo colocou em risco suas vidas, não foi com certeza a liberdade, condição natural para a sobrevivência de qualquer ser vivo, mas sim o tempo de cárcere que os afastou desta condição..
[62]

E nesta mesma carta, completavam: “este não foi um ato realizado por fundamentalistas que pretendem expor através do assassinato uma determinada conduta humana, mas um ato executado por quem ama a vida e a liberdade dos homens como dos animais”.
Todavia, a ação do ALF em Santa Catarina - uma das primeiras que se tem registro no Brasil -, com repercussão nacional e cingida por polêmicas frente a morte de vários dos sagüis libertos, entrava para a agenda investigativa da Polícia Federal, com um desfecho favorável aos ativistas – chamados vulgarmente pela grande imprensa de “terroristas ecológicos” -, que continuavam clandestinos.

Bandeiras Negras

Trilhando pelos caminhos da educação popular e da ecologia social, surgia em Florianópolis no começo dos anos 90 o Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA), que se definia como um órgão de assessoria para projetos alternativos calcado em perspectivas libertárias. Para tanto, ele efetivava de modo bem visível seu posicionamento político através de artigos publicados em seu boletim informativo, como acerca do plebiscito de 1993 em um texto intitulado “um voto sem opções”: “nossa participação é só pedida para que digamos de que forma queremos ser governados, isto é, dominados”[63]. Segundo ainda atestava o boletim informativo, havia, articulado ao CECCA um grupo de Ação Jurídica que tinha como meta principal o estudo e a pesquisa de um direito alternativo, e que desenvolvia a “prestação de serviços aos movimentos sociais em áreas como direitos humanos, conflitos de propriedade, direitos do consumidor, direito ecológico”[64]. E como um de seus resultados pode ser mencionado o amparo no campo jurídico à luta implementada junto aos moradores do bairro Rio Tavares, “contra a ocupação irregular da área de preservação da Lagoinha Pequena (...) ameaçada por loteamento e construções clandestinas”[65].
Dentre os debates promovidos por militantes libertários vinculados ao CECCA surgiram posicionamentos políticos relacionados com o municipalismo libertário de Murray Bookchin[66], grande expoente da ecologia social, como é perceptível nesta afirmação:

A única defesa que a sociedade tem é demolir o estado centralizado, e criar mecanismos de participação direta a partir da gestão das comunidades locais. A questão central na realidade brasileira é criar uma verdadeira confederação, descentralizando o estado e instituindo um municipalismo que responda diretamente perante os cidadãos.
Muitas mudanças estruturais se impõe na nossa sociedade, mas esta é uma das que se torna mais urgente, sem ela continuaremos espectadores impotentes duma incompreensível realidade distante
[67].

O Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA) manteve vínculos com outros grupos de inspiração anarquista de Florianópolis, entre estes o Movimento Anarco Punk (MAP), e o Libérula – Tribo Cultural. Outrossim, em seu Boletim Informativo eram divulgados livros à venda no CECCA na instituição, entre os quais: El Apoyo Mutuo de Kropotkin e De la Razón Dialógica a la Razón Profética de Carlos Díaz, além do que estabelecendo um acordo com a Livraria e Editora Insular, localizada no centro de Florianópolis, mediante o qual a loja desta última passou a manter uma seção especial voltada a obras de cunho anarquista com mais de 50 títulos em português e espanhol, que iam desde a Concepção Anarquista do Sindicalismo de Neno Vasco até La Escuela de La Anarquia de Josefa Luengo, que relata experiências espanholas em pedagogia libertária. Mais ainda, a editora decidiu publicar algumas obras do pesquisador libertário Edgar Rodrigues, como Pequena História da Imprensa Social no Brasil, Universo Ácrata e Os Companheiros. [68]
A relação de parceria entre o CECA e a Livraria Insular foi criada graças aos esforços de Jorge Esteves da Silva[69], militante libertário que se fixou em Florianópolis no começo dos anos 90 e que se tornou um dos principais ativistas do Centro. E, também como resultado de suas ações, foram publicados os seguintes livros: O Anarquismo Hoje: uma Reflexão sobre as Alternativas Libertárias; O Nascimento da Organização Sindical no Brasil e as Primeiras Lutas Operárias (1890-1935); A Bibliografia Libertária: um Século de Anarquismo em Língua Portuguesa e A Imprensa Libertária do Ceará (1908-1922).[70]
Mas um dos pontos altos das ações anarquistas em Florianópolis no final do século 20 aconteceu associado aos protestos contra a campanha deflagrada para comemorar os “500 anos do Descobrimento do Brasil”, rebatizada de “Brasil 500 Anos” em razão das polêmicas alusivas ao tema do “descobrimento”. Sob encomenda da Rede Globo de Televisão, a mais importante do país, foram construídos grandes relógios nas principais capitais brasileiras para marcar a contagem regressiva das comemorações, mas no dia 22 de abril de 2000, data em que culminariam as celebrações, manifestações contrárias ocorreram em vários lugares. Na capital de Santa Catarina, havia sido constituído o Cômite Brasil Outros 500, com a presença de militantes libertários, entidade que então convocou uma passeata de protesto na mais importante avenida da cidade, a Beira-Mar, que ao se dirigir para um dos relógios mencionados acima entrou em confronto com a polícia que, de forma truculenta, tentou impedir a manifestação com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, cassetetes e tiros.
Sobre este episódio, um manifestante comentou:

O relógio situava-se na Beira-mar, a manifestação deu-se em frente ao mesmo, tinha muita gente entre elas: punks, anarquistas, esquerda, estudantes e algumas entidades sociais, houve confronto com a polícia, 3 manifestantes foram atingidos com balas de borracha (também foram usadas outras coisas tipo gás) uma das pessoas atingidas foi o Jorge do Cecca, um anarquista que conhecemos a um tempo, ele levou um tiro no rosto perfurando-o e atingindo a mandíbula, quebrando a mandíbula e alguns dentes (teve que fazer cirurgia).[71]

Como repúdio contra a violência policial, manifestantes rumaram para o centro da cidade e derrubaram os tapumes que encerravam uma obra que despertara muita polêmica, a chamada “revitalização” da Praça 15 de Novembro (um dos mais conhecidos espaços de Florianópolis e do qual a municipalidade, tendo a frete a prefeita Ângela Amin, pretendia afastar elementos indesejáveis, como os artesãos que ali vendiam seus produtos), libertando simbolicamente a praça e aproveitando o madeiramento para confeccionar uma barricada.
Um dos resultados dos protestos foi a prisão de vários manifestantes, conforme relembrou um dos detidos:

São 15:30, embarcamos em um ônibus no Centro, e seguimos para a casa de um amigo, sem suspeitarmos de que nosso ônibus esteja sendo seguido pela polícia. Assim que chegamos à nosso ponto e desembarcamos do ônibus, vamos sendo agarrados e empurrados de encontro a uma cerca de tela, enquanto ficam gritando “abra as penas”, “senta no chão”, “não olha pra trás”, “cabeça entre as pernas”... e tudo isso através de gritos muito repetitivos e alterados, é um momento muito confuso. Quando tenho a chance de olhar um pouco para o lado, vejo um policial pressionando uma 765 (ou algo parecido) cromada contra a cabeça de Josué, e o mesmo contra a cerca. Eles ainda gritam muito, e então, somos todos algemados, com exceção da Madalena, que é de menor. Após todo o espetáculo, decidem nos pôr em seus carros. Só então posso notar que além de mim estão sendo presos Josué, Elias, Pedro Paulo e Madalena[72].

Após quase dez horas detidos, entre acusações e depoimentos, os manifestantes foram soltos depois de pagarem fiança graças à intermediação de alguns vereadores e de um advogado vinculado a movimentos sociais, tendo respondido posteriormente a um processo por danos ao patrimônio público.
A ação da polícia teve ampla repercussão e provocou do então governador do Estado, Esperidião Amin (PPB), um comentário segundo o qual ele afirmava não acreditar que “a polícia tenha exagerado”.[73] Essa, porém, não foi a opinião do então Deputado Estadual Neodi Saretta (PT), para quem houve: “uma repressão violenta aos moldes dos governos autoritários e isso tem que ser investigado”.[74]
Contudo, o ano de 2000 não trouxe apenas enfrentamentos em Florianópolis. No mês de setembro, era realizado o Encontro Internacional de Cultura Libertária, organizado pelo Núcleo de Alfabetização Técnica do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (NAT/CED/UFSC), Núcleo de Educação Intercultural e Movimentos Sociais da mesma instituição (MOVER/UFSC) e Centro de Estudos de Cultura e Cidadania (CECCA/SC), “com a finalidade de aproximar pessoas e grupos interessados no intercambio de experiências, para discutir limites e possibilidades da cultura libertária”[75].
O evento abordou várias temáticas, como pedagogia libertária, sexualidade, comunicação libertária, capoeira angola, intervenção social e contou com a presença de personalidades como José Maria Carvalho Ferreira, diretor da revista Utopia (Lisboa), Ruben Prieto, da Comunidad del Sur[76] (Uruguai), Christian Ferrer, da Universidade Nacional de Buenos Aires (Argentina), Margareth Rago, professora da UNICAMP e integrante do Coletivo Libertárias (São Paulo), Roberto Freire, da Soma terapia (São Paulo), Nildo Avelino, do Centro de Cultura Social (São Paulo), Robson Achiamé (Rio de Janeiro), entre outras, que assinalavam a pluralidade de idéias e tendências do movimento libertário. E em meio à reafirmação de pressupostos anarquistas, rodas de capoeira, palestras, debates, e oficinas, análises foucautianas e reichianas buscavam explicar a complexidade da sociedade moderna baseada em relações de domínio e poder. Veredas estas marcadas por polêmicas, a exemplo da abertura do encontro, quando o terapeuta e libertário Roberto Freire com apoio de grupos como o Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) e Coletivo Libertárias, propôs a criação de uma Federação Anarquista Brasileira, que incidiu em acaloradas discussões e acusações por destoar dos objetivos do evento. Comentando o Encontro na Rivista Anarchica[77] da Itália, Massimo Rossi, que prestigiou o evento, registrou um interessante perfil da cidade:

Chamam-na Floripa, e é a capital do estado de Santa Catarina. Cidade balneária, meta do turismo de elite do sul brasileiro, desenvolveu em poucos anos o seu próprio bosque de arranha-céus e casas de veraneio. “Aqui não existem pobres nem vagabundos”, nos explicam “porque a polícia não os deixa ficar”. Alguns anos atrás, um prefeito tocador de obras promoveu uma versão local da “tolerância zero” de seu mais notório colega de Nova Iorque. Floripa possui uma praça opulenta, inaugurada há pouco tempo, iluminada inclusive de dia e continuamente vigiada por zelosos funcionários, que com um sorriso de gesso nos lábios intimidam até o mais leve apoio dos pés sobre os bancos.
Isso também, não parece, mas é o Brasil. E nesta terra de extravagantes experimentações micro totalitárias, entre 4 e 7 de setembro, desenrolou-se o encontro internacional dos libertários. Na verdade as delegações estrangeiras representavam apenas um pequeno contingente, mas de algum modo é preciso começar. “Somente poucos anos atrás” graceja um dos organizadores, “para acolher os participantes teria sido suficiente um microônibus; hoje dois ônibus lotados não bastaram”.
[78]

Mais ainda, além de reunir conhecidas personas do meio anarquista, o encontro abrigou um expressivo contingente de anarco-punks proveniente das mais variadas localidades do Brasil ou de países vizinhos, como do Uruguai, que com seus tons e seus sons imprimiam sua presença ao evento.
Um dos promotores do evento, o Núcleo de Alfabetização Técnica, havia sido criado em 1991 e era integrado, entre outras pessoas, por Maria Oly Pey, Ierecê Rego Beltrão, Raquel Stela de Sá e Ana Maria Hoepers Preve, visando divulgar a Pedagogia Libertária[79]. Nesta perspectiva, e sob a inspiração da professora Oly Pey, havia sido criada a Coleção Pedagogia Libertária[80], publicada pela Imaginário (uma editora de livros anarquistas de São Paulo). E sobre tal assunto Oly Pey obervava:

a conveniência e a atualidade da educação decorre da falência das organizações de ensino heterogestionadas, quer de origem estatal, quer de origem confessional ou empresarial, que não dão conta de trabalhar os saberes, aproximando-os da realidade, fazendo sentido para quem aprende e para quem ensina[81].

Valendo-se especialmente da elaboração de oficinas voltadas aos mais diversos grupos sociais, o NAT buscava efetuar práticas educativas baseadas em preceitos freireanos enquanto alternativa do regime escolar. Pois como pontuam, “o trabalho com oficinas é pautado na vontade das pessoas de ampliarem sua relação com as coisas e com o outro no mundo”[82]. Assim,

O NAT segue um caminho de pesquisa-ensino sobre a concepção libertária da educação e a reflexão sobre a prática das oficinas passa a identificar-se com o ideal libertário que envolve a autonomia, a solidariedade e a liberdade libertária de Bakunin e Kropotkin, Ferrer y Guardia até Josefa Luengo; a abordagem não-disciplinar do processo educativo e relações dialógicas no ato de conhecer em interação[83].

Desta forma, através de encontros, polêmicas, manifestações, ocupações de casas, jornais, zines ou da defesa de práticas como a ecologia social e a pedagogia da autonomia, o anarquismo imprimia seus semblantes libertários em Santa Catarina, durante a segunda metade do século 20 especialmente em sua capital, a cidade de Florianópolis. Em meio a isto o anarquismo impulsionado por novas expressões e atores como a contracultura e os anarco-punks se reinventa ora como estratégia de luta, ora como estilo de vida, atualizando seu papel contestador dos valores de uma sociedade mantida pela desigualdade e pelo autoritarismo, buscando e propondo nossos rumos.
Notas:
[1] BIVAR, Antonio. O que é Punk. 4 ed., São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 47 e 49.
[2] ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis: Punks e Darks no Espetáculo Urbano. São Paulo: Scritta, 1994. p. 45. Sobre isso, ver também COSTA, Pere-Oriol; TORNERO, Jóse Manuel Pérez; TROPEA, Fabio. Tribus Urbanas. El Ansia de Identidad Juvenil: Entre el Culto a la Image y la Autoafirmación Através de la Violencia. Buenos Aires: Paidós, 1996.
[3] SALEM, Helena. As Tribos do Mal. 9 ed., São Paulo: Atual, 1995. p. 38.
[4] Filme de Stanley Kubrick (1971) baseado na obra de nome homônimo de Anthony Burgess, que trata das aventuras do jovem Alex e seus drugs (amigos). Estreando apenas em 1978 no Brasil devido à censura da Ditadura Militar (mesmo liberado, apareciam bolinhas pretas nas genitais de seus personagens nus), ele se tornaria um dos filmes preferidos entre os punks.
[5] SOUSA, Rafael Lopes de. Punk: Cultura e Protesto. São Paulo: Edições Pulsar, 2002. p. 50.
[6] SALEM, Op. Cit. p. 40.
[7] DELFINI, Luciano & PETTA, Nicolina Luiza de. Para Entender o Anarquismo. São Paulo: Moderna, 2004. p. 81.
[8] Centro de Cultura Social de São Paulo. Fundado em 1933, foi fechado pelo Estado Novo e, também, durante a Ditadura Militar após o AI 5, retomando suas atividades somente em 1985.
[9] SOUSA (2002), Op. Cit. p. 107.
[10] GABEIRA, Fernando. Vida Alternativa: uma Revolução do Dia-a-dia. 4 ed., Porto Alegre: L&PM, 1986. p.22.
[11] Jornal O Estado, Florianópolis, 11 de julho de 1993.
[12] Jornal O Estado, Florianópolis, 13 de julho de 1993.
[13] Zero, Florianópolis, agosto de 1993.
[14] Destacam-se, no Rio Grande do Sul, os squats Colina, Resist, Teimosia e Kasa de Kultura; no Paraná, os espaços Chalé, Getúlio e Mansão; em São Paulo as ocupações Casa Reciclada, Pomba Negra, Dandara e Guaiana; no Distrito Federal, o Centro Cultural Casas das Pombas; e em Santa Catarina, o Corcel Negro.
[15] Grupo formado por integrantes oriundos da Grande Florianópolis, agregando punks de Florianópolis e das cidades de São José, Palhoça e Santo Amaro da Imperatriz.
[16] A Notícia, Joinville, 8 de setembro de 1993.
[17] SOUSA, Janice Tirelli Ponte de. Reinvenções da Utopia. A Militância Política de Jovens nos Anos 90. São Paulo: Hacker, 1999. p. 113.
[18] Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 de setembro de 1994.
[19] Diário Catarinense, Florianópolis, 8 de setembro de 1994.
[20] O Estado, Florianópolis, 8 de setembro de 1997. Matéria intitulada “Excluídos e punks tumultuam Dia da Pátria”.
[21] Carta escrita por um dos membros do CAAP de Florianópolis em 1997.
[22] A Notícia, Joinville, 11 de setembro de 1994.
[23] SOUSA, Janice Tirelli Ponte de, Op. Cit., p. 111.
[24] A Notícia, Joinville, 30 de maio de 1994.
[25] Carta escrita por um dos membros do CAAP datada de 04 de abril de 1997.
[26] Variável do termo fanzine, o qual “(...) é um neologismo formado pela contração dos termos ingleses fanactic e magazine, que viria a significar ´magazine do fã`”, In: MAGALHÃES, Henrique. O que é Fanzine. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 9.
[27] A Notícia, Joinville, 24 de novembro de 1996.
[28] Informativo: La C.N.T. ante la Objecion de Consciencia y la Estrategia de la Insumision al Servicio Militar y a la PSS. [Tradução nossa]. A CNT é uma central sindical anarquista fundada em 1910.
[29] Panfleto intitulado “Mate teus ídolos”.
[30] Sobre a defesa de tal prerrogativa destacamos as seguintes obras: Jesus Cristo era Anarquista (1920) de Everardo Dias e Cristo, o Maior dos Anarquistas (1950) de Anibal Vaz Melo.
[31] Segundo informações apresentadas no próprio zine o nome vem do finlandês “e significa sem rótulos sexuais, ou seja, todo ser humano que quer fazer a sexualidade em livre curso, sem estereótipos”.
[32] Monänoz, informativo nº 1, setembro de 1995.
[33] Valho-me para a elaboração deste breve panorama do encarte da compilação (em fita-K7) de bandas punks intitulada “Antes do Fim”.
[34] Sairiam somente dois números, um em 1997 e outro em 1998.
[35] Informativo do Movimento Anarco-Punk-SC nº1, Piçarras/ Joinville – Abril/ Maio/ Junho de 1993.
[36] Zine Sedição Revolucionária nº 2, Piçarras, março/ abril de 1993.
[37] O Primeiro Congresso Nacional Anarco Punk, ocorreu em 1989 em Curitiba.
[38] A Notícia, Joinville, 12 de abril de 1993.
[39] GALLO, Sílvio. Anarquismo: uma Introdução Filosófica e Política. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000. p. 35.
[40] Informativo do Movimento Anarco Punk-SC nº 2, agosto/ setembro de 1993.
[41] A Notícia, Joinville, 4 de fevereiro de 1990.
[42] Carta escrita por um dos membros do CAAP datada de 04 de abril de 1997.
[43] Nome em esperanto que quer dizer: Objetivo de Revolta. Publicação de poesias em formato de livreto.
[44] Jornal Informação, São Bento do Sul, 24 de maio de 2000.
[45] Sobre esta vinculação entre informática e anarquismo, consultar o texto de sua autoria. GUERRA, Carlos Gustavo M. Contracultura e as Possibilidades Libertárias da Informática. In: SIEBERT, Raquel Stela de Sá (Org.). Educação Libertária: Textos de um Seminário. Rio de Janeiro: Achiamé; Florianópolis: Movimento-Centro de Cultura e Autoformação, 1996.
[46] Informativo elaborado por Libérula – Tribo Cultural, Florianópolis, março de 1993.
[47] Relação de localidades envolvidas no começo de 1993.
[48] Carta elaborada em julho de 1993 a partir de uma reunião na praia do Campeche, Florianópolis, em que se pode ler: “é fundamental que os movimentos sociais adquiram uma consciência ecológica, e que os movimentos ecológicos adquiram uma consciência social”, “valorizamos uma identidade latino-americana “SEM FRONTEIRAS”, fundada na recuperação do patrimônio cultural dos povos originais”, etc. Retirado do Boletim Informativo do CECA/SC, Ilha de Santa Catarina, nº 10, agosto de 1993. p. 3.
[49] Encontro que agregava eventos artísticos (com oficinas e espetáculos de dança, cinema cerâmica, etc.), científicos-filosóficos (com seminários e debates sobre pedagogia libertária, desenvolvimento sustentável, Mercosul, ecologia e saúde), e tecnológicos (com oficinas voltadas para utilização de tecnologias alternativas).
[50] LiberNete, Florianópolis, nº 12, Inverno de 1994.
[51] Subversidade, nº 1, Florianópolis, maio de 1996.
[52] Deste pensador anarquista há uma obra publicada em Santa Catarina pela Universidade Regional de Blumenau, intitulada: Portugal no Contexto da “Transição para o Socialismo” (História de um Equívoco) de 1997. E o artigo “Globalização, Trabalho e Movimentos Sociais” publicado pela Fronteiras – Revista Catarinense de História nº 8, 2000.
[53] Revista Anarquista de Cultura e Intervenção, criada em abril de 1995 em Lisboa (Portugal).
[54] Transcrito da gravação (em fita-cassete) efetuada pelos membros do programa.
[55] Idem.
[56] Conferências que seriam reunidas no livro: Educação Libertária: Textos de um Seminário, publicado pela editora Achiamé em 1997. Em sua passagem por Florianópolis, participou do debate: “Uma ética da solidariedade para os movimentos sociais”, realizado no dia 7 de agosto no auditório do Sindicato dos Bancários.
[57] Jornal Linha Viva publicação da intersindical dos Eletricitários de Santa Catarina. Nº 281, 10 de agosto de 1994.
[58] A Notícia, Joinville, 22 de março de 1997.
[59] Especialista em bioética, entre suas obras publicadas no Brasil, destacamos: Ética Prática (1998), Vida Ética (2002) e Libertação Animal (2004).
[60] SINGER, Peter. Libertação Animal. Porto Alegre: Lugano, 2004. p. XXI.
[61] A Notícia, Joinville, 16 de fevereiro de 1997.
[62] Jornal Folha da Lagoa, Florianópolis, março de 1997.
[63] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 07, Ilha de Santa Catarina, abril de 1993. p. 5.
[64] Idem. p. 12.
[65] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 09, Ilha de Santa Catarina, junho de 1993. p. 1.
[66] Anarquista norte-americano, foi professor da Universidade Alternativa de Nova York, publicou várias obras sobre problemas ecológicos e urbanos.
[67] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 13, Ilha de Santa Catarina, dezembro de 1993. p. 1. (AMAP). Um outro texto desta natureza intitulado “Municipalismo: a Democracia Local”, extraído do jornal anarquista A Batalha (Portugal), era publicado no Boletim Informativo nº 15, de março de 1995.
[68] Em 1997 era publicado “Os Companheiros” vol. 3 e 4; em 1998 “Os Companheiros” vol. 5 e “Pequena História da Imprensa Social no Brasil”; em 1999 “Universo Ácrata” vol. 1 e 2.
[69]Jorge E. Silva também contribuiu em revistas anarquistas, tais como: Libertárias (São Paulo) e Letra Livre (Rio de Janeiro). De sua autoria ainda podem ser encontrado dois textos que compõem a obra “Encontro Educação Libertária” publicado pela Universidade Federal de Santa Maria em 1998.
[70] Estes dois últimos trabalhos eram escritos em parceria com a historiadora cearense Adelaide Gonçalves.
[71] Carta datada de 21/ 08/ 2000.
[72] Relatório sobre os ocorridos em 22 de abril de 2000. Os nomes são fictícios, criados enquanto alegoria bíblica. Documento elaborado por integrantes anarco-punks, visando relatar a repressão empregada contra as manifestações dos “500 Anos”.
[73] O Estado, Florianópolis, 25 de abril de 2000.
[74] Idem.
[75] Informação extraída de uma das primeiras circulares de divulgação do evento.
[76] Surgida nos anos 50 através de um grupo de estudantes anarquistas de Montevidéu, La Comunidad del Sur é uma das mais antigas comunidades libertárias em atividade da América Latina. Politicamente baseada na Ecologia Social, angaria recursos para seus projetos através da prestação de serviços realizados pela sua gráfica e Editora, além do que, na chácara onde funciona, são produzidos doces, biscoitos, pães, e uma agricultura de subsistência.
[77] Publicação mensal editada em Milão desde 1971.
[78] Rivista Anarchista, anno 30, nº 267, novembro de 2000. Tradução: Carlo Romani. Disponível em http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/267/11pt1.htm. Acessado em 13 de maio de 2008.
[79] Outros integrantes eram Clóvis Nicanor Kassick, Guilherme Carlos Corrêa, Rita Cássia Oenning da Silva, Antonio Fernando S. Guerra, Maria Luiza P. L. Guerra, Fábio Machado Pinto e Ademilde S. Sartori Vale lembrar que já no Brasil da Primeira República a educação era vista como decisiva para o processo de transformação social, conquistando lugar de destaque nas discussões anarquistas. Sobre isso, ver: JOMINI, Regina Celia Mazoni. Uma Educação para a Solidariedade. Campinas: Pontes, 1990.
[80] Publicou-se: Pedagogia Libertária – Experiências Hoje, com textos de Josefa Martin Luengo, Encarnación Garrido Montero, Maria Oly Pey e Guilherme Carlos Corrêa; e Corpos Dóceis, Mentes Vazias, Corações Frios de Ierecê Rego Beltrão.
[81] PEY, Maria Oly. Introdução. In: SIEBERT, Raquel Stela de Sá (Org.). Educação Libertária: Textos de um Seminário. Rio de Janeiro: Achiamé; Florianópolis: Movimento-Centro de Cultura e Autoformação, 1996. Entre as obras das quais Maria Oly Pey participou destacamos: Esboço para uma História da Escola no Brasil: Algumas Reflexões Libertárias (2000); Recordando Paulo Freire: Experiências de Educação Libertadora na Escola; As Pegadas de Foucault: Apontamentos para a Pesquisa de Instituições (2007).
[82] Encontro Educação Libertária: Textos. Santa Maria: UFSM, 1998. p. 151.
[83] PEY, Maria Oly, et al. Pedagogia Libertária: Experiências Hoje. São Paulo: Imaginário, 2000. p. 121.

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  1. Estava navegando pela net e encontrei seu blog, embora possua alguns textos relativamente razoáveis, é um blog bem ruinzinho, perdi muito tempo nele, é uma pena,nota 2 pra vc.
    Obs: Seu conteúdo não é grande coisa,parece me um tanto quanto indireto,desculpe pela sinceridade, mas apenas expresso minha verdadeira opinião.

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  2. Caro J.
    Apesar da simplória crítica por você lançada ao conteúdo socializado pela Acrata Studiorum, seria pequenez de nossa parte não responde-la, ainda mais quando se trata de alguém como você que exaustivamente afirma ter perdido seu precioso tempo de ócio, com nossos textos.
    Sendo assim, alguns pormenores se fazem necessários, os textos por você (supostamente) consultados, não são de modo geral panfletários, mas sim, escritos produzidos através de pesquisas históricas (ocasionando naquilo que você rotula de indiretos), textos estes, publicados na imprensa libertária e alhures (inclusive internacionalmente). Outrossim, sobre o valor numérico por você agregado ao blog, sinceramente não lembro de te-lo inscrito em algum concurso, mas mesmo assim agradeço pelo dois (2), já que por outro lado suas divagações que irrisóriamente se travestem de crítica, nem um valor numérico comportam (pois não propicia reflexão alguma), enfim, esperamos que um dia nos brinde com algo de relevante, aproveitando inclusive melhor o seu tempo prezado Johhattan, e até breve!

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