sábado, 19 de setembro de 2009

Um Português Libertário na Ilha dos Casos Raros

Enquanto a Ilha da Magia demonstrava seus poderes naturais em mais um dia de chuvas e garoas, enquanto característica setembrina, em tais terras aportava vindo de Lisboa, José Maria de Carvalho Ferreira, editor da revista anarquista de intervenção e cultura: UTOPIA e membro da Associação Cultural A Vida e do Socius (Centro de Investigação em Sociologia Econômica e das Organizações). Em sua rápida passagem, conferia no dia 10 do corrente, a palestra “TIC`s: Globalização e a crise dos paradigmas científicos” a pedido da pós-graduação de Sociologia Política da UFSC. Outrossim, agraciávamos com um bate-papo, realizado no Café Ponto Chic – lugar histórico na memória floripolitana, especialmente devido a Novembrada -, diálogo que priorizou os pluralismos da anarquia, enquanto vivência libertária e reflexão de nossa condição de seres sociais e biológicos, manifestada de forma coletiva ou individual, em contrapartida a agremiações que clamam para si o papel legítimo de condutores das mudanças sociais, mas que salpicadas por posturas autoritárias e intolerantes, atuam como mero elixir de egos e vaidades.

A Acrata Studiorum agradece ao companheiro Zé Maria, pelos exemplares da Utopia e pela coletânea de textos do Murray Bookchin, que compõe agora nosso acervo, ampliando nossos horizontes literários!!!

sábado, 22 de agosto de 2009

Protesto Anarco Punk durante o 7 de setembro em Florianópolis (1997)


Os Signos da Subversão: Punks e Anarquistas em Santa Catarina no final do Século 20

Através de jovens oriundos dos subúrbios, tanto nos Estados Unidos como na Inglaterra, que viam suas perspectivas de vida frustradas frente um cenário de crise econômica que se refletia no crescente desemprego, nasceria na década de 1970 o Movimento Punk. Nesse sentido, “uma geração que, insatisfeita com tudo, acaba de invocar o espírito de mudança”, fazendo para tanto “(...) uma crítica e um ataque frontal a uma sociedade exploradora, estagnada e estagnante nos seus próprios vícios”[1], valendo-se para isso da “criação de atitudes provocantes, desafiadoras, ´deflagradoras de desordens`, em todos os sentidos: da desordem semântica à desordem comportamental”[2], associados a um choque estético através de cabelos espetados e moicanos coloridos, trajes negros e andrajos, seguido de correntes e alfinetes, que causavam espanto aos olhares desavisados.
Por sua vez, ainda no final dos anos 70 o punk ecoava pelo Brasil através da imprensa e da venda de discos, surgindo dos subúrbios de São Paulo e do Rio de Janeiro os primeiros punks e bandas como AI-5, Restos de Nada, Condutores de Cadáver, Lixomania e Coquetel Molotov. Na época, “o ´milagre econômico` da ditadura militar brasileira estava se esgotando, as perspectivas para o futuro se delineavam sombrias para esses jovens. Suas canções não falavam de amor. Ao contrário, eram agressivas e ensurdecedoras, desesperadas.”[3]
Porém, concomitantemente ao crescimento da cena punk no Brasil, surgem as gangues, que se valendo do uso da violência enquanto resposta ao sistema – assim como os protagonistas de A Laranja Mecânica[4] -, produziam rixas entre grupos e ocasionavam uma “´guerra de regiões` (...) onde cada grupo, por meio da agressividade e força busca impor limites para a atuação de seus oponentes”[5]. Todavia, neste ínterim “alguns punks também se intelectualizaram, lendo clássicos da filosofia política anarquista, como Bakunin e Malatesta, defendendo o anarco-sindicalismo e o anarquismo em geral, considerando-se apóstolos da contracultura”[6]. Surgiam assim, nos anos 80, das clivagens do punk, os anarco-punks, que através da assimilação das idéias anarquistas projetavam uma linha de pensamento político que “rejeita todo tipo de autoritarismo”.[7] Entretanto, assim como, o anarquismo, o punk mostrava-se averso a homogeneidades, dando origem a inúmeras tendências, tais como: os punks 77, hardcores, niilistas, assinalando assim, divergências de idéias e práticas, alimentadas por conflitos.
Sobre a postura anarco-punk Rafael Lopes de Sousa pontua:

O movimento Anarco-Punk é, portanto, decorrência direta das diversas incursões que alguns punks vinham fazendo ao CCS[8] para participar de “palestras libertárias”. Esse contato mais permanente com os anarquistas e da constatação de que o movimento passava por uma crise de identidade, surgiu o interesse em criar um espaço mais teórico para refletir sobre a realidade social e, ao mesmo tempo, divulgar e popularizar as idéias anarquistas dentro de suas comunidades[9].

Assim, novas perspectivas de luta iriam surgir para o Movimento Anarco Punk (MAP) que, na busca pela difusão da cultura libertária e ambicionando alternativas ao sistema, colocava em prática as primeiras experiências de ocupações urbanas – os squats - enquanto moradia e espaço cultural. Assim, em julho de 1993, cerca de dez anarco-punks invadiam um prédio (composto por 15 cômodos) em Florianópolis, localizado na Alameda Adolfo Konder, local que havia pertencido à Santur (órgão oficial de turismo de Santa Catarina). Os jovens punks anarquistas, ao ocupá-lo, pretendiam constituir um squat (termo em inglês que corresponde a propriedade invadida), pondo em prática idéias libertárias como a autogestão, a solidariedade e o apoio mútuo, e nesta perspectiva almejavam dividir o espaço com outros grupos underground e de minoria.
Nascido na Europa durante a década de 1960, o movimento squatter buscava alternativas à falta de moradia, propondo a invasão de casas ou apartamentos fechados ou abandonados devido à especulação imobiliária, que os mantinham “para que se valorizem e possam ser vendidos num momento de bom preço”[10], ou que almejava sua deterioração para facilitar a demolição visando dar lugar a empreendimentos lucrativos.
E, enquanto ressonância no Brasil o movimento squatter tornava-se bandeira de luta entre os anarco-punks, e neste sentido a ocupação em Florianópolis sinalizava a primeira experiência de repercussão no país. Sobre a mesma o jornal O Estado publica:

Eles querem transformar a casa em um espaço alternativo para a cultura e dizem que só saem de lá depois que a prefeitura arranjar um outro lugar para eles abrirem à manifestação da arte, da música, da pintura e do teatro locais. Caso contrário, a casa vai virar um grande centro cultural.
Elenice Gouvêa, 17 anos, integrante do movimento, garante que existem vários prédios públicos abandonados na cidade e que poderiam ser transformados em espaços alternativos para a cultura. Grande parte, segundo ela, fica na avenida Mauro Ramos, uma das mais movimentadas da cidade.
[11]

E acrescenta:

Eles são anarquistas, mas frisam que não são desordeiros. Prova disso é a tentativa de recuperar o local abandonado desde o incêndio que aconteceu no ano passado. Sonham com um mundo onde não existam governantes, apenas respeito entre as pessoas.[12]

Diante de toda uma descaracterização do ideal anarquista, por vezes tachado como desordem pelos meios de comunicação, os anarco-punks faziam questão de afirmar a força e criatividade do pensamento libertário enquanto intervenção urbana em busca de saídas ao sistema vigente, neste caso a constituição de um squat que buscava tornar-se um espaço alternativo destinado a eventos e trabalhos que se colocavam na contramão do estabelecido. Desta forma, a criação de tal espaço alternativo era vista como uma possibilidade de afronta aos valores do mundo capitalista, entre eles o da propriedade privada e da massificação cultural. E nestas circunstâncias, um dos punks afirmava ao jornal Zero: “tem um Opala que pára todo o dia na frente do prédio. Os caras ficam olhando por uns dez minutos e depois vão embora”.[13]
Nos anos 90, outras ocupações foram levadas a cabo por anarco-punks. Em julho de 1995, na periferia de Curitiba, surgia o Squat Kaäza, e na mesma cidade, no final dos anos 90, os Squats Payoll e Sobrado, entre vários outros na região sul-sudeste[14]. Nesta senda, especialmente em Florianópolis, as ações do Movimento Anarco-Punk[15] (MAP) ganhavam certo dinamismo, como veiculou a imprensa local:

“Pela vida, pela paz, militarismo nunca mais!”. O som alto das caixas de som não conseguiu abafar o grito de protesto dos sete integrantes do Movimento Anarco Punk, logo após o desfile militar de 7 de Setembro, (...) em Florianópolis. (...) segurando faixas com frases antibélicas (...), os anarquistas desfilaram ao longo de toda a avenida Beira Mar Norte chamando a atenção de quem passava (...). Mesmo não obtendo adesões, o movimento conseguiu dar seu recado contra o serviço militar obrigatório, garantiu um dos anarquistas (...).[16]

As comemorações cívicas do 7 de setembro, com seu desfile militar, seriam freqüentemente marcadas por passeatas de protesto organizadas por anarco-punks sobretudo nas capitais brasileiras, que na defesa de um “anarquismo ativista” punham-se contra o serviço militar obrigatório e a produção de armamentos. Não obstante, muitas destas manifestações públicas terminariam com a intervenção da polícia, ocasionando detenções e agressões. Nestas circunstâncias o Movimento Anarco Punk (MAP) de Florianópolis, “na manifestação de setembro de 1993, prevenindo-se contra a ameaça de repressão policial, a exemplo do que havia ocorrido com o MAP de São Paulo, impetrou habeas corpus preventivo, explicando o objetivo da ação.”[17]
No ano seguinte (1994), o Jornal do Brasil, reportando-se a esses desfiles e aos protestos dos punks, noticiou a ação repressiva da polícia contra manifestações nas capitais de Belo Horizonte, Florianópolis e Porto Alegre: “em Florianópolis, a Polícia Militar impediu 20 integrantes do movimento Anarco-Punk de se manifestar. (...) os punks pretendiam distribuir panfletos, mas foram rapidamente afastados e saíram aos gritos de ´vamos desarmar o mundo para alimentar os povos`”.[18] Ao jornal Diário Catarinense, alguns militantes punks afirmavam: “(...) a independência do País não existe. ´Achamos uma palhaçada esta comemoração, quando o País tá atolado na miséria, quando se gasta em armamentos para o Exército e pessoas morrem de fome`”.[19]
Por sua vez, o jornal O Estado, referindo-se aos episódios do ano de 1997 escreveu: “(...) o manifesto dos ´anarco-punks` aconteceu na lateral do palanque e chamou a atenção da população e das autoridades que estavam na área”, acrescentando: “para os anarco-punks, no entanto, o país deve vaiar os militares que utilizam o dinheiro que poderia ser investido em áreas sociais, como educação e habitação”.[20] Ainda sobre o ato um dos manifestantes anarco-punk comentou:

(...) realizamos (...) uma manifestação ANTI MILITARISTA no dia 07 de setembro (FALSA INDEPENDÊNCIA), onde juntamente com um pessoal da MARCHA DOS EXCLUÍDOS (pessoas ligadas ao PT, PSTU, PC do B, sem terras, etc...) conseguimos atrasar em uma hora o desfile que se realizou na Beira-mar (...). Ocorreram várias coisas entre elas conflito com a polícia (pauladas, chutes, socos ...) e fomos também cercados por um cordão de isolamento feito pela PM, polícia do exército e tropa de choque (...). Saíram notícias até na T.V., mas nunca comentando sobre os conflitos ocorridos.[21]

As campanhas pelo Voto Nulo, por sua vez, foram mais um das bandeiras de luta do Movimento Anarco Punk (MAP) de Florianópolis. Dentro desta lógica, e agrupados na rua Felipe Schmidt – o calçadão do centro de Florianópolis -, os anarco-punks gritavam palavras de ordem e distribuíam panfletos em que se lia: “o voto nulo é a consciência e amadurecimento de um povo que já sofreu demais nas mãos dos governantes”, assim, “o que nós vemos hoje, com esse esquema político de representatividade através do voto, é a perpetuação de um proletariado, dos burgueses e de uma nova corte que administra, que são os políticos eleitos”, complementando:

a união com a esquerda (...) é um sonho que somente poderia dar certo no começo do século (...) quando os movimentos operários tinham uma coloração anarquista. Com Getúlio Vargas o movimento sindical começou a perder autonomia e liberdade, virou burocrata e comandado por gente paga para comandar[22].

Mas se por um lado descriam da esquerda e dos sindicatos, por outro promoviam a articulação com organizações do movimento negro, do movimento feminista ou de grupos de livre expressão sexual, enquanto novas alternativas para a luta social. Por isso, procuravam contato com grupos de outras regiões brasileiras, como a Juventude Libertária de Curitiba, junto com quem participaram do Punkaraná, realizado em dezembro de 1993, evento que contou com participantes também do Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso e São Paulo.
Discorrendo sobre a estética e a motivação política dos anarco-punk de Florianópolis, Janice Tirelli Ponte de Sousa, destacou:

Coturnos, jeans cheios de adereços de metal e bottons, cabelos coloridos e intencionalmente preparados para sua diferenciação, roupas rasgadas ou com inscrições e pinturas davam-lhe a identidade desejada: a de serem o veículo de uma denúncia, da “podridão” e da perversidade da civilização. Contudo com a participação de jovens dos 15 aos 30 anos aproximadamente, apresentavam-se como um grupo político relativamente articulado à rede movimentalista da cidade, procurando, porém, manter distância e autonomia na organização das manifestações públicas. Contavam com o apoio físico da Ong CECCA (Centro de Estudos, Cultura e Cidadania) para centralizar suas correspondências nacionais e internacionais.[23]

Mas o ser punk também tinha suas dificuldades. Em realidade, “o grupo punk da capital sabe que não é fácil viver neste mundo com o estigma de diferente. Durante a semana eles têm que tirar suas roupas, ajeitar os cabelos e batalhar no mercado de trabalho. A maioria é da classe baixa e tem que lutar para garantir a sobrevivência”, e neste sentido, acabavam por “(...) usar uma máscara de normalidade (...)”[24].
Em 1996, com a desestruturação do MAP/Floripa, surge o Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP), sobre o qual um de seus integrantes comentou:

(...) é um grupo de caráter especificamente ANARCO PUNK, ou seja, ANARQUISTA como proposta de luta política contra o Estado e toda forma de autoridade e opressão, e também como proposta de organização social baseada na descentralização, livre associação, solidariedade, apoio mútuo e autogestão.
E PUNK como forma de negação à massificação e a descaracterização juvenil. Também vemos o PUNK como uma forma de rejeição aos padrões, costumes e valores sociais burgueses dominantes, fruto do sistema capitalista.
[25]

Nesta senda, criam uma distribuidora de materiais punk, chamada “Bandeira Negra”, que servia como veículo de divulgação e socialização cultural valendo-se de um sistema de troca e venda de materiais, conforme assinalou o mesmo integrante: “adotamos uma postura totalmente ANTI-CAPITALISTA e ANTI-COMERCIAL, por isso, todo o dinheiro arrecadado será aplicado na distribuidora para que a mesma possa continuar fazendo seus trabalhos, e não para interesses ou diversões pessoais”. Mais ainda, a partir do grupo formaram-se bandas como: Distruggere e Guerra de Classes que se agregavam a cena juntamente com a banda Lixo Urbano (formada no final dos anos 80), que com seu som rápido e politizado marcara presença em discos como “Cenas Anarco Punks – vol. 1” (1995) e “Resistência Anarco Punk” (1997). Por seu turno, a produção de zines[26] (pequenos jornais de diminuta tiragem, confeccionados de forma artesanal e fotocopiados) era outra forma de expressão do grupo, surgindo assim os zines Grito, Ódio a Polícia, Liseas Liberata, Lixo Urbano e Atos de Ódio.
Sobre as atividades promovidas pelo movimento, o jornal A Notícia registrou:

Para buscar o rompimento do preconceito social contra a estética que os identifica, cinco anarco-punks fizeram ontem durante toda a manhã, na esquina democrática (cruzamento da Felipe Schmidt com a rua Deodoro), exposição com fotografias, edições de fanzines, revistas e jornais em várias línguas e mensagens em faixas contrárias ao militarismo e racismo.
Chamado Coletivo de Ação Anarco-Punk (CAAP), à organização em Florianópolis busca diálogo com a comunidade (...).
[27]

E, paralelo a ele, surgia o projeto do Movimento de Objeção de Consciência (criado a partir das deliberações, do Primeiro Encontro Nacional de Objetores/as de Consciência, ocorrido em 1996 na cidade de São Leopoldo), com o propósito de lutar contra a convocação militar e o próprio sistema militar. De acordo com isso, enquanto seu mote de inspiração, estavam as idéias defendidas pela Confederación Nacional del Trabajo (CNT) da Espanha, a qual pontuava:

(...) a objeção de consciência é um direito legítimo e inalienável da liberdade individual de uma pessoa diante o qual nos negamos a prestar ao Estado qualquer tipo de serviço, seja civil ou militar. É “se negar a colaborar com esta superestrutura que é o exército e que sustenta o Estado. Nenhum Estado pode funcionar sem exército, nem atuar sem sérios riscos contra os interesses desse setor. Por tanto, a objeção ataca a mesma base que se sustenta esse tipo de sociedade. Se questiona o poder que pode ter o Estado de obrigar aos indivíduos a cumprir leis que se consideram injustas. Se nega colaborar em um sistema preparado para uns poucos explorarem a uma maioria com a desculpa que cada um tem o seu lugar na grande maquinaria que é o Estado. Se opõem a um sistema no que se educa e programa seus indivíduos para que em todo momento cumpram o que lhe é ordenado, seja na escola, na família, no trabalho, ou no exército. Não é a simples negativa de empunhar armas e sim a atitude de opor-se ao Estado militarista. Assim adquire a objeção sua dimensão política, não como uma luta individual, mas sim como uma luta coordenada contra o exército e o que esse defende”[28].

Entre as lutas políticas do movimento anarco-punk, pode-se ainda agregar a luta anti-rascista, anti-homofóbica, antimanicomial e anti-nazista, a defesa do aborto e posturas individuais que vão do vegetarianismo ao ateísmo. Quanto ao ateísmo, aliás, entre o final da década de 1990 e começo de 2000, dois anarco-punks criavam a “Liga das Senhoras Atéias”, enquanto uma espécie de organização panfletária para depositar textos em igrejas que continham trechos como o seguinte:

você acha estas palavras um tanto ofensivas e violentas? Pois é, e isto porque elas não traduzem sequer um terço de nossa revolta, mas não se iluda com a aparência ou formas destas linhas, pois elas são da mesma essência e profundidade que tuas orações choramingosas a pedir migalhas às divindades, que jamais lhe atenderão[29].

Neste sentido, percebe-se que a concepção anarquista manifestada em vários circuitos do movimento punk traria consigo expressões atéias, diferindo assim da corriqueira postura anarquista do começo do século 20, que se por um lado fazia uma propaganda anticlerical, por outro concebia Jesus como o primeiro anarquista[30], denotando verberações deístas e cosmológicas. Nestas circunstâncias, percebe-se entre os anarco-punks a preferência por uma literatura a exemplo de “Provas da Inexistência de Deus” de Sebastien Faure.
Voltando à imprensa alternativa produzida ou distribuída por punks na capital catarinense, vários zines ganharam forma, entre os quais Disordem Nacional, A Revolta, Blasfêmia, Le Quasymodo, Alarming, Infame, Sick Girl, Veneno (o qual fazia a seguinte afirmação: “um zine anarckopunk com gosto de cacos de vidro e pregos oxidados”), Poesia de Combate, Hate, Estupro Mental e Monänoz.[31] Este último, aliás, era um informativo feito pelo Grupo de Estudos Sexuais Monänoz, confeccionado em São Paulo com a colaboração de moradores de Florianópolis, que assim se definia: “é um coletivo de amigos que uniram-se com a mesma vontade, a mesma disposição de denunciar e combater todo tipo de violência de que são vítimas: GAY, LÉSBICAS, BISSEXUAIS; e também os que se PROSTITUEM. Sempre denunciando e combatendo ainda o RACISMO e toda forma de AUTORITARISMO”.[32]
Por seu turno, a cena punk da cidade deu ensejo, desde a década de 1980, a diversas bandas, engajadas na luta política ou não, como Confusion of Tongues, Anti-Mísseis, Chute no Saco, Vômito Infernal (banda que mudaria seu nome para Marcha Fúnebre), PostMortem, Tragédia Social, Provocazione, Ódio, Taedium Vitae, Ímpio (embrião da banda Guerra de Classes), Sobreviventes do Aborto e Grito Sufocado[33].
Na senda de 1997 diante da desavença entre membros do Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP) que culminaria em seu fim, nascia a Organização Autonomia, que se assumindo como um coletivo especificamente anarquista estabeleceu uma nítida diferença com o extinto CAAP, que se definia como anarco-punk. E enquanto instrumento de propaganda, a Organização Autonomia lançou o informativo “Da Resistência à Revolução”[34], além de estimular a criação de “Libertina - textos e provocações”, espécie de grupo editorial responsável por brochuras tais como: “Abandone o Ativismo” de Andrew X, “O Ciúme e o seu antídoto” de Emile Armand, “Marxismo: negação do comunismo” de Jeff Stein, entre outros.
Ao mesmo tempo, novas mobilizações foram surgindo em outras cidades de Santa Catarina. Um exemplo disso aconteceu em Piçarras, também no litoral, onde no começo dos anos 90 foi criado outro núcleo do Movimento Anarco Punk (MAP):

tudo começou quando um militante de outro estado veio para Piçarras-S.C. Morar. Dando início a uma movimentação. No decorrer do tempo foi-se surgindo simpatizantes, que em pouco tempo foram se identificando com o anarquismo e vindo a se tornarem militantes, e assim, se concluindo um movimento[35].

Desta forma, por intermédio de um anarco-punk oriundo de Curitiba, o agrupamento de Piçarras ganhou forma. E através de articulações com grupos anarcopunks de Joinville e Florianópolis, organizou seus primeiros atos públicos, com panfletagens contra a pena de morte e o plebiscito de 21 de abril de 1993, que pleiteava votação acerca da forma de governo (Monarquia x República), seguido do sistema de governo (Presidencialismo x Parlamentarismo). Outrossim, através de vínculos com anarco-punks de Curitiba participavam de pedágios anti-nazistas, realizados durante a 3ª edição do evento Maio Negro, organizado desde 1991 pelo Movimento Anarco Punk (MAP) de Curitiba, no Parque do Bacacheri, durante o 1º de maio.
Pelas mãos dos anarco-punks de Piçarras surgiram os zines: Sedição Revolucionária (que afirmava: “todos os regimes e sistemas governamentais já provaram suficientemente falidos! Só uma sociedade auto-gestionária, organizada livremente pode trazer a harmonia, a alegria e o prazer”)[36], Kaos ou União e Consciência, Oitava Cor. E diante da possibilidade de realização de um 2º Congresso Nacional Anarco Punk[37], um de seus militantes escreveu:

O que proponho é que neste 2º Congresso nos concentremos apenas em aspectos de como melhor reger o movimento e como funcionará a tal federação, para que se consolide um movimento mais intenso e sensato em suas aplicações em seu contexto geral, bem como uma aliança muito mais abrangente para se caracterizar uma organização realmente federativa LIBERTÁRIA com características ampliadas em visões ao futuro e ao trabalho coletivo a nossa união.

Todavia, ao que parece tal anseio federativo somente ganharia forma uma década depois, no III Encontro Internacional Anarco-Punk, ocorrido em Salvador em 2002, surgindo então a Federação Anarco-Punk sediada nessa mesma cidade. Antes disso, porém, ainda em 1993 o Movimento Anarco Punk (MAP) de Piçarras informava que encerrava suas atividades porque a grande maioria dos seus integrantes havia se mudado para a cidade de Joinville, para lá iniciarem uma “comunidade urbana autogestionária”, assim como um núcleo do MAP, conforme registrou o jornal A Notícia:

O Movimento Anarco-Punk já consegue em Joinville dezenas de simpatizantes, todos na faixa de 16 a 22 anos. Três militantes são quem difundem a ideologia do socialismo libertário. (...) pregam a total ausência do Estado – representado pelos políticos -, da igreja e da família autoritária. Buscam a liberdade do indivíduo, que se torna autogovernante. Cabelos vermelhos ou os conhecidos moicanos (homenagem a aborígenes norte-americanos exterminados), roupas rasgadas e muitas mensagens agressivas são mais do que a aparência de rebeldia: tratam-se do fundamento político de um movimento antipolítico. Conforme os militantes, refletem a “podridão” da sociedade hipócrita que vêem.[38]

A noção de “antipolítica” referia-se à oposição contra qualquer forma de representação parlamentar, bem como contra os partidos políticos, pois como pontua Sílvio Gallo, o socialismo libertário é: “radicalmente contrário à democracia representativa, onde são eleitos representantes para agir em nome da população (...)”, defendendo para tanto “(...) uma democracia participativa, onde cada pessoa participe ativamente dos destinos políticos de sua comunidade”[39]. Por outro lado concretizando a necessidade de “um espaço, para reuniões, estudo, debates e encontro do pessoal underground da cidade”, a comuna libertária de Joinville abrigava “anarcopunks, alternativos, bangers e dois menores de rua”[40].
Vinculados a cena libertária de Joinville, estavam ainda um núcleo da Juventude Libertária e os zines: Not Profit, Filhos do Medo, Ameaça, (produzido em parceria com um militante de Jaraguá do Sul), além da distribuidora de materiais punks e anarquistas Not Profit. A idéia de confeccionar zines, aliás, estava disseminada por várias cidades do Estado catarinense, como se pode ver com as publicações Contracorrente (em formato tablóide), surgida na década de 1980 em Brusque; Consciência Anarquista (que posteriormente passaria a se chamar União e Consciência) em Chapecó; Liturgia Operária em Rio do Sul; Total Riot em São Bento do Sul; Ataque de Ódio em Araranguá; IAPI (Informativo Anarco-Punk Içarense) em Içara. E reportando-se a outro expoente desta imprensa alternativa, o jornal A Notícia publica:

O Distorção Alternativa é editado à base de xerox, e aos poucos pode-se sentir uma evolução dentro da sua linha editorial. (...) O responsável pelo zine é o vocalista da banda Kontra Ordem, (...) de Jaraguá do Sul. A tiragem apesar de militada como em quase todas publicações alternativas, tem seus exemplares distribuídos por vários estados brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Brasília, Sergipe, Minas Gerais, entre outros) e tem algumas cópias circulando pelo México. O Distorção Alternativa tem como prioridade divulgar a imprensa alternativa e os movimentos libertários[41].

Por sua vez, na cidade de Mafra em meados dos anos de 1990, surgiam os primeiros vultos de uma presença punk integrada também por militantes da cidade vizinha de Rio Negro, pertencente ao Paraná, que daria lugar ao Movimento Punk de Rio-Mafra. E acerca do intercambio entre o Coletivo de Ação Anarco Punk (CAAP) de Florianópolis e o Movimento Punk de Rio-Mafra, um de seus membros escreveu:

É muito bom saber que os ideais PUNX/ANARQUISTAS estão se espalhando e tomando força a cada dia. Ainda não sabíamos da existência de um movimento em Mafra. Gostaria de obter mais informações de como andam as coisas por aí, manifestos, atividades, bandas, gigs, etc...[42]

Discorrendo sobre a cena punk de Rio-Mafra publicou-se o zine Manifesto Punk, elaborado coletivamente e que assinalava o início da imprensa alternativa nas duas cidades, surgindo em seguida os zines: O Caos nosso de cada dia, Revolta, Grito Suburbano, Reflexão Cotidiana, Liberdade de Expressão, Arriba l@s que luchan, Celo je Indignosento[43], Anarkis Attack, Infame. Neste ínterim, as bandas Rede Maldita, Sex Sida (posteriormente chamada Abuso 64), Dizperdício e Escarro Social, foram organizadas numa espécie de sistema cooperativista. Além disso, era criada uma distribuidora de fitas-k7 e vídeos de bandas punks, chamada Resíduos, e no final de 1996 realizada a Primeira Noite Punk de Rio-Mafra, com show de bandas e presença de punks de Curitiba.
Reportando-se a algumas de suas manifestações, a imprensa registrou:

(...) em 22 de abril (500 anos do Brasil) e 1º de Maio (Dia do Trabalhador), punk´s realizaram atos de protesto em Mafra (...). Faixas reivindicando os direitos do índios e dos trabalhadores foram estendidas, o que prova a inteligência dessas pessoas, que muitas vezes são discriminadas apenas porque escolheram um meio alternativo e maluco de viver.[44]

Por seu turno, em Criciúma surgia o Coletivo Anarquista de Organização Social (CAOS), assim como era implementado o projeto Anarquistas Contra o Racismo (ACR), ambos articulados por anarco-punks. Mas, para além da mera expansão quantitativa dos núcleos e das intervenções anarco-punks, percebe-se, ao percorrer a trajetória deste movimento, que tanto na forma de expressão, quanto nas reivindicações esmiuçadas, a militância de uma significativa parte dos punks passava a assumir mais e mais uma identidade anarquista.

Anarquia no plural

No começo dos anos 90 em Florianópolis, Carlos Gustavo Guerra, motivado por paixões como: anarquismo e computação[45], dava forma ao informativo libertário LiberNete, enquanto produção do Libérula – Tribo Cultural, coletivo de aspiração libertária iniciado por ele e sua companheira Graça Carpes, que mantinham expressivo contato com pessoas ou organizações libertárias, assim como vínculos com o Movimento Anarco Punk (MAP). E, junto com esta experiência, surgiam os primeiros ensaios voltados à criação de uma Rede Libertária:

(...) a Rede é composta por libertários (grupos e pessoas) de diversos lugares do Brasil, organizados através de um conjunto mínimo de acordos livres e que mantém uma comunicação regular, principalmente pelo correio, mas também de outras formas (pessoalmente, telefone, fax, redes de computadores, etc.) afim de trocar informações relevantes ao movimento libertário[46].

Nesses termos, a Rede enquanto anseios de uma parcela do movimento libertário brasileiro dava seus primeiros passos em 1993 através de “nós” constituídos em Santa Catarina, via o Libérula – Tribo Cultural de Florianópolis; no Paraná, através do coletivo Grávida de Curitiba; no Rio de Janeiro, com o Centro de Estudos Libertários (CEL) e em São Paulo[47]. Entre as funções destes “nós” estavam a divulgação de informações esporádicas, editoração e envio de informativos, etc., em consonância com o processo de descentralização sob o qual se movia a Rede. E através das páginas do LiberNete, notícias de outras realizações libertárias em Santa Catarina eram registradas, como a seguinte:

Florianópolis no verão é praia, turismo, movimento. No inverno, a situação se inverte, e poucos são os espaços para arte, cultura e debate.
Em julho de 93, aconteceu o 1º Encontro Libertário da Grande Florianópolis. Primeiro não no encontro (comum numa cidade média como esta), mas em reunir movimentos anarco-punk, artístico-cultural, informativo, alternativo e universitário para discutir o movimento em si.
Da interação deste encontro com a Rede Latino-Americana de Desenvolvimento Ambiental com Justiça Social (de onde foi gerada a Carta do Campeche
[48]), surgiu a proposta de um Encontro de Encontros para uma Rede de Redes[49] em julho de 94 em vários locais de Floripa[50].

Esses encontros estimularam a realização do II ENCANASUL, Conferência Regional-Sul de Grupos Anarquistas, de 13 a 18 de julho de 1994, em Florianópolis, onde foi discutida a possibilidade de um meio unificado de propaganda, assim como a organização libertária federada. E, anos depois, pelas mãos de militantes anarco-punks e anarquistas que estudavam na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) era publicado em 1996 o combativo aperiódico Subversidade, jornal de idéias anarquistas, que em seu editorial afirmava: “O SUBVERSIDADE chegou, e como toda publicação anarquista/ libertária, veio para quebrar padrões, expor ideais, propor rumos, incomodar os de direita, de ´esquerda`, enfim, subverter e questionar todos os valores capitalistas (...)”. Neste sentido, através de um texto intitulado “Universidade e representatividade”, assinalavam:

(...) partidos são todos iguais, mudam-se os nomes, as posições (ou oposições), mas seu discurso é sempre o mesmo. Querem competir e se destacar as custas da ignorância e ingenuidade da maioria. Suas bases são conservadoras, uma vez que acreditam piamente nos arcaicos valores hierárquicos e nos tradicionais moldes de representatividade. Não quero aqui me restringir a partidos propriamente ditos, mas também as chapas, que não deixam de ser partidos pois anseiam por um objetivo através das mesmas artimanhas, e a líderes estudantis, usurpadores oportunistas em pessoa, UNE, DCE´s,..., e todas as centralizações estudantis interesseiras e partidárias (Aliás, BOICOTEM essas instituições que fingem te representar, não seja mais um nesse rebanho)[51].

Desta forma, lançavam suas críticas a paradigmas de representatividade sedimentados em relações, para eles, centralizadoras e autoritárias, e reproduzidas em espaços como a Universidade, ambiente este, que segundo destacavam os redatores do jornal, deveria fomentar a construção da liberdade (individual e coletiva) via formação de pessoas conscientes e propensas ao sentimento de mudança. Mais ainda, eles criaram o programa Subversidade veiculado pela rádio comunitária sediada no campus da Universidade. E aproveitando a estadia do anarquista português José Maria Carvalho Ferreira[52], editor em Lisboa da revista anarquista Utopia[53], que a convite ministrava na UFSC entre os dias 15 e 16 de maio de 1997 as palestras “Marginalização promovida pelo sistema capitalista” e “Sindicalismo e anarquismo”, eles incluíram em sua programação uma entrevista-debate com o libertário português, onde se destacava a seguinte passagem:

(...) anarquia quer dizer, negação da autoridade, quer ela provenha de um governo, do Estado, ou ela provenha de Deus, neste sentido anarquia é uma utopia, é uma ética, uma possibilidade de viver uma sociedade sem amos e senhores, na qual a soberania das decisões consiste basicamente nos indivíduos e na comunidade, onde ele esta incluso. (....)
Anarquia não é sinônimo de desordem, anarquia é fundamentalmente a mais alta expressão da ordem, sendo que esta ordem não é pautada pela submissão, pela opressão, pela exploração, mas fundamentalmente pela seguridade e felicidade entre os seres humanos.
[54]

E mais adiante ele acrescentou:

(...) os anarquismos são práticas diferenciadas da própria anarquia, com isto quero dizer, que o individuo por si só, tem uma personalidade, uma maneira de aprender e de viver, por tanto, a partir daí, ele assimila e aprende a anarquia a sua maneira, aí neste sentido podemos dizer, que um outro individuo, com outra personalidade, com outro tipo de aprendizagem, outro tipo eventualmente de cultura, ele vai perceber a anarquia de outra maneira, eu diria é uma outra possibilidade de interpretar e viver a própria anarquia.[55]

Essa concepção de uma pluralidade anarquista que alimentaria os anarquismos era corroborada também pelo anarquista espanhol Carlos Diaz, que sobre ela se expressou em sua passagem por Santa Catarina. Durante uma série de conferências sobre educação libertária realizadas em várias partes do Brasil em 1994, inclusive em Florianópolis[56], este pensador libertário e professor da Universidade Complutense de Madrid expôs de maneira pormenorizada tais pontos de vista, e em entrevista ao jornal catarinense Linha Viva abordou a simbiose de seu pensamento político, permeado pelo anarquismo, cristianismo e marxismo:

Minha formação básica é cristã. Mas travei contato com o movimento operário, durante meus estudos de doutorado na Alemanha. Foi quando contatei com marxistas e anarquistas. Então me pus a estudar o marxismo e o anarquismo. Traduzi alguns livros de Marx para o espanhol. Mas dentro do cristianismo de Jesus de Nazaré me identifiquei mais com o anarquismo, que é uma ética da soliedariedade, do apoio mútuo, que não apela nunca para a ditadura de qualquer natureza. A ética anarquista é do ter todas coisas em comum, da transformação espiritual do coração. Mas não é só uma transformação interior como também das estruturas. Por isso não tive nenhuma dificuldade com o anarquismo.[57]

E ao meio de concepções tão maleáveis das teorias anarquistas, que projetavam o anarquismo como elemento anti-padronizante, a imprensa de Florianópolis registrava as ações de um grupo vinculado a uma organização denominada Animal Liberation Front (ALF), que mesmo não se assumindo como entidade anarquista, mundialmente reúne entre seus membros indivíduos que se afirmam como libertários. Buscando estender aos animais as aspirações de liberdade conferidas pelo anarquismo à condição humana, a ALF insurgia-se contra práticas antropocentristas e desencadeava ações tendo como alvo laboratórios de experimentação com animais.
Em entrevista ao jornal A Notícia os integrantes do núcleo catarinense do Animal Liberation Front (ALF), explicam o que era esta entidade e quais os seus propósitos.

A “Animal Liberation Front” é uma organização que atua fora da lei, no mundo inteiro. Não possui qualquer centralização ou liderança, sendo formada por pequenos grupos independentes. A ALF pratica ação direta contra o abuso animal, de forma a resgatar animais e causar o máximo de prejuízo financeiro aos exploradores de animais, geralmente através de danos e destruição de propriedade[58].

Sobre a essência (ou emergência) da luta pela libertação animal, o filósofo austríaco Peter Singer[59], explicou:

Comparado aos outros movimentos de libertação, o movimento de Libertação Animal apresenta várias desvantagens. A primeira e mais evidente é o fato de que os membros do grupo explorado não podem, eles mesmos, protestar de forma organizada contra o tratamento que recebem (embora possam protestar e o façam, da melhor maneira, individualmente). Nós é que temos de falar em nome dos que não podem falar por si próprios.[60]

Embasado em premissas similares o grupo ALF Florianópolis invadia em 2 de fevereiro de 1997 o Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade Federal de Santa Catarina, libertando mais de 80 sagüis mantidos em cativeiro para estudos comportamentais. E, através de frases escritas a tinta na paredes do laboratório, interpelava: “Ciência ou Hipocri$ia”? Nesses termos, o jornal A Notícia publicava: “(...) os manifestantes dizem que ´as universidades têm sido grandes produtoras de lixo pseudo científico. Quantas vidas serão necessárias, quantos animais terão de sofrer nas mãos de débeis pesquisadores que não hesitam em destruí-las por teses que somente trarão status?`”[61].
Em carta enviada ao jornal Folha da Lagoa integrantes do Animal Liberation Front (ALF) ainda afirmava:

Um recado aos torturadores
O recente ocorrido no Laboratório de Psicologia Experimental da UFSC, no qual foram libertados alguns macacos, não ocorreu segundo as expectativas. Infelizmente nem tudo ocorre como planejado. A intenção era capturá-los e levá-los seguros a uma mata com árvores frutíferas. Resta, porém, a certeza de que não foi a liberdade que causou mal aos macacos. Se algo colocou em risco suas vidas, não foi com certeza a liberdade, condição natural para a sobrevivência de qualquer ser vivo, mas sim o tempo de cárcere que os afastou desta condição..
[62]

E nesta mesma carta, completavam: “este não foi um ato realizado por fundamentalistas que pretendem expor através do assassinato uma determinada conduta humana, mas um ato executado por quem ama a vida e a liberdade dos homens como dos animais”.
Todavia, a ação do ALF em Santa Catarina - uma das primeiras que se tem registro no Brasil -, com repercussão nacional e cingida por polêmicas frente a morte de vários dos sagüis libertos, entrava para a agenda investigativa da Polícia Federal, com um desfecho favorável aos ativistas – chamados vulgarmente pela grande imprensa de “terroristas ecológicos” -, que continuavam clandestinos.

Bandeiras Negras

Trilhando pelos caminhos da educação popular e da ecologia social, surgia em Florianópolis no começo dos anos 90 o Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA), que se definia como um órgão de assessoria para projetos alternativos calcado em perspectivas libertárias. Para tanto, ele efetivava de modo bem visível seu posicionamento político através de artigos publicados em seu boletim informativo, como acerca do plebiscito de 1993 em um texto intitulado “um voto sem opções”: “nossa participação é só pedida para que digamos de que forma queremos ser governados, isto é, dominados”[63]. Segundo ainda atestava o boletim informativo, havia, articulado ao CECCA um grupo de Ação Jurídica que tinha como meta principal o estudo e a pesquisa de um direito alternativo, e que desenvolvia a “prestação de serviços aos movimentos sociais em áreas como direitos humanos, conflitos de propriedade, direitos do consumidor, direito ecológico”[64]. E como um de seus resultados pode ser mencionado o amparo no campo jurídico à luta implementada junto aos moradores do bairro Rio Tavares, “contra a ocupação irregular da área de preservação da Lagoinha Pequena (...) ameaçada por loteamento e construções clandestinas”[65].
Dentre os debates promovidos por militantes libertários vinculados ao CECCA surgiram posicionamentos políticos relacionados com o municipalismo libertário de Murray Bookchin[66], grande expoente da ecologia social, como é perceptível nesta afirmação:

A única defesa que a sociedade tem é demolir o estado centralizado, e criar mecanismos de participação direta a partir da gestão das comunidades locais. A questão central na realidade brasileira é criar uma verdadeira confederação, descentralizando o estado e instituindo um municipalismo que responda diretamente perante os cidadãos.
Muitas mudanças estruturais se impõe na nossa sociedade, mas esta é uma das que se torna mais urgente, sem ela continuaremos espectadores impotentes duma incompreensível realidade distante
[67].

O Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA) manteve vínculos com outros grupos de inspiração anarquista de Florianópolis, entre estes o Movimento Anarco Punk (MAP), e o Libérula – Tribo Cultural. Outrossim, em seu Boletim Informativo eram divulgados livros à venda no CECCA na instituição, entre os quais: El Apoyo Mutuo de Kropotkin e De la Razón Dialógica a la Razón Profética de Carlos Díaz, além do que estabelecendo um acordo com a Livraria e Editora Insular, localizada no centro de Florianópolis, mediante o qual a loja desta última passou a manter uma seção especial voltada a obras de cunho anarquista com mais de 50 títulos em português e espanhol, que iam desde a Concepção Anarquista do Sindicalismo de Neno Vasco até La Escuela de La Anarquia de Josefa Luengo, que relata experiências espanholas em pedagogia libertária. Mais ainda, a editora decidiu publicar algumas obras do pesquisador libertário Edgar Rodrigues, como Pequena História da Imprensa Social no Brasil, Universo Ácrata e Os Companheiros. [68]
A relação de parceria entre o CECA e a Livraria Insular foi criada graças aos esforços de Jorge Esteves da Silva[69], militante libertário que se fixou em Florianópolis no começo dos anos 90 e que se tornou um dos principais ativistas do Centro. E, também como resultado de suas ações, foram publicados os seguintes livros: O Anarquismo Hoje: uma Reflexão sobre as Alternativas Libertárias; O Nascimento da Organização Sindical no Brasil e as Primeiras Lutas Operárias (1890-1935); A Bibliografia Libertária: um Século de Anarquismo em Língua Portuguesa e A Imprensa Libertária do Ceará (1908-1922).[70]
Mas um dos pontos altos das ações anarquistas em Florianópolis no final do século 20 aconteceu associado aos protestos contra a campanha deflagrada para comemorar os “500 anos do Descobrimento do Brasil”, rebatizada de “Brasil 500 Anos” em razão das polêmicas alusivas ao tema do “descobrimento”. Sob encomenda da Rede Globo de Televisão, a mais importante do país, foram construídos grandes relógios nas principais capitais brasileiras para marcar a contagem regressiva das comemorações, mas no dia 22 de abril de 2000, data em que culminariam as celebrações, manifestações contrárias ocorreram em vários lugares. Na capital de Santa Catarina, havia sido constituído o Cômite Brasil Outros 500, com a presença de militantes libertários, entidade que então convocou uma passeata de protesto na mais importante avenida da cidade, a Beira-Mar, que ao se dirigir para um dos relógios mencionados acima entrou em confronto com a polícia que, de forma truculenta, tentou impedir a manifestação com bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, cassetetes e tiros.
Sobre este episódio, um manifestante comentou:

O relógio situava-se na Beira-mar, a manifestação deu-se em frente ao mesmo, tinha muita gente entre elas: punks, anarquistas, esquerda, estudantes e algumas entidades sociais, houve confronto com a polícia, 3 manifestantes foram atingidos com balas de borracha (também foram usadas outras coisas tipo gás) uma das pessoas atingidas foi o Jorge do Cecca, um anarquista que conhecemos a um tempo, ele levou um tiro no rosto perfurando-o e atingindo a mandíbula, quebrando a mandíbula e alguns dentes (teve que fazer cirurgia).[71]

Como repúdio contra a violência policial, manifestantes rumaram para o centro da cidade e derrubaram os tapumes que encerravam uma obra que despertara muita polêmica, a chamada “revitalização” da Praça 15 de Novembro (um dos mais conhecidos espaços de Florianópolis e do qual a municipalidade, tendo a frete a prefeita Ângela Amin, pretendia afastar elementos indesejáveis, como os artesãos que ali vendiam seus produtos), libertando simbolicamente a praça e aproveitando o madeiramento para confeccionar uma barricada.
Um dos resultados dos protestos foi a prisão de vários manifestantes, conforme relembrou um dos detidos:

São 15:30, embarcamos em um ônibus no Centro, e seguimos para a casa de um amigo, sem suspeitarmos de que nosso ônibus esteja sendo seguido pela polícia. Assim que chegamos à nosso ponto e desembarcamos do ônibus, vamos sendo agarrados e empurrados de encontro a uma cerca de tela, enquanto ficam gritando “abra as penas”, “senta no chão”, “não olha pra trás”, “cabeça entre as pernas”... e tudo isso através de gritos muito repetitivos e alterados, é um momento muito confuso. Quando tenho a chance de olhar um pouco para o lado, vejo um policial pressionando uma 765 (ou algo parecido) cromada contra a cabeça de Josué, e o mesmo contra a cerca. Eles ainda gritam muito, e então, somos todos algemados, com exceção da Madalena, que é de menor. Após todo o espetáculo, decidem nos pôr em seus carros. Só então posso notar que além de mim estão sendo presos Josué, Elias, Pedro Paulo e Madalena[72].

Após quase dez horas detidos, entre acusações e depoimentos, os manifestantes foram soltos depois de pagarem fiança graças à intermediação de alguns vereadores e de um advogado vinculado a movimentos sociais, tendo respondido posteriormente a um processo por danos ao patrimônio público.
A ação da polícia teve ampla repercussão e provocou do então governador do Estado, Esperidião Amin (PPB), um comentário segundo o qual ele afirmava não acreditar que “a polícia tenha exagerado”.[73] Essa, porém, não foi a opinião do então Deputado Estadual Neodi Saretta (PT), para quem houve: “uma repressão violenta aos moldes dos governos autoritários e isso tem que ser investigado”.[74]
Contudo, o ano de 2000 não trouxe apenas enfrentamentos em Florianópolis. No mês de setembro, era realizado o Encontro Internacional de Cultura Libertária, organizado pelo Núcleo de Alfabetização Técnica do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (NAT/CED/UFSC), Núcleo de Educação Intercultural e Movimentos Sociais da mesma instituição (MOVER/UFSC) e Centro de Estudos de Cultura e Cidadania (CECCA/SC), “com a finalidade de aproximar pessoas e grupos interessados no intercambio de experiências, para discutir limites e possibilidades da cultura libertária”[75].
O evento abordou várias temáticas, como pedagogia libertária, sexualidade, comunicação libertária, capoeira angola, intervenção social e contou com a presença de personalidades como José Maria Carvalho Ferreira, diretor da revista Utopia (Lisboa), Ruben Prieto, da Comunidad del Sur[76] (Uruguai), Christian Ferrer, da Universidade Nacional de Buenos Aires (Argentina), Margareth Rago, professora da UNICAMP e integrante do Coletivo Libertárias (São Paulo), Roberto Freire, da Soma terapia (São Paulo), Nildo Avelino, do Centro de Cultura Social (São Paulo), Robson Achiamé (Rio de Janeiro), entre outras, que assinalavam a pluralidade de idéias e tendências do movimento libertário. E em meio à reafirmação de pressupostos anarquistas, rodas de capoeira, palestras, debates, e oficinas, análises foucautianas e reichianas buscavam explicar a complexidade da sociedade moderna baseada em relações de domínio e poder. Veredas estas marcadas por polêmicas, a exemplo da abertura do encontro, quando o terapeuta e libertário Roberto Freire com apoio de grupos como o Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária) e Coletivo Libertárias, propôs a criação de uma Federação Anarquista Brasileira, que incidiu em acaloradas discussões e acusações por destoar dos objetivos do evento. Comentando o Encontro na Rivista Anarchica[77] da Itália, Massimo Rossi, que prestigiou o evento, registrou um interessante perfil da cidade:

Chamam-na Floripa, e é a capital do estado de Santa Catarina. Cidade balneária, meta do turismo de elite do sul brasileiro, desenvolveu em poucos anos o seu próprio bosque de arranha-céus e casas de veraneio. “Aqui não existem pobres nem vagabundos”, nos explicam “porque a polícia não os deixa ficar”. Alguns anos atrás, um prefeito tocador de obras promoveu uma versão local da “tolerância zero” de seu mais notório colega de Nova Iorque. Floripa possui uma praça opulenta, inaugurada há pouco tempo, iluminada inclusive de dia e continuamente vigiada por zelosos funcionários, que com um sorriso de gesso nos lábios intimidam até o mais leve apoio dos pés sobre os bancos.
Isso também, não parece, mas é o Brasil. E nesta terra de extravagantes experimentações micro totalitárias, entre 4 e 7 de setembro, desenrolou-se o encontro internacional dos libertários. Na verdade as delegações estrangeiras representavam apenas um pequeno contingente, mas de algum modo é preciso começar. “Somente poucos anos atrás” graceja um dos organizadores, “para acolher os participantes teria sido suficiente um microônibus; hoje dois ônibus lotados não bastaram”.
[78]

Mais ainda, além de reunir conhecidas personas do meio anarquista, o encontro abrigou um expressivo contingente de anarco-punks proveniente das mais variadas localidades do Brasil ou de países vizinhos, como do Uruguai, que com seus tons e seus sons imprimiam sua presença ao evento.
Um dos promotores do evento, o Núcleo de Alfabetização Técnica, havia sido criado em 1991 e era integrado, entre outras pessoas, por Maria Oly Pey, Ierecê Rego Beltrão, Raquel Stela de Sá e Ana Maria Hoepers Preve, visando divulgar a Pedagogia Libertária[79]. Nesta perspectiva, e sob a inspiração da professora Oly Pey, havia sido criada a Coleção Pedagogia Libertária[80], publicada pela Imaginário (uma editora de livros anarquistas de São Paulo). E sobre tal assunto Oly Pey obervava:

a conveniência e a atualidade da educação decorre da falência das organizações de ensino heterogestionadas, quer de origem estatal, quer de origem confessional ou empresarial, que não dão conta de trabalhar os saberes, aproximando-os da realidade, fazendo sentido para quem aprende e para quem ensina[81].

Valendo-se especialmente da elaboração de oficinas voltadas aos mais diversos grupos sociais, o NAT buscava efetuar práticas educativas baseadas em preceitos freireanos enquanto alternativa do regime escolar. Pois como pontuam, “o trabalho com oficinas é pautado na vontade das pessoas de ampliarem sua relação com as coisas e com o outro no mundo”[82]. Assim,

O NAT segue um caminho de pesquisa-ensino sobre a concepção libertária da educação e a reflexão sobre a prática das oficinas passa a identificar-se com o ideal libertário que envolve a autonomia, a solidariedade e a liberdade libertária de Bakunin e Kropotkin, Ferrer y Guardia até Josefa Luengo; a abordagem não-disciplinar do processo educativo e relações dialógicas no ato de conhecer em interação[83].

Desta forma, através de encontros, polêmicas, manifestações, ocupações de casas, jornais, zines ou da defesa de práticas como a ecologia social e a pedagogia da autonomia, o anarquismo imprimia seus semblantes libertários em Santa Catarina, durante a segunda metade do século 20 especialmente em sua capital, a cidade de Florianópolis. Em meio a isto o anarquismo impulsionado por novas expressões e atores como a contracultura e os anarco-punks se reinventa ora como estratégia de luta, ora como estilo de vida, atualizando seu papel contestador dos valores de uma sociedade mantida pela desigualdade e pelo autoritarismo, buscando e propondo nossos rumos.
Notas:
[1] BIVAR, Antonio. O que é Punk. 4 ed., São Paulo: Brasiliense, 1988. p. 47 e 49.
[2] ABRAMO, Helena Wendel. Cenas Juvenis: Punks e Darks no Espetáculo Urbano. São Paulo: Scritta, 1994. p. 45. Sobre isso, ver também COSTA, Pere-Oriol; TORNERO, Jóse Manuel Pérez; TROPEA, Fabio. Tribus Urbanas. El Ansia de Identidad Juvenil: Entre el Culto a la Image y la Autoafirmación Através de la Violencia. Buenos Aires: Paidós, 1996.
[3] SALEM, Helena. As Tribos do Mal. 9 ed., São Paulo: Atual, 1995. p. 38.
[4] Filme de Stanley Kubrick (1971) baseado na obra de nome homônimo de Anthony Burgess, que trata das aventuras do jovem Alex e seus drugs (amigos). Estreando apenas em 1978 no Brasil devido à censura da Ditadura Militar (mesmo liberado, apareciam bolinhas pretas nas genitais de seus personagens nus), ele se tornaria um dos filmes preferidos entre os punks.
[5] SOUSA, Rafael Lopes de. Punk: Cultura e Protesto. São Paulo: Edições Pulsar, 2002. p. 50.
[6] SALEM, Op. Cit. p. 40.
[7] DELFINI, Luciano & PETTA, Nicolina Luiza de. Para Entender o Anarquismo. São Paulo: Moderna, 2004. p. 81.
[8] Centro de Cultura Social de São Paulo. Fundado em 1933, foi fechado pelo Estado Novo e, também, durante a Ditadura Militar após o AI 5, retomando suas atividades somente em 1985.
[9] SOUSA (2002), Op. Cit. p. 107.
[10] GABEIRA, Fernando. Vida Alternativa: uma Revolução do Dia-a-dia. 4 ed., Porto Alegre: L&PM, 1986. p.22.
[11] Jornal O Estado, Florianópolis, 11 de julho de 1993.
[12] Jornal O Estado, Florianópolis, 13 de julho de 1993.
[13] Zero, Florianópolis, agosto de 1993.
[14] Destacam-se, no Rio Grande do Sul, os squats Colina, Resist, Teimosia e Kasa de Kultura; no Paraná, os espaços Chalé, Getúlio e Mansão; em São Paulo as ocupações Casa Reciclada, Pomba Negra, Dandara e Guaiana; no Distrito Federal, o Centro Cultural Casas das Pombas; e em Santa Catarina, o Corcel Negro.
[15] Grupo formado por integrantes oriundos da Grande Florianópolis, agregando punks de Florianópolis e das cidades de São José, Palhoça e Santo Amaro da Imperatriz.
[16] A Notícia, Joinville, 8 de setembro de 1993.
[17] SOUSA, Janice Tirelli Ponte de. Reinvenções da Utopia. A Militância Política de Jovens nos Anos 90. São Paulo: Hacker, 1999. p. 113.
[18] Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 de setembro de 1994.
[19] Diário Catarinense, Florianópolis, 8 de setembro de 1994.
[20] O Estado, Florianópolis, 8 de setembro de 1997. Matéria intitulada “Excluídos e punks tumultuam Dia da Pátria”.
[21] Carta escrita por um dos membros do CAAP de Florianópolis em 1997.
[22] A Notícia, Joinville, 11 de setembro de 1994.
[23] SOUSA, Janice Tirelli Ponte de, Op. Cit., p. 111.
[24] A Notícia, Joinville, 30 de maio de 1994.
[25] Carta escrita por um dos membros do CAAP datada de 04 de abril de 1997.
[26] Variável do termo fanzine, o qual “(...) é um neologismo formado pela contração dos termos ingleses fanactic e magazine, que viria a significar ´magazine do fã`”, In: MAGALHÃES, Henrique. O que é Fanzine. São Paulo: Brasiliense, 1993. p. 9.
[27] A Notícia, Joinville, 24 de novembro de 1996.
[28] Informativo: La C.N.T. ante la Objecion de Consciencia y la Estrategia de la Insumision al Servicio Militar y a la PSS. [Tradução nossa]. A CNT é uma central sindical anarquista fundada em 1910.
[29] Panfleto intitulado “Mate teus ídolos”.
[30] Sobre a defesa de tal prerrogativa destacamos as seguintes obras: Jesus Cristo era Anarquista (1920) de Everardo Dias e Cristo, o Maior dos Anarquistas (1950) de Anibal Vaz Melo.
[31] Segundo informações apresentadas no próprio zine o nome vem do finlandês “e significa sem rótulos sexuais, ou seja, todo ser humano que quer fazer a sexualidade em livre curso, sem estereótipos”.
[32] Monänoz, informativo nº 1, setembro de 1995.
[33] Valho-me para a elaboração deste breve panorama do encarte da compilação (em fita-K7) de bandas punks intitulada “Antes do Fim”.
[34] Sairiam somente dois números, um em 1997 e outro em 1998.
[35] Informativo do Movimento Anarco-Punk-SC nº1, Piçarras/ Joinville – Abril/ Maio/ Junho de 1993.
[36] Zine Sedição Revolucionária nº 2, Piçarras, março/ abril de 1993.
[37] O Primeiro Congresso Nacional Anarco Punk, ocorreu em 1989 em Curitiba.
[38] A Notícia, Joinville, 12 de abril de 1993.
[39] GALLO, Sílvio. Anarquismo: uma Introdução Filosófica e Política. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000. p. 35.
[40] Informativo do Movimento Anarco Punk-SC nº 2, agosto/ setembro de 1993.
[41] A Notícia, Joinville, 4 de fevereiro de 1990.
[42] Carta escrita por um dos membros do CAAP datada de 04 de abril de 1997.
[43] Nome em esperanto que quer dizer: Objetivo de Revolta. Publicação de poesias em formato de livreto.
[44] Jornal Informação, São Bento do Sul, 24 de maio de 2000.
[45] Sobre esta vinculação entre informática e anarquismo, consultar o texto de sua autoria. GUERRA, Carlos Gustavo M. Contracultura e as Possibilidades Libertárias da Informática. In: SIEBERT, Raquel Stela de Sá (Org.). Educação Libertária: Textos de um Seminário. Rio de Janeiro: Achiamé; Florianópolis: Movimento-Centro de Cultura e Autoformação, 1996.
[46] Informativo elaborado por Libérula – Tribo Cultural, Florianópolis, março de 1993.
[47] Relação de localidades envolvidas no começo de 1993.
[48] Carta elaborada em julho de 1993 a partir de uma reunião na praia do Campeche, Florianópolis, em que se pode ler: “é fundamental que os movimentos sociais adquiram uma consciência ecológica, e que os movimentos ecológicos adquiram uma consciência social”, “valorizamos uma identidade latino-americana “SEM FRONTEIRAS”, fundada na recuperação do patrimônio cultural dos povos originais”, etc. Retirado do Boletim Informativo do CECA/SC, Ilha de Santa Catarina, nº 10, agosto de 1993. p. 3.
[49] Encontro que agregava eventos artísticos (com oficinas e espetáculos de dança, cinema cerâmica, etc.), científicos-filosóficos (com seminários e debates sobre pedagogia libertária, desenvolvimento sustentável, Mercosul, ecologia e saúde), e tecnológicos (com oficinas voltadas para utilização de tecnologias alternativas).
[50] LiberNete, Florianópolis, nº 12, Inverno de 1994.
[51] Subversidade, nº 1, Florianópolis, maio de 1996.
[52] Deste pensador anarquista há uma obra publicada em Santa Catarina pela Universidade Regional de Blumenau, intitulada: Portugal no Contexto da “Transição para o Socialismo” (História de um Equívoco) de 1997. E o artigo “Globalização, Trabalho e Movimentos Sociais” publicado pela Fronteiras – Revista Catarinense de História nº 8, 2000.
[53] Revista Anarquista de Cultura e Intervenção, criada em abril de 1995 em Lisboa (Portugal).
[54] Transcrito da gravação (em fita-cassete) efetuada pelos membros do programa.
[55] Idem.
[56] Conferências que seriam reunidas no livro: Educação Libertária: Textos de um Seminário, publicado pela editora Achiamé em 1997. Em sua passagem por Florianópolis, participou do debate: “Uma ética da solidariedade para os movimentos sociais”, realizado no dia 7 de agosto no auditório do Sindicato dos Bancários.
[57] Jornal Linha Viva publicação da intersindical dos Eletricitários de Santa Catarina. Nº 281, 10 de agosto de 1994.
[58] A Notícia, Joinville, 22 de março de 1997.
[59] Especialista em bioética, entre suas obras publicadas no Brasil, destacamos: Ética Prática (1998), Vida Ética (2002) e Libertação Animal (2004).
[60] SINGER, Peter. Libertação Animal. Porto Alegre: Lugano, 2004. p. XXI.
[61] A Notícia, Joinville, 16 de fevereiro de 1997.
[62] Jornal Folha da Lagoa, Florianópolis, março de 1997.
[63] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 07, Ilha de Santa Catarina, abril de 1993. p. 5.
[64] Idem. p. 12.
[65] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 09, Ilha de Santa Catarina, junho de 1993. p. 1.
[66] Anarquista norte-americano, foi professor da Universidade Alternativa de Nova York, publicou várias obras sobre problemas ecológicos e urbanos.
[67] Boletim Informativo do CECA/ SC, nº 13, Ilha de Santa Catarina, dezembro de 1993. p. 1. (AMAP). Um outro texto desta natureza intitulado “Municipalismo: a Democracia Local”, extraído do jornal anarquista A Batalha (Portugal), era publicado no Boletim Informativo nº 15, de março de 1995.
[68] Em 1997 era publicado “Os Companheiros” vol. 3 e 4; em 1998 “Os Companheiros” vol. 5 e “Pequena História da Imprensa Social no Brasil”; em 1999 “Universo Ácrata” vol. 1 e 2.
[69]Jorge E. Silva também contribuiu em revistas anarquistas, tais como: Libertárias (São Paulo) e Letra Livre (Rio de Janeiro). De sua autoria ainda podem ser encontrado dois textos que compõem a obra “Encontro Educação Libertária” publicado pela Universidade Federal de Santa Maria em 1998.
[70] Estes dois últimos trabalhos eram escritos em parceria com a historiadora cearense Adelaide Gonçalves.
[71] Carta datada de 21/ 08/ 2000.
[72] Relatório sobre os ocorridos em 22 de abril de 2000. Os nomes são fictícios, criados enquanto alegoria bíblica. Documento elaborado por integrantes anarco-punks, visando relatar a repressão empregada contra as manifestações dos “500 Anos”.
[73] O Estado, Florianópolis, 25 de abril de 2000.
[74] Idem.
[75] Informação extraída de uma das primeiras circulares de divulgação do evento.
[76] Surgida nos anos 50 através de um grupo de estudantes anarquistas de Montevidéu, La Comunidad del Sur é uma das mais antigas comunidades libertárias em atividade da América Latina. Politicamente baseada na Ecologia Social, angaria recursos para seus projetos através da prestação de serviços realizados pela sua gráfica e Editora, além do que, na chácara onde funciona, são produzidos doces, biscoitos, pães, e uma agricultura de subsistência.
[77] Publicação mensal editada em Milão desde 1971.
[78] Rivista Anarchista, anno 30, nº 267, novembro de 2000. Tradução: Carlo Romani. Disponível em http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/267/11pt1.htm. Acessado em 13 de maio de 2008.
[79] Outros integrantes eram Clóvis Nicanor Kassick, Guilherme Carlos Corrêa, Rita Cássia Oenning da Silva, Antonio Fernando S. Guerra, Maria Luiza P. L. Guerra, Fábio Machado Pinto e Ademilde S. Sartori Vale lembrar que já no Brasil da Primeira República a educação era vista como decisiva para o processo de transformação social, conquistando lugar de destaque nas discussões anarquistas. Sobre isso, ver: JOMINI, Regina Celia Mazoni. Uma Educação para a Solidariedade. Campinas: Pontes, 1990.
[80] Publicou-se: Pedagogia Libertária – Experiências Hoje, com textos de Josefa Martin Luengo, Encarnación Garrido Montero, Maria Oly Pey e Guilherme Carlos Corrêa; e Corpos Dóceis, Mentes Vazias, Corações Frios de Ierecê Rego Beltrão.
[81] PEY, Maria Oly. Introdução. In: SIEBERT, Raquel Stela de Sá (Org.). Educação Libertária: Textos de um Seminário. Rio de Janeiro: Achiamé; Florianópolis: Movimento-Centro de Cultura e Autoformação, 1996. Entre as obras das quais Maria Oly Pey participou destacamos: Esboço para uma História da Escola no Brasil: Algumas Reflexões Libertárias (2000); Recordando Paulo Freire: Experiências de Educação Libertadora na Escola; As Pegadas de Foucault: Apontamentos para a Pesquisa de Instituições (2007).
[82] Encontro Educação Libertária: Textos. Santa Maria: UFSM, 1998. p. 151.
[83] PEY, Maria Oly, et al. Pedagogia Libertária: Experiências Hoje. São Paulo: Imaginário, 2000. p. 121.

Integrantes do Animal Liberation Front de Florianópolis


sábado, 16 de maio de 2009

Na Lembrança um Amigo




É com grande pesar que lemos no jornal de Portugal Correio da Manhã, de 15 de maio a notícia de falecimento do amigo e companheiro Antônio Correia Francisco, mais conhecido pelo pseudônimo de Edgar Rodrigues, um dos mais importantes pesquisadores do movimento anarquista e das lutas operárias em Portugal e no Brasil. Nascido em Angeiras/ Porto, a 12 de março de 1921, fugindo da ditadura de Oliveira Salazar e sua P.I.D.E. (Polícia Internacional de Defesa do Estado), a qual efetuava “cruéis e brutais perseguições (...) especialmente, contra anarco-sindicalistas”[1] - que vitimiza seu pai Manuel Francisco Correia -, exila-se no início da década de 1950 no Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro, logo agregando-se ao movimento anarquista brasileiro.


Nestes mais de cinqüenta anos de militância libertária equacionara importante contribuição a imprensa libertária brasileira e internacional (escrevendo para El Libertário de Cuba, Solidariedad Obrera da França, Ação Direta do Brasil, Voluntad do Uruguai, entre outros) assim como, dando forma a uma gama de obras especialmente sobre as experiências libertárias no Brasil que excedem mais de 50 livros, enquanto fruto de exaustivo trabalho de coleta e compilação, iniciado em 1957, a principio para atender um pedido do jornal Voluntad de Montevideu (Uruguai), pouco a pouco dando forma e tons a um trabalho mais amplo. Entre suas primeiras obras destacam-se três importantes estudos sobre as trajetórias operárias e libertárias fomentadas sobretudo na primeira metade do século 20, Socialismo e Sindicalismo no Brasil [1969], Nacionalismo e Cultura Social [1972] e Novos Rumos [1978] - publicados em meio a ditadura militar que oprimia a sociedade brasileira- , escritos estes, que se tornariam destacadas referências do movimento operário no Brasil. Sobre as motivações de sua pesquisa, comentou: “para mim escrever livros foi uma conseqüência da pesquisa e coleta de informações. A minha formação é autodidata, os métodos de pesquisa, se assim os posso chamar, são os que fui experimentando e melhorando ao longo desse meu trabalho. Minha principal preocupação tem sido não deixar perder documentos que ia descobrindo e divulgar uma história que vinha sendo ocultada e deturpada do movimento social no Brasil”[2]. Reportando-se a sua trajetória de pesquisador social, em uma de suas cartas remetida a minha pessoa mediante intercambio de informações sobre pesquisas iniciado em 2004, ele escreve: “saía do Rio de Janeiro, nos fins de semana procurando pessoas e publicações que a maioria não existiam. Fiz uma imensa lista com mais de 500 títulos e andava também pelos sebos, etc. Em jornais diários também consegui muita coisa, com a devida cautela (...) Foi assim que cheguei ao que fiz e a um arquivo – creio que valioso – que cheguei a ter”[3].


E nesta senda, fica na memória a curta, porém gratificante troca de idéias realizada via correspondência com Edgar, que desde o primeiro momento mostrou-se disposto a socializar informações a cada carta, apoiando minhas investigações sobre as experiências libertárias em Santa Catarina – motivadas por seus trabalhos -, que davam os lampejos iniciais, outrossim, me remetendo várias de suas obras, entre essas seu último trabalho publicado em vida Lembranças Incompletas – que ampliavam minhas leituras, assim como, meu mosaico de sinais. E neste tempo de amizade à distância, Rodrigues afirma: “quero também dizer que louvo e incentivo e apoio o seu trabalho e de outros jovens companheiros que entram nessa seara sem fim que sensibiliza todos os que nela entram: a pesquisa social é muito emocionante, desperta o interesse cada vez maior de descobrir mais e mais (...)”[4].


Mesmo que aos 88 anos de idade esse artesão da escrita nos deixe, seu exemplo e sua obra espelham a grandeza de seu caráter.
Assim como minha primeira carta remetida ao anarquista e esperantista Edgar Rodrigues iniciava com um Saluto Anakisto (em esperanto), encerro essa escrita com De nun Resopiro[5].



[1] RODRIGUEZ, Edgar. O Retrato da Ditadura Portuguesa. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962. p. 7.
[2] Catálogo da Exposição Edgar Rodrigues – Pesquisador Libertário da História Social de Portugal e do Brasil. Lisboa: Associação Cultural A Vida, 2002. p. 17.
[3] Carta de Edgar Rodrigues datada de 13 de dezembro de 2004.
[4] Carta de Edgar Rodrigues datada de 14 de agosto de 2006.
[5] Desde já saudades.

domingo, 10 de maio de 2009

Cristo Nunca Existiu



Não tenho a mínima intenção de alterar uma vírgula nos tratados de vossa fé nem nos abismos de vossa ignorância, apenas pretendo transmitir estas notícias aos poucos estudiosos e pesquisadores que têm soberania de pensamento e que, desde o alto de suas inquietudes, saberão ler-me sem pestanejar, sem surtos histéricos e sem grandes escândalos.


Entendo perfeitamente bem que depois de tantos séculos de mentiras e de desgraças, depois de tantas esperanças frustradas e de terrores introjetados, depois de tantos anos de conspiração contra a saúde mental das pessoas, a realidade caia sobre os beatos mais alienados como uma bomba. Mas é só respirar fundo, tomar uma água com açúcar que tudo volta ao normal. Afinal, todo mundo sabe que não dá para mentir durante tanto tempo e que a omissão da verdade vai se tornando cada vez mais insustentável.


1. O ASSUNTO


Foram muitos os pensadores e pesquisadores que dedicaram parte de suas vidas buscando provas materiais e históricas sobre a existência de Cristo. Tal fundamento jamais foi encontrado. O que se tem presenciado desde o princípio do cristianismo até hoje é que a existência de Jesus tem sido obsessivamente defendida por meio de peças e documentos nada científicos (como a Bíblia) e de testemunhos forjados por aqueles que sempre tiveram interesse religioso, econômico e político nessa existência.


Bibliotecas e museus guardam documentos e escritos de autores que foram "contemporâneos de Jesus", só que neles não há nenhuma referência a esse multifacetado personagem. Os documentos que a igreja detêm a respeito, não possuem valor histórico, já que originalmente não mencionavam o nome de Jesus, e que foram rasurados, adulterados e falsificados, visando suprimir a ausência de documentação verdadeira. Essa falta de comprovação torna-se ainda mais significativa quando comparamos Jesus com Sócrates, por exemplo, que apesar de haver vivido vários séculos antes da lenda cristã, deixou comprovada sua existência, sua produção filosófica e cultural, seus pensamentos e inclusive seus discípulos (Aristóteles, Platão, Fédon etc).


Enquanto que Jesus não deixou verdadeiramente nada de palpável, seus discípulos teriam sido analfabetos que nada escreveram e que também não foram mencionados em lugar nenhum pelos historiadores da época.


Segundo um estudo realizado por La Sagesse, Jesus Cristo foi apenas uma entidade ideal criada para fazer cumprir as escrituras, visando dar seqüência ao judaísmo em face da diáspora e da destruição do Templo de Jerusalém. Teria sido um arranjo feito em defesa do judaísmo que então morria, surgindo uma nova crença, na qual ­ paradoxalmente - os judeus nem crêem. Tudo foi planejado para que o homem comum, as massas e os rebanhos continuassem sendo dóceis e fácil de manipular pelas mãos hábeis daqueles que historicamente sempre aproveitaram as religiões como fonte de lucros e de poder.



2. PROVAS E CONTRA-PROVAS


Flávio Josefo, Justo de Tiberiades, Filon de Alexandria, Tácito, Suetônio e Plínio (o Jovem), segundo a igreja católica, teriam feito referências a Cristo em seus escritos, só que esses documentos quando submetidos pela ciência a exames grafotécnicos, apresentaram provas de que haviam sido adulterados, parcialmente alguns e totalmente outros, pela igreja.


Além disso, o nome Crestus, Cristo e Jesus eram nomes muito comuns tanto na Galiléia como na Judéia e não se sabe a quem eram feitas as referências. Filon de Alexandria, apesar de haver contribuído muito para a construção do cristianismo, nega a existência de Cristo. Escrevendo sobre Pôncio Pilatos e sobre sua atuação como Procurador da Judéia, não faz referência alguma ao suposto julgamento de Jesus. Fala dos essênios e de sua doutrina comunal sem mencionar para nada o nome de Cristo. Quando esteve em Roma para defender os judeus, Filon fez os relatos mais diversos de acontecimentos ocorridos na Palestina, não dando nenhum dado sobre o personagem Jesus. É importante lembrar que Filon foi um dos maiores intelectuais de seu tempo, que estava muito bem informado e que jamais omitiria uma vida tão curiosa e tão trágica como a de Jesus. E o silêncio de Filón não se refere apenas a Jesus, mas também aos apóstolos, a José e a Maria.


Flavio Josefo, que nasceu no ano 37 e que escreveu até o ano 93 sobre o cristianismo, sobre o judaísmo, sobre os messias e os cristos do período, nada disse sobre Jesus Cristo. Justo de Tiberíades que escreveu a história dos judeus, desde Moisés até o ano 50, não menciona a Jesus. Os gregos, os romanos, os hindus dos séculos I e II, jamais ouviram falar da existência física de Jesus Cristo. Os trabalhos filosóficos e teosóficos dos professores da Escola de Tubingem demonstraram que os evangelhos e a Bíblia não possuem nenhum valor histórico e que tudo o que consta neles são arranjos, adaptações e ficções como o próprio Cristo o foi.



3. CRESTUS E CRISTO


Em 1947, em Coumrã, foram encontrados documentos escritos em hebreu que falavam em Crestus e não em Cristo. A igreja, ao tomar conhecimento da descoberta de tais documentos, pretendeu fazer crer que o tal Crestus era o mesmo Cristo de sua criação, só que as investigações posteriores deixaram muito claro que se tratava de uma fraude da igreja e que Crestus não era o Cristo que a igreja pretendia inventar.

Tais documentos haviam sido escritos quase um século antes da novela do Calvário e que Crestus era um líder de uma comunidade legendária e comunista.



4. OS FILÓSOFOS E OS HISTORIADORES DIANTE DO MITO


Todos os historiadores que conseguiram «historiar» movidos pelas evidências e não pela fé ou pelo fanatismo negam a existência de Jesus Cristo. Reimarus, filósofo alemão (1768) chegou a conclusões irrefutáveis que abalaram a igreja, tanto ou mais que as conclusões de Darwin e de Copérnico. Kant foi o primeiro filósofo que expulsou Jesus da história da humanidade. Volney, em "Ruínas de Palmira", nega a existência de Jesus. A. Drews viveu e estudou durante muitos anos a história da Palestina e constatou que o cristianismo foi totalmente estruturado sobre mitos e mentiras. Dupuis, Reinach, Kapthoff, Couchoud etc, todos coincidem em dizer que tudo não passou de uma farsa aplicada sobre os homens de fé e um jogo político usado para fins de domínio.



5. OUTRAS FONTES DO CRISTIANISMO


O cristianismo não passa de plágios e de uma montagem de filosofias, religiões, valores éticos e morais, mitos e preconceitos pirateados de outras culturas. Como se sabe, antes do mito de Cristo já existiram centenas de outros supostos «redentores», de outros «messias», outros «enviados»... e quase todos anunciados e nascidos de virgens, milagreiros e humanitários que prometiam voltar para redimir o populacho de suas culpas (quê culpa?) e de seus pecados, blábláblá. Até hoje, entre os mais famosos e com mais status podemos citar Buda, Vishnu, Krishna, Mitra, Horus, Adonis etc. Inclusive os preceitos e a moral usada pelo cristianismo e atribuída a Cristo, foi sugerida e divulgada milhares de anos antes, por filósofos, charlatães e visionários. Exemplos:


(a). "Não faças aos outros o que não queres que a ti seja feito", pode ser encontrado no budismo, no bramanismo e nos escritos de Confúcio seis mil anos antes.


(b). "Perdoar aos inimigos", já havia sido aconselhado por Pitágoras muitos anos antes de Cristo.


(c). "Fraternidade e igualdade", foi insistentemente preconizada por Filón.


(d)."Tolerância e virtude". bem como o humanismo, a castidade e o pudor foram sugeridos e recomendados por Platão.


(e). Aristóteles já enchia o saco dos gregos com a idéia de que a "comunidade deve repousar no amor e na justiça".


(f). Sêneca aconselhava "o domínio das paixões bem como a insensibilidade à dor e aos prazeres". Ao mesmo tempo em que pedia "indulgência para com os escravos, já que todos os homens eram iguais". Os homens - segundo Sêneca e segundo Cristo - deviam amar-se uns aos outros etc. Todos esses clichês e chavões que os cristãos acreditam ser de seu mestre foram plagiados pelos inventores e gerentes da nova religião.


Para concluir: os organizadores do cristianismo não fizeram mais que selecionar, acrescentar e diagramar os pilares da nova e mais popular religião do planeta, religião que assaltaria o mundo e o tomaria de surpresa, prometendo-lhe exatamente o que a miséria e a imbecilidade generalizada de então precisava ouvir.


Não fizeram mais do que aproveitar-se da cegueira e da ignorância dos rebanhos, inventando novelas e anedotas sem sentido que eram sempre respaldadas pelo "mistério", pelas "complexidades divinas", pelo "sobrenatural" e pelo "incognoscível", . propagandeando um "paraíso" fora da terra (lógico) para os debilóides, e a volta do "Salvador".


Tempo, as deficiências culturais e mentais, a lingüística, a informática, a propaganda enganosa, o comércio e muitos outros fatores foram fazendo dessa mentira pueril do messias uma verdade inquestionável, a ponto de alguns fanáticos afirmarem como um dos tantos e cômicos personagens Bíblicos: "CREIO PORQUE É ABSURDO".


Concluindo, como disse no princípio, não pretendo alterar a fé e nem as crenças de ninguém. Primeiro, porque não sou pastor, nem rabino, nem sacerdote e nem o Anticristo profetizado; segundo, porque a vida me ensinou que com alcoolistas, religiosos e políticos o diálogo é impossível. Prefiro, desde o alto de minha plataforma, ficar assistindo essa vil canalhice religiosa que segue (com a cumplicidade dos governos, dos exércitos, da mídia, das universidades e até das putas) contaminando crianças, mulheres, velhos e todos os tipos de otários. Quando me falta o ar e preciso purificar-me de toda essa baboseira infecta, recito as 14 palavras do velho Proudhon: "Os que me falam de religião querem meu dinheiro (que não é muito) ou minha liberdade (que é inegociável)". Amém!
Ézio Flavio Bazzo (um provocador de plantão)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Maio Vermelho e Negro



“Não. O Primeiro de Maio não é um dia de festa. É um dia de luto e de protesto. E é um dia em que se ensaiam, pondo-as á prova, as forças revolucionárias do proletariado de todo o mundo”. Bradava assim, o jornal A Voz do Trabalhador – Órgão da Confederação Operária Brasileira -, de 15 de abril de 1913 impresso no Rio de Janeiro por mãos plebéias. Mas o que estaria por trás do Primeiro de Maio, esta data aclamada pelas classes laboriosas? Pois bem, convido-os a mergulharem neste afluente da história, deixando-se levar por suas correntezas, rumo a terras distantes.


Manhã de sábado, primeiro dia de Maio de 1886, uma greve geral silencia várias cidades norte-americanas, especialmente Chicago. Envoltos pelas idéias socialistas e anarquistas, trabalhadores organizados num movimento pacífico reivindicam: “Oito horas de trabalho! Oito horas de repouso! Oito horas de educação!”. Manifestação que seria recebida pelas autoridades com truculência. Frente a tal situação, manifestantes marcam para o dia 4 de maio um comício contra a violência, que terminou em mais agressões diante o ataque feroz de policiais contra homens, mulheres e crianças, tumulto que se agravaria ainda mais, mediante a explosão de uma bomba, ferindo cerca de sessenta pessoas e matando oito policiais. O autor real do atentado nunca fora descoberto.


Tal acontecimento seria imortalizado pela obra de Frank Harris A Bomba, escrito que apesar de assumir-se como ficcional, para muitos (pelos detalhes da descrição) seria uma espécie de confissão, elaborada pelo responsável da explosão. Seja como for, diante do incidente com a bomba, a polícia de Chicago age com mais violência contra os manifestantes, deixando as ruas tingidas de sangue. Sobre este trágico dia, José Luiz Del Roio, na obra A história de um dia: Primeiro de Maio, comenta: “Nunca se conseguiu apurar quantos foram os mortos daquele maldito dia, pois os corpos foram enterrados às escondidas. Seguramente foram dezenas. É decretado o estado de sítio e a proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores são presos, muitas sedes sindicais incendiadas”.


Além da violência contra os trabalhadores, às autoridades norte-americanas moveriam uma ação judicial contra destacados militantes sindicais, chegando inclusive a responsabilizá-los pela explosão da bomba. Entre os processados estavam: os anarquistas August Spies e Michel Schwab (redatores dos jornais operários: Arbeiter Zeitung [Jornal do Trabalhador], e Verboten [Proibido]), Albert Parsons (editor do jornal Alarm), assim como, Sam Fielden, Oscar Neeb, Adoloph Fischer, Louis Lingg e Georg Engel.


Iniciado em 21 de junho de 1886, o julgamento seria marcado por provas e testemunhas forjadas, visando efetuar uma punição exemplar ao movimento operário organizado, sendo que todos acabariam condenados: Neeb pega quinze anos de cárcere; Schwab e Fielden prisão perpétua; Engel, Fischer, Parsons, Lingg e Spies à forca. Diante da sentença – conforme destaca José Luiz Del Roio -, Neeb, expõe: “Cometi um grande crime, excelência. Eu vi os balconistas dessa cidade trabalhar até 9 ou 10 horas da noite. Lancei um apelo para a organização da categoria e agora eles trabalham até as 7 horas da noite; aos domingos estão livres. E isso é um grande crime”.


E, sob a espada da “justiça”, no dia 11 de novembro, os condenados foram levados à forca, ocasião em que Georg Engel gritou: “Viva a anarquia!”. Com isso, os “Mártires de Chicago” marcariam para sempre o Primeiro de Maio enquanto uma data em prol daqueles que sobrevivem da sua própria labuta. Assim, enquanto as autoridades, pelo poder da violência silenciavam tais homens suas idéias e sonhos - de tempos menos injustos – permaneceram vivas, germinando ora aqui, ora ali.
Cleber Rudy

domingo, 26 de abril de 2009


Primeiro Colóquio do Anarquismo Social em Florianópolis




Em meio a sexta-feira chuvosa que encharcava a paisagem urbana da outrora Desterro, anarquistas, simpatizantes da causa libertária e personas afins se reuniam - rompendo a monotonia citadina -, no começo da noite do dia 24 de abril, no centro da capital catarinense, na sede do Sintespe, para conversas e debates em torno da prática e eficácia do anarquismo social nas atuais lutas implementadas no Brasil.

Giovanni Baldelli define anarquismo social nos seguintes termos: “significa que o anarquismo visa o bem da sociedade (...) os homens, por quererem e estimarem certas coisas, encontrarão no anarquismo o melhor sistema para as salvaguardar”, que no Brasil faz adeptos via experiências levadas a cabo por entidades como a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e a Federação Anarquista Gaúcha (FAG) de Porto Alegre, representadas no Colóquio por Rafael Viana (FARJ e Movimento dos Trabalhadores Desempregados) e Eduardo Colling (FAG), outrossim contando com a presença de Victor Calejon do Movimento Passe Livre, e do professor José Carlos Mendonça, da área da Sociologia Política e vinculado ao marxismo heterodoxo que sinalizava um contraponto ideológico, enquanto demonstração de distinções e aproximações entre as idéias anarquistas e marxista, no campo da teoria política. Pois como observou o pensador norte-americano Gilbert Green “o marxismo e o anarquismo têm uma coisa em comum: ambos mostram profunda preocupação pelo destino do homem e firme crença na viabilidade de uma sociedade em que, (...) ´o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos`.” Tentativas de aproximações destas duas tendências socialistas – salvo críticas a parte -, ganhariam corpo especialmente a partir dos anos 60, tendo como alguns dos seus importantes representantes o francês Daniel Guerin (defensor de uma espécie de marxismo libertário) e o espanhol Carlos Díaz, ainda como, no Brasil, Mauricio Tragtenberg.

Permeando experiências libertárias voltadas para o âmbito social, especialmente as realizadas pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), - entidade surgida em 2003 -, Rafael Viana dá exemplos através de trabalhos sociais relacionados com reciclagem, agro-ecologia/eco-educação, cooperativa de bolinhos, realizada na periferia do Rio e envolvendo desempregados, assim como, articulações com o movimento dos sem-tetos, etc..., o Colóquio pontuou insistentemente a importância da atuação anarquista nos movimentos sociais, em prol da organização popular e da luta de classes, rumo a revolução social...

Evento que disponibilizava os últimos lançamentos da editora Faísca entre estes Anarquismo Social e Organização elaborado pela FARJ e Catecismo Revolucionário de Mikhail Bakunin e jornais como: Socialismo Libertário e Libera.

Organizado pela FARJ, FAG, Editora Faísca e Grupo da Idéias e Práticas Anarquistas (GEIPA) de Joinville, tal Colóquio surge da troca de idéias e experiências dos membros da Rede de Apoio da FARJ que no começo de fevereiro do corrente reunia-se em Florianópolis, esmiuçando entre as suas propostas o estreitamento de laços entre militantes da Rede de Apoio da FARJ e grupos ou indivíduos anarquistas alhures, assim como, e especialmente com os movimentos sociais, outrossim, da realização para o mês de abril do Primeiro Colóquio do Anarquismo Social nas cidades de Curitiba, Florianópolis e Joinville.

Os articuladores da reunião em sua carta aberta da rede de apoio à FARJ pontuam: “Nas cidades de Curitiba/PR, Joinville/SC e Florianópolis/SC não existem registros históricos de organizações específicas anarquistas, e até onde sabemos, a militância anarquista iniciada nos fins do século XIX pelos imigrantes europeus, em meio as organizações sindicais, aos poucos se desorganizou e se desarticulou, não sendo hoje, nem sombra da ameaça que já representou ao capital, e nem a esperança de justiça e liberdade que já foi referência para as classes exploradas. Atualmente, e desde os anos da ´reabertura democrática` no Brasil, a referência normalmente encontrada nessas cidades é a do Anarquismo Comportamental, defendida e propagandeada pelas correntes identificadas com a contracultura.”

Dito isto, torna-se oportuno uma crítica atrelada a importância de averiguar as formas e cores das trajetórias libertária em Santa Catarina - que situado em suas especificidades se distancia do modelo de luta anarquista implementando na região sudeste -, o Estado catarinense sem grandes mobilizações operárias em grande parte de seu território (a exemplo de Florianópolis, Lages, São José, que jamais abrigaram um grande número de indústrias) seria marcado por experiências dispersas, que agregavam em certo grau muito mais práticas individuais do que coletivas, assim como, efetuando certa vinculação com outros setores revolucionários (socialistas, anticlericais). Não obstante, na primeira metade do século 20 em Santa Catarina, tem-se uma atuação marcada majoritariamente por imigrantes, como os italianos, Giovanni Rossi (em Rio dos Cedros e Florianópolis), José Verzola e Arthur Galletti (em Florianópolis), Nulo Beccari e Cesare Sartori (em Lages) dos espanhóis, Carlos Condor (em Joinville) e Baldomero Miguez (em Curitibanos e Videira) dos alemães Fritz Koch e George Sterneck (Blumenau), que mesmo não compondo agremiações ou no mais das vezes movimentos organizados, interferiam na realidade local, quer via greves, boicotes, distribuição de periódicos como A Plebe e A Lanterna ou através da criação de cooperativas agrícolas ou colônias ácratas. Outrossim, efetuando um estreito contato com centros urbanos politicamente mais dinâmicos como São Paulo e Rio de Janeiro.

Por seu turno, na segunda metade do século 20, especialmente a partir do “processo de abertura” sinalizado pelo governo Geisel nos anos 70, grupos libertários começam a ganhar forma sobre tudo na capital catarinense, a exemplo do Núcleo Anarquista de Florianópolis (NAF) formado por alunos universitários e engajado em campanhas pela Anistia, que se mostrava articulado com outros coletivos sulistas na distribuição do jornal baiano O Inimigo do Rei que naquele período convertia-se num dos importantes veículos de propagação das idéias anarquistas (cingido ao pensamento da contracultura) no Brasil.

Neste sentido, pelos anseios dos “inimigos do rei” articulados em Santa Catarina, e com fortes vínculos como anarquistas gaúchos – e em contato com grupos do sudeste -, se organiza nos anos 80, um importante encontro libertário na esteira da “re-abertura”, realizado na Lagoa da Conceição num espaço cedido por Wilson Rio Apa – importante figura do anarquismo em Santa Catarina, responsável pelo extinto jornal libertário ClãDestino -, em pleno carnaval de 1982, contando com a presença de libertários de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, visando entre outras discussões a reorganização dos trabalhadores segundo os princípios do Sindicalismo Revolucionário – enquanto referência as premissas do Primeiro Congresso Operário Brasileiro de 1906, que deu forma a Confederação Operária Brasileira (COB) -, defendendo a proposta de redução da jornada de trabalho e a produção autogestionária, resoluções acordadas durante este encontro de cariz nacional que seriam encaminhadas ao CONCLAT (Congresso Nacional das Classes Trabalhadoras) que se realizaria em São Paulo. Em 1984, do intercâmbio de militantes de Santa Catarina com a Editora Novos Tempos de Plínio Augusto Coelho, situada em Brasília, marcava presença nas cidades de Florianópolis e Blumenau o pensador francês Jean Bancal, que falava sobre a importância do pensamento de Pierre-Joseph Proudhon, em prol da autogestão e contra o burocratismo estatal.

Tempo depois, via a insistência de libertários do Rio Grande do Sul era realizada a Primeira Jornada Libertária em Florianópolis em fevereiro de 1986, com apoio internacional da CNT da Espanha, FORA da Argentina entre outros, evento que tinha como pauta principal a reconstrução da Confederação Operária Brasileira (COB), enquanto entidade autônoma de luta da classe trabalhadora, versando ainda, preocupações referentes a ecologia social, pedagogia libertária e a articulação dos anarquistas nos movimentos sociais, sinalizando desta forma, para um novo contexto de lutas sociais do pós-ditadura cingido por novos atores (a exemplo: movimento negro, ecológico).

Nesta senda, surge nos anos 90 o Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA) que se definia como um órgão de assessoria para projetos alternativos calcado em perspectivas libertárias, que através de um grupo de Ação Jurídica tinha como meta central o estudo e a pesquisa de um direito alternativo, e que desenvolvia a “prestação de serviços aos movimentos sociais em áreas como direitos humanos, conflitos de propriedade, direitos do consumidor, direito ecológico” . E como um de seus resultados pode ser mencionado o amparo no campo jurídico à luta implementada junto aos moradores do bairro Rio Tavares, contra a ocupação irregular da área de preservação da Lagoinha Pequena. Posicionamentos favoráveis a práticas marcadas pela ecologia social, assim como, pelo municipalismo libertário de Murray Bookchin, fizeram parte das pautas do CECCA, que manteve produtivos vínculos com demais movimentos na Ilha de Santa Catarina como o Movimento Negro, o Movimento Anarco Punk – que em 1993 dava o primeiro passo referente a prática de okupação urbana no Brasil de cariz libertário, enquanto ação agregada do movimento squatter -, e o Libérula – Tribo Cultural, grupo este, responsável pelo informativo LiberNete e pela criação de uma Rede Libertária em 1993 que agregava o coletivo Grávida de Curitiba, Centro de Estudos Libertários (CEL) do Rio de Janeiro, e militantes de São Paulo.

Os anos 90 gestavam ainda práticas realizadas no campo da pedagogia através da criação em 1991 do Núcleo de Alfabetização Técnica (NAT), integrado por Maria Oly Pey, Ierecê Rego Beltrão, Raquel Stela de Sá, entre outros, que propunham um educação libertária, que se valendo da elaboração de oficinas voltadas aos mais diversos grupos sociais, buscava “trabalhar os saberes, aproximando-os da realidade, fazendo sentido para quem aprende e para quem ensina” . Anseios pedagógicos marcados pelo ideal libertário levados a cabo nos dias atuais no bairro Siriú em Garopaba, através do Instituto Amanamanha, que almeja a desenvoltura de práticas autogestionárias, através de práticas educativas com crianças.

Outra experiência que merece registro no presente tempo, é a Ong Anarquistas Contra o Racismo (ACR) de Criciúma, que trabalha conjuntamente com segmentos do Movimento Negro, desenvolvendo trabalhos sociais com crianças de bairros periféricos. Também através do espaço Kaleidoscópio, que abriga biblioteca comunitária, desenvolvem amostra de vídeos, oficinas de culinária, artesanato..., sendo ainda responsáveis pela realização do evento Maio Negro (que vai para 8 anos de existência), que vinculado a UNESC promove palestras e discussões acerca das populações afrodescendentes, enquanto agentes históricos e sociais valorizativos na constituição da sociedade brasileira.

Para tanto, enquanto libertário e pesquisador das experiências libertários em Santa Catarina, almejo com tal mosaico de situações demonstrar que o anarquismo em solo catarinense é "diferente" e não inerte em suas representações e ações, fazendo-se atuante.

Como bem pontuou o editor em Lisboa da revista anarquista Utopia José Maria Carvalho Ferreira, “os anarquismos são práticas diferenciadas da própria anarquia, com isto quero dizer, que o indivíduo por si só, tem uma personalidade, uma maneira de aprender e de viver, por tanto, a partir daí, ele assimila e aprende a anarquia e sua maneira” , e com base em qual pluralidade (que a história já demonstrou estar cingida por divergências, a exemplo dos debates equacionados outrora entre Errico Malatesta e Giovanni Rossi ou na atualidade entre Murray Bookchin e Hakin Bey) podemos ponderar que o Anarquismo Social apresenta-se como um dos caminhos entre outros para a Anarquia. Saluto!


sábado, 25 de abril de 2009

Adeus as Armas




ADEUS AS ARMAS*
Sindicalismo Revolucionário e propaganda antimilitarista frente à Grande Guerra.


Cleber Rudy



“O heroísmo das batalhas
é um heroísmo secundário,
de matar para não morrer,
de matar e morrer porque
lhe ordenam matar e morrer”.

Astrojildo Pereira, O Desertor.


Uma fronteira de trincheiras.

Para cada veterano, morrem de cinco a dez recrutas. Um ataque inesperado de gás ceifa a vida de muitos. Nem chegaram a aprender o que fazer. Achamos um abrigo cheio de homens com os rostos azulados e lábios negros. Numa trincheira, tiraram cedo demais as máscaras; não sabiam que o gás se mantém mais tempo no chão; vendo os outros lá em cima, sem as máscaras, arrancaram as suas, e engoliram gás suficiente para queimar os pulmões. Seu estado é desesperador, engasgam com hemorragias e têm crises de asfixia, até morrer.[1]


Assim registrava seu cotidiano no front da Primeira Guerra Mundial, o soldado Erich Maria Remarque, diante de uma Europa que se autoflagelava. Sanha militarista, que envolveria novas tecnologias[2] e um enorme contingente humano, em batalhas em nome de interesses imperialistas e nacionalistas.
Sobre o conflito o historiador Eric Hobsbawm, expõe:

Milhões de homens ficavam uns diante dos outros nos parapeitos das trincheiras barricadas com sacos de areia, sob as quais viviam como – e com – ratos e piolhos. De vez em quando seus generais procuravam romper o impasse. Dias e mesmo semanas de incessante bombardeio de artilharia – que um escritor alemão chamou de “furacões de aço” (...) – “amaciavam” o inimigo e o mandavam para baixo da terra, até que no momento certo levas de homens saíam por cima do parapeito, geralmente protegido por rolos e teias de arame farpado, para a “terra de ninguém”, um caos de crateras de granadas inundadas de água, tocos de árvores calcinadas, lama e cadáveres abandonados, e avançavam sobre as metralhadoras, que os ceifavam, como eles sabiam que aconteceria. A tentativa alemã de romper a barreira em Verdun, em 1916 (fevereiro-julho), foi uma batalha de 2 milhões de homens, com 1 milhão de baixas. (...) A ofensiva dos britânicos no Somme, destinada a forçar os alemães a suspender a ofensiva de Verdun, custou à Grã-Bretanha 420 mil mortos – 60 mil no primeiro dia de ataque.[3]

Descrição que se reporta a “Frente Ocidental” projetada pela Alemanha, um marco de frustração estratégica e mortandade.
Todavia, esta “mãe de todas as guerras” mobilizaria setores que viam na campanha antimilitarista uma arma contra o extermínio de nações. Entre estes, anarquistas e sindicalistas revolucionários, se mobilizariam via comícios e imprensa, contra a marcha belicista.
Para tanto, a propaganda antimilitarista já se articulava antes do eclodir da Grande Guerra, aliciado aos princípios anarquistas da objeção militar. Desta forma, “(...) a guerra são factos internacionais, comportando perigos internacionais, e que só podem ser combatidos internacionalmente através duma luta pela paz real e por uma verdadeira liberdade”.[4] Ainda, Leon Tolstoi reitera:

O fato de que, para servir ao exército, todos os homens sejam obrigados a interromper o curso normal de suas vidas representa uma violação ao direito de produzir.
A ameaça constante de uma guerra que poderá eclodir a qualquer momento torna vã e inúteis todas as tentativas de reforma social.
[5]

E completa,

Os governos europeus tratam de sobrepujar-se uns aos outros, aumentando seu armamento e obrigando-se a adotar o expediente do serviço militar obrigatório como meio de engajamento de maior número de tropas ao menor custo possível. A Alemanha foi a primeira a elaborar este plano, e logo após ser colocado em prática por uma nação, as outras se apressaram em seguir o exemplo. Assim, todos os cidadãos tomariam as armas para sustentar os dogmas em prejuízo deles mesmos. De fato, converteram-se em seus próprios opressores.[6]

Autor de Ana Karenina e Guerra e Paz, o escritor russo – outrora oficial do exército russo -, convertido em militante pacifista tecia suas considerações sobre a questão militar, “se todos fizessem a guerra por convicção não haveria guerras”.[7]
Preocupações que teriam ressonância no Brasil, através da constituição da Liga Antimilitarista e de periódicos como A Voz do Trabalhador.


Não Matarás!

As primeiras décadas do século XX seriam marcadas por uma insistente mobilização antimilitarista, levada a cabo por libertários em terras brasileiras e alhures, revelando preocupações com a questão militar muito antes dos rumores da preparação de uma Grande Guerra.
O movimento antimilitarista ensaiava seus primeiros passos em 1907, com a realização de comícios contra o “Alistamento Militar Obrigatório”, frente um projeto apresentado pelo ministro da Guerra, o Marechal Hermes da Fonseca. Em maio de 1908, mesmo diante de acirradas discussões que permeavam tal iniciativa, era aprovada a “Lei de Serviço Militar Obrigatório”.
Envolto em tal atmosfera, no meio operário como afronta a Lei de obrigatoriedade militar, surgia a Liga Antimilitarista, tendo como porta-voz o jornal Não Matarás! , - nome que possivelmente seria uma alusão ao 5º mandamento cristão.
Enquanto parceria, o jornal A Voz do Trabalhador, em suas páginas fazia a seguinte menção: “OPERÁRIOS, lede e auxiliai o jornal NÃO MATARÁS! Órgão da Liga Antimilitarista Brasileira”. Periódico este, que no transcurso de 1908 seria fechado e teria seus redatores presos, pelas autoridades do Rio de Janeiro.
Sobre a essência da campanha antimilitarista, em prol de uma Liga Brasileira, constata-se que:

(...) diante da recente decretação do serviço militar obrigatório no Brasil, os cidadãos reunidos na sede da Federação Operária do Rio de Janeiro, (...) a 26 de janeiro de 1908, resolveram.
1º - Aconselhar aos cidadãos brasileiros e sobretudo proletários que, firmando-se no Parágrafo 2º, art. 75 da lei do sorteio militar, aleguem crenças e idéias que se incompatibilizam com a vida militar(...).
2º - Caso esta alegação e respectivo artigo da lei não sejam respeitados, devem os conscritos recusar-se tácita e terminantemente a assentar praça, recorrendo à fuga, à emigração, à resistência material e, na impossibilidade, à resistência passiva, mas invencível e terminante (...).
3º - Fundar uma associação intitulada Liga Antimilitarista Brasileira (...).
[8]


Manifesto que ao ser publicado, traria contra seus organizados um processo movido pelo Governo, na época sob a responsabilidade de Afonso Pena.
Acerca do Sorteio Militar, implementado pelo Marechal Hermes da Fonseca, a historiadora Maria Conceição Pinto de Góes, explica, “neste período, o Estado retirava da população (não obrigatoriamente) das classes subalternas os indivíduos que deveriam compor as suas tropas. Essa escolha independia da vontade destes”.[9]
O primeiro número de A Voz do Trabalhador traz em sua primeira página em letras grafais traz “PELA PAZ DOS POVOS, Guerra á Guerra! Projeto da Confederação”, no qual afirma:

Mais uma fez os traficantes do patriotismo, os abutres sanguinários que vivem dos restos de carnificinas humanas e que por isso mesmo tem todo o interesse em provoca-las, querem lançar numa luta bárbara e fratricida dois povos que nunca mal algum se fizeram e para os quais, reciprocamente, as conseqüências duma guerra não poderiam ser mais desastrosas.
Que razões de ódio tem o povo argentino para com o brasileiro e o brasileiro para com o argentino?
Nenhuma, a não ser as fantásticas quimeras inventadas pelos mercadores da imprensa que, ou são uns malvados ou não compreendem as terríveis e funestas conseqüências que as suas excitações criminosas poderiam produzir.
O povo não quer guerra!
O povo não tem nada com as intrigas diplomáticas dos que, valendo-se de todos os meios, galgaram as altura do poder e dele se aproveitam em beneficio dos seus interesses particulares.
O povo não quer servir a ambição dos políticos e militares de profissão para os quais a guerra é apenas um pretexto para adquirir brilho e posições rendosas.
[10]


Impasses os quais registrados pelo jornal, marcariam o ano de 1908 enquanto clima de guerra entre Argentina e Brasil, mediante uma briga entre os ministros das Relações Exteriores dos dois países. Acontecimento que ficaria conhecido como “Questão Zeballos”.
Movidos por princípios antimilitaristas, acordados durante o Primeiro Congresso Operário no Brasil, a Confederação Operária Brasileira, divulgava uma Circular de repúdio a um possível conflito entre os dois países. Uma versão em espanhol fora enviada a Argentina. Entre as adesões divulgadas no segundo número de A Voz do Trabalhador, tem-se de Buenos Aires o jornal antimilitarista Luz al Soldado, e a Federación Regional Obrera Argentina, ainda como, a Federación Obrera del Uruguay.
Respondendo a circular da COB, o libertário Benjamim Mota escrevia ao periódico de São Paulo, a Folha do Povo:

Que penso da guerra?
Que pode um homem, emancipado das mentiras da civilização burguesa, pensar da guerra?
A guerra é uma monstruosidade, é um crime de lesa civilização e de lesa humanidade. A guerra é uma ressurreição dos instintos do homem bárbaro dos períodos pré-históricos nos homens de um ciclo e civilização mais adiantada.
[11]

Todavia A Voz do Trabalhador, incitava: o povo não deve só não querer a guerra, deve manifestar sua aversão a tal feito, e ruboriza “Guerra á Guerra!”. Desta forma, a COB instigava uma greve geral de protesto para o dia 1º de dezembro de 1908 enquanto repúdio ao clima de guerra perpetrado pelos governos argentino e brasileiro.
Sobre a manifestação do 1º de dezembro o jornal registra, “(...) diversos companheiros carregavam bandeiras ostentando em grandes caracteres os seguintes dizeres: ´Pela paz dos povos`, ´Guerra á Guerra!`, ´Viva a confraternização do proletariado brasileiro e argentino`, ´Viva a fraternidade Sul Americana`e um em inglês: ´Peace on earth` (Paz na Terra)”.[12] Ato que segundo o jornal, teria reunido 5 mil manifestantes, o que deixou os organizadores satisfeitos, já que fora a primeira manifestação pública antimilitarista realizada no Rio de Janeiro.
Em sua edição de 3 de agosto de 1909 o jornal A Voz do Trabalhador trás, um artigo um tanto quanto curioso acerca do antimilitarismo na América do Norte. Se reportando a uma conferência da anarquista Emma Goldman efetuada em San Francisco sobre o patriotismo, realizada em 1908, expõe que um militar que estava no auditório foi até a conferencista e apertou-lhe a mão, “reconhecendo como verdadeiro tudo quanto dizia a oradora em relação á Guerra, Pátria e Patriotismo”, ainda o jornal afirma, “Imaginem! Por este crime terrível foi esse militar, que se chama William Buwalda, condenado pelo conselho de guerra a 5 anos de prisão (...). Mas tarde, por se terem levantado inúmeros protestos, foi (...) absolvido”.[13]
As experiências antimilitaristas levadas a cabo por libertários não tardariam em tornar-se alvo de “uma grande repressão e ameaça de expulsão aos que não eram naturalizados brasileiros. Em 1908, ano em que foi aprovada a lei que instituía o serviço militar obrigatório, a repressão foi intensa”.[14] Entre as brumas de um ambiente de repressão a polícia, “travestida” de Scherlock Holmes, divulgava no jornal Correio da Manhã, de 2 de janeiro de 1908, uma mirabolante teoria conspiratória, “a descoberta de uma plano anarquista com ramificações internacionais, para afundar parte da esquadra americana que estava ancorada no Rio de Janeiro”.[15]
Ainda as páginas de A Voz do Trabalhador registravam a soltura do militante antimilitar Manuel Domingues, “preso pela distribuição de boletins contra o sorteio militar”.[16]


Sindicato, anarquismo e revolução.

O anarquismo enquanto orientação e organização política implementada por imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, com força nas primeiras décadas do século 20 entre o operariado brasileiro, - instigando motins, sabotagens e greves, enquanto afronta a estabilidade capitalista -, traria em sua senda, por vezes a defesa do sindicalismo radical, como arma de luta, rumo a almejada revolução social. Todavia, perspectivas de mundo baseadas no anticlericalismo e no antimilitarismo atreladas ao pensamento libertário, apimentariam ainda mais seu discurso político. Perspectivas as quais, que no sindicalismo revolucionário encontravam um veio de propagação, como o fora no Brasil com o periódico A Voz do Trabalhador, que além de artigos de tonalidade operária sindical, trazia texto anticlericais e antimilitares, e ainda distribuía obras tais como, “A peste religiosa” de João Most, “O Sorteio Militar” de Cezar Mendes e “Tributo de Sangue” de Carlos Dias.
Enquanto projeção libertária, o sindicalismo radical surgia como a possibilidade de expropriação da burguesia, através de uma Greve Geral de cariz revolucionário. O libertário Neno Vasco em Concepção Anarquista do Sindicalismo, pontua.

Certamente, os anarquistas e outros socialistas esperam do sindicalismo muitas coisas: que os operários nele tomem consciência da luta de classes, do irredutível antagonismo de interesses existentes entre eles e os capitalistas; que na acção e em contacto com seus iguais no sindicato, os trabalhadores se apercebam da insuficiência dos melhoramentos parciais e da necessidade de expropriar a burguesia e reorganizar a sociedade sem parasitismo e em proveito de todos os produtores.[17]

O sindicalismo revolucionário visto como um ideal de sociedade futura, além de se colocar como um veículo de luta e reivindicação, se punha como a base da nova sociedade. Ao proclamar a abolição do Estado, propunha a consolidação do Sindicato enquanto célula organizativa social.
Outra marca do sindicalismo revolucionário era a tentativa de não estar identificado com uma tendência política especifica, quer socialista, quer anarquista, mas sim se valorizando como entidade operária e radical. Embebido por tal ótica o militante Neno Vasco, novamente afirma, “Os anarquistas conscientes não pretendem que um sindicato se declare artificialmente anarquista. Se o fizessem, ou só ficariam nele os anarquistas, sem ter, portanto a utilidade particular do agrupamento de interesses, do sindicato (...)”.[18]
Sobre as origens do sindicalismo revolucionário, a historiadora Edilene Toledo, conclui:

A base e o fundamento do sindicalismo revolucionário era o texto aprovado no congresso da CGT (Confédération Générale du Travail) francesa em 1906. Ele afirmava a independência do sindicalismo em relação ao socialismo e ao anarquismo. Seus objetivos centrais eram organizar os trabalhadores na defesa de seus interesses morais, econômicos e profissionais, sem associar essa luta a qualquer partido ou tendência política. A FOSP considerava que esses princípios predominantes na CGT francesa poderiam ser aceitos por qualquer membro de um grupo socialista, fosse ele socialdemocrata, anarquista ou adepto de outra corrente, e julgava que o sucesso do sindicato estava em sua autonomia. Este era, sem dúvida, um esforço para atenuar os conflitos existentes entre os operários e, por isso, todas as doutrinas deveriam ter a mesma tolerância: dentro do sindicato todos eram operários. Fora dele, os trabalhadores poderiam se associar ao grupo que mais lhes agradasse.[19]

Os reflexos de tal concepção seriam mais tangíveis no Brasil a partir de 1906 mediante a realização do Primeiro Congresso Operário no Brasil, sediado no Rio de Janeiro. Todavia, a consolidação do sindicalismo revolucionário no Brasil se dá com o inicio das atividades da Confederação Operária Brasileira (COB) em 1908.
O Primeiro Congresso Operário no Brasil em sua pauta propunha discussões sobre orientação e organização política do operariado tento como mote às diretrizes da CGT francesa, ou seja, do sindicalismo revolucionário. Sobre o mesmo o jornal anarquista A Plebe escreve: “nas teses apresentadas para debates e aprovadas, (...) ficou evidente as preferências dos trabalhadores por um sindicalismo revolucionário, anti-militarista, apolítico e o ensino laico. Seguidamente, discutiu-se a fundação da Confederação Operária Brasileira, cuja aprovação foi votada imediatamente (...)”.[20] Outro aspecto interessante levado à discussão pelo Congresso era a preocupação com o “Operário Agrícola”, visto pelo grupo como uma categoria, vilmente mais explorada do que o trabalhador fabril, outrossim, a organização das mulheres operárias em sindicatos de resistência. Desta forma:

O 1º Congresso Operário aconselha o proletariado a organizar-se em sociedade de resistência econômica, agrupamento essencial, e sem abandonar a defesa, pela ação direta dos rudimentares direitos políticos de que necessitam as organizações econômicas, a pôr fora do sindicato a luta política especial de um partido e as rivalidades que resultariam da adoção, pela associação de resistência, de uma doutrina política ou religiosa, ou um programa eleitoral.[21]

Enquanto porta-voz da Confederação Operária Brasileira (COB), nascida do Primeiro Congresso Operário, era criado o periódico A Voz do Trabalhador que iniciava sua lide em 1 de julho de 1908 indo até 8 de junho de 1915. Jornal informativo que mesclava notícias nacionais e internacionais, tratando de assuntos como greves, repressão policial, carestia de vida, boicotes – como o perpetrado contra os moinhos Matarazzo de São Paulo -, até crítica dos costumes, tal como a condenação do carnaval, e ainda discussões acerca da reforma ortográfica.
O Jornal em sua apresentação do primeiro número afirma:

O que desejamos, e havemos de conseguir, custe o que custar – é a emancipação dos trabalhadores da tirania e exploração capitalista, transformando o atual regime econômico do salariato e do patronato num regime que permita o desenvolvimento de organizações de produtores – consumidores, cuja célula inicial está no atual sindicato de resistência ao patronato.
Como meio prático, como método de luta para alcançar tal desideratum, adotará e usará o sindicalismo revolucionário.
[22]


Para tanto o poder de propaganda de A Voz do Trabalhador estava em sua amplitude, como podemos perceber diante de menções em suas páginas a atos e feitos em terras catarinenses – região esta de diminuta presença operária -, tais como o jornal anticlerical de Florianópolis O Clarão e a organização União Operária de Laguna.


Guerra á Guerra!

Diante do clima de tensões entre nações que investiam na “Paz Armada”, enquanto diplomacia do pré-Guerra, a Confederação Operária Brasileira (COB), através de seu jornal A Voz do Trabalhador, que ressurgia[23] em janeiro de 1913, se punha contra o ideal belicista.

A ameaça duma conflagração européia paira ainda, sinistramente, sob os céus do velho mundo.
Por isso o proletariado europeu, o maior, ou o único sacrificado, no caso de rebentar a hecatombe, agita-se, formidavelmente, procurando impedir por todos os modos os projetos diplomáticos das grandes potências.
E a França, a França proletária, a sentinela avançada das forças revolucionárias, sobressai nessa agitação, como um empecilho sério diante da vontade dos governos em levar avante o que eles chamam, com propriedade, uma “sangria no movimento revolucionário”.[24]

Assim, frente uma guerra iminente a CGT francesa mediante deliberações acordadas em congresso, lançava o brado internacionalista: “Abaixo a Guerra entre os povos!”.
O historiador Paulo G. Fagundes Vizentini, tece o seguinte panorama sobre o período da “Paz Armada”:

Os diversos governos europeus intensificaram a preparação militar, baixando leis, incrementando a produção de novos armamentos (sobretudo canhões de grande calibre, metralhadoras e os encouraçados Dreadnough) e reorganizando os exércitos, particularmente com a ampliação do serviço militar. Além disso, multiplicam-se por todos os países as manifestações chauvinistas e militaristas. Em Berlim fala-se na necessidade de uma guerra preventiva, e o cenário para ela já está montado.[25]


E diante deste palco, o primeiro ato do drama, era “encenado” em 28 de julho, com a declaração de guerra da Áustria sobre a Sérvia, em represália ao assassinato de seu herdeiro imperial Francisco Ferdinando, morto pela organização Sérvia, Mão Negra. Para tanto no início de agosto a Guerra encontrava-se generalizada, iniciando “o Deus Marte (...) sua dança de morte”.[26]
Desta forma, em 5 de agosto de 1914, A Voz do Trabalhador, em letras chamativas apresenta “A CALAMIDADE UNIVERSAL! O operariado do Brasil, presente a emergência que faz sobrenadar em sangue a Europa quase inteira, declara-se solidário com os sacrificados trabalhadores europeus, nesta fase dolorosa para a história rubra do proletariado”.[27]
Se opondo a conflagração européia, este jornal, ao tratar do estopim da Guerra, - o atentado contra o arquiduque da Áustria -, tece analogias entre o jovem Gavrilo Princip e o Brutos da Roma Antiga.

Lembremo-nos de que Bruto é hoje pela história considerado como o libertador de Roma da tirania de César.
E que nos dirá que, ao sérvio Prinzip, a quem hoje com desprezo e rancor se chama assassino, a História o cognominará o precursor das futuras liberdades para o seu povo?
[28]


Assim, escrevia o anarquista Antonio Pinto Quartim, militante que ainda contribuía com o periódico anarquista A Vida,[29] o qual também se colocava contra a Guerra, sobre o mesmo encontramos anúncios de divulgação a partir de 1915 em A Voz do Trabalhador e vice-versa.
Para tanto é importante registrar que o periódico A Vida, nascia num momento de conturbadas discussões. Surgido no final de 1914, enquanto a Europa se digladiava, dividindo opiniões e posturas, inclusive entre sindicalistas revolucionários e anarquistas. Personalidades como Peter Kropotkin, Charles Malato, Jean Grave e Alceste de Ambris, tomariam posições a favor da Tríplice Entente, vista como um “mal menor” frente uma possível vitória Alemã que acarretaria na propagação do bismarckismo e do militarismo prussiano.
Debate que ganharia destaque nas páginas de A Vida:

Si a guerra européia produziu e continua a produzir um grande número de males, dela resultaram e hão de resultar alguns bens; entre estes sobressai pelo seu valor moral a discussão surgida no meio anarquista sobre a atitude de alguns camaradas de renome, tais como Kropotkine e Malato, etc. que aconselham os anarquistas a investir no conflito a favor de uma das partes beligerantes.
Esta questão que veio submeter de novo e apaixonadamente os princípios básicos do anarquismo a uma analise acurada pelos próprios anarquistas, fez ressaltar a seguinte verdade: só o anarquismo é capaz de formar indivíduos de mentalidade bastante livre para só aceitarem como certo o que o livre exame demonstra ser tal.
[30]


Considerações que saiam das mãos do anarquista Francisco Viotti, que conjuntamente com o professor e libertário José Oiticica dirigiam a revista A Vida.
E nas agitações de épocas de guerra, A Voz do Trabalhador por vezes destacaria em suas páginas a dificuldade de se ter acesso a informações precisas sobre o conflito que se travava na Europa. Dificuldades que segundo eles, eram acarretadas mediante o monopólio das linhas de comunicação pelos governantes, ou ainda, “(...) devido aos interesses e a ignorância dos agentes gerais e particulares, os telegramas só vagamente e raramente deixam escapar notícias a tal respeito”.[31]
Todavia o periódico embasado no pensamento antimilitarista estampava sua ojeriza pelo conflito:

Continua a matança. Os exércitos – os grandes fieis da burguesia decrépita – continuam o mutuo massacre. São centenas de milhares, são vários milhões de homens – de homens: ah! Que escárnio!... – engalfinhados uns contra os outros, a trucidarem, num delírio louco de sangue, de mais sangue... num vendaval furioso e desabalado de destruição, só de destruição e nada mais que de destruição...
A matança continua. O matadouro estupendo está em plena função. E por quanto tempo mais?
[32]


Desta forma, noticias de manifestações “antiguerreiras” que se projetavam na França, Hungria, Bélgica e Portugal eram vistas com animação. De Budapeste, é registrado um ato possivelmente ocorrido em 29 de julho, em que expõe: “efetuou-se uma grande manifestação socialista de protesto contra a guerra. Foram fuzilados dois organizadores dessa grande manifestação pacifica”.[33] Na mesma página acerca das manifestações realizadas em julho em Paris o periódico escreve:

PARIS, 27 - Promovidas pelos sindicalistas, realizaram-se esta noite manifestações contra a guerra nos grandes “boulevards” e na praça da República. Os manifestantes, soltando gritos de abaixo a guerra, quiseram formar em coluna, mas a polícia interviu e dispersou-se depois de algumas desordens. Efetuaram-se algumas prisões.
PARIS, 28 – As manifestações contra a guerra continuaram pela noite adiante até muito tarde. Os manifestantes, cada vez mais numerosos, tentaram novamente formar grupos que a polícia dispersava imediatamente. A meia noite estavam definitivamente dispersados os manifestantes. São em grande número as prisões efetuadas pela polícia, da qual alguns feridos.
[34]


No Brasil, os sindicalistas revolucionários e anarquistas também se mobilizavam, promovendo comícios de protesto contra a guerra, como o realizado em 13 de setembro de 1914 em vários estados brasileiros (entre eles Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Minas Gerais) organizado pela Confederação Operária Brasileira (COB).
Sobre a política de comícios contra a guerra A Voz do Trabalhador, divulga e conclama:

Tem continuado, na medida das nossas forças, o movimento iniciado contra a guerra, a favor da estabilidade da paz na Europa. (...).
A Comissão Popular de Agitação Contra a Guerra, dando cumprimento á sua missão, organizou três comícios públicos, realizados respectivamente nos domingos 11, 18 e 25 de abril. (...).
Para hoje, 1º de maio, ás 3 horas, está marcado um grande comício no largo de São Francisco (...).
[35]


Trabalhadores que movidos pelos sentimentos de solidariedade - para com os trabalhadores europeus envoltos pela Grande Guerra -, abdicavam do domingo (um dia de descanso), para irem as ruas manifestar-se contra guerra, almejando ver o povo brasileiro se opor contra a flagelação militar que varia a Europa.
Outro acontecimento contra a guerra européia que ganha atenção em 1915 no meio operário é um documento de solidariedade ao Congresso Internacional Pró-Paz em Ferrol, organizado pelo Ateneu Sindicalista da Galiza. Proibido pelo rei espanhol Afonso XIII.
Dos três delegados brasileiros que haviam se dirigido para o evento, após detenção e expulsão para Portugal, só dois dos militantes libertários chegariam às terras portuguesas. João Castanheira, um dos delegados brasileiros seria morto em Galiza, crime que ficaria sem grandes esclarecimentos.
Ainda “Contra a Guerra”, seriam organizadas conferências como a efetuada por Juana Buela - companheira de João Castanheira -, em 17 de setembro de 1914, no Centro Cosmopolita, que se intitulava: A guerra, suas causas e seus resultados. Instigando a reflexão a conferencista expunha: “que civilização é esta que quer pelo fogo de seus canhões e pelo aço de suas espadas obrigar povoações inteiras a se submeterem ao seu domínio!”.[36]


Entre tiros e explosões, vidas pulsam.

Enquanto marco sangrento entre o velho e o novo mundo, A Primeira Guerra Mundial forjaria a forma inicial do século 20, este “breve século” como ousou chamá-lo o historiador inglês Eric Hobsbawm. Revelando batalhas que para além das trincheiras conflitavam com o ser e estar em civilização. E nesta esteira, anarquistas e sindicalistas reivindicavam a virtus humana da solidariedade em oposição ao vício nacionalista e ao prejuízo da guerra. Valendo-se de um dos seus maiores recursos que era a palavra, há tempos imortalizada por Gutenberg. Desta forma, através de seus periódicos estes pensadores antimilitaristas, forjariam ações e evocariam a valorização da liberdade e da vida, para além de uma bala de canhão em fronteiras de arame farpado em terras ditas “inimigas”.

* Nome emprestado da obra homônima do escritor inglês Ernest Hemingway.

[1] REMARQUE, Erich Maria. Nada de Novo no Front. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 110.
[2] Entre estas novas tecnologias tem-se: metralhadoras, lança-chamas, granadas, minas, encouraçados, submarinos, gases tóxicos, tanque de guerra, dirigíveis e aviões como o handley page 0/ 400 e albatros D. III.
[3] HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos. O breve século XX. 1914 – 1991. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 33.
[4] FREIRE, João. Anarquistas e Operários. Porto: Afrontamento, 1992. p. 328.
[5] TOLSTOI, Leon. Resistência ao serviço militar. In: WOODCOCK, George. Os Grandes Escritos Anarquistas. 4ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1990. p. 190.
[6] Idem. A Insubmissão. São Paulo: Imaginário, 1998. p. 49.
[7] Idem. Guerra e Paz. Vol. 1. São Paulo: Ediouro, 2002. p. 50.
[8] RODRIGUES, Edgar. Um século de História Político-Social em documentos. Vol. 2. Rio de Janeiro: Achiamé, 2007. p. 105.
[9] GÓES, Maria Conceição Pinto de. A Formação da Classe Trabalhadora. Movimento anarquista no Rio de Janeiro, 1888 – 1911. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 78/ 79.
[10] A Voz do Trabalhador, Ano I, nº 1 de 1 de julho de 1908. In: A Voz do Trabalhador: orgam da Confederação Operária Brazileira: coleção fac-similar de 71 números, 1908 – 1915. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Secretaria do Estado de Cultura: Centro de Memória Sindical, 1985.
[11] A Voz do Trabalhador, Ano I, nº 7 de 6 de dezembro de 1908. Op. Cit.
[12] A Voz do Trabalhador, Ano I, nº 4 de 15 de agosto de 1908. Op. Cit.
[13] A Voz do Trabalhador, Ano II, nº 16 de 3 de agosto de 1909. Op. Cit.
[14] GÓES, Maria Conceição Pinto de. A Formação da Classe Trabalhadora. Movimento anarquista no Rio de Janeiro, 1888 – 1911. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 80.
[15] NETO, Oscar Farinha. Atuação Libertária no Brasil. A Federação Anarco-Sindicalista. Rio de Janeiro: Achiamé, s/d. p. 34.
[16] A Voz do Trabalhador, Ano I, nº 8 de 13 de janeiro de 1909. Op. Cit.
[17] VASCO, Neno. Concepção Anarquista do Sindicalismo. Porto: Afrontamento, 1984. p. 92.
[18] Idem. Ibidem.. p. 93.
[19] TOLEDO, Edilene. Anarquismo e sindicalismo revolucionário. Trabalhadores e militantes em São Paulo na Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. p. 49/ 50.
[20] RODRIGUES, Edgar. Socialismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969. p. 116.
[21] Idem, Ibidem. p. 121.
[22]A Voz do Trabalhador, Ano I, nº 1 de 1 de julho de 1908. Op. Cit.
[23] O periódico iniciou sua circulação em 1 de julho de 1908 indo até 9 de dezembro de 1909, totalizando 21 números. Após um intervalo de 3 anos reaparecia em 1 de janeiro de 1913 continuando com o número 22 sua luta em prol do sindicalismo revolucionário e do antimilitarismo.
[24] A Voz do Trabalhador, Ano VI, nº XXIII de 15 de janeiro de 1913. Op. Cit.
[25] VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Primeira Guerra Mundial. Relações Internacionais do Século 20. Porto Alegre: Ed. da Universidade/ UFRGS, 1996. p. 41.
[26] Idem, Ibidem.. p. 42.
[27] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 60 de 5 de agosto de 1914. Op. Cit.
[28] Idem.
[29] Este periódico em formato de revista surgia no Rio de Janeiro em 30 de novembro de 1914.
[30] A Vida, Ano I, nº 6 de 30 de abril de 1915. In: A Vida: Periódico Anarquista: coleção fac-similar de 7 números, 1914 – 1915. São Paulo: Ícone: Arquivo Histórico do Movimento Operário: Centro de Memória Sindical, 1988.
[31] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 61 de 20 de agosto de 1914. Op. Cit.
[32] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 62 de 5 de setembro de 1914. Op. Cit.
[33] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 61 de 20 de agosto de 1914. Op. Cit.
[34] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 61 de 20 de agosto de 1914. Op. Cit.
[35] A Voz do Trabalhador, Ano VIII, nº 70 de 1 de maio de 1915. Op. Cit.
[36] A Voz do Trabalhador, Ano VII, nº 63 de 1 de outubro de 1914. Op. Cit.

Utopias Anarquistas no Frenesi da Revolução Russa





Utopias Anarquistas no Frenesi da Revolução Russa
Experiências e anseios do movimento libertário brasileiro


Cleber Rudy*

Enquanto o Front ainda ardia, nas entranhas da Primeira Grande Guerra, o ano de 1917 – um marco ofegante do mundo contemporâneo - imprimia seus limiares ao conflito mundial,1 via os precedentes de um outro grande acontecimento: a Revolução Russa no Leste Europeu. A qual nascia “(...) da impossibilidade, para o povo, de continuar a guerra e de arrastar uma existência de fome (...) e da obstinação cega do tzarismo (...)”. (VOLIN, 1980: 123). E concomitantemente a tais convulsões políticas mundiais, no Brasil resplandeciam greves gerais e insurreições, ambicionando a expropriação do universo capitalista industrial, segundo perspectivas anarquistas que marcariam os signos de uma década (1910) que caminhava para o fim de forma explosiva. Para tanto, “na conjuntura crítica de 1917, o proletariado, como mão-de-obra superexplorada, ensaia suas aspirações emancipadoras num regime no qual prevalece a força absoluta da burguesia (...)”. (KHOURY, 1981: 16).
Diante da Revolução proletária que se lançava como uma outra possibilidade de organização social em prol da igualdade e pelo fim do capitalismo, ímpetos de transformação trazidos pelos ventos russos contagiavam os anseios de agrupamentos socialistas e anarquistas em solo brasileiro. E neste sentido, “As influências de toda uma mobilização que crescia em nome da fé na Revolução Social foram marcantes, assinalando no Brasil uma preocupação crescente com a questão social tanto da parte dos operários, quanto da burguesia e do Estado” (CAMPOS, 1988: 38).
Para os anarquistas do Brasil as histórias de uma revolução social levada a cabo por libertários na Ucrânia, na aldeia de Gulai-Pole2 – organizada por um camponês-anarquista, de nome Nestor Makhno (1889 – 1934)3 -, e as posteriores conquistas do Movimento Makhonovista frente às tropas de Wrangel e Denikin,4 instigavam a projeção revolucionária de uma Rússia libertária, alimentando a aurora de tempos novos também no Brasil.
Desta forma, “[...] A Federação Operária do Rio de Janeiro organiza manifestações públicas para o dia 1º de maio de 1917. Entre os temas a serem tratados e apreciados, estavam os combates à Guerra, o custo de vida e o pronunciamento público a favor da Revolução Russa”.(RODRIGUES, 1972: 144). Acontecimentos que resplandeciam por terras brasileiras enquanto reflexo da Revolução de Fevereiro que punha fim ao regime czarista na Rússia instalando um Governo Provisório sob responsabilidade do socialista Aleksandr Kerenski (1881-1970), etapa esta, antecedente ao putsch organizado por Vladimir Ilitch Ulianov (1870-1924), o conhecido Lênin e os bolchevistas, a partir de outubro de 1917, para implementar um plano político socialista de cariz centralizador e autoritário. Seja como for, “(...) em 1917, numerosos anarquistas não distinguiam claramente suas diferenças com o bolchevismo, vendo em Lênin um marxista-bakuninista”. (TRAGTENBERG, 1988: 91). Com base em tais acontecimentos em terras brasileiras, os anarco-sindicalistas5 em especial, passavam a criar organizações denominadas de maximistas6 ou comunistas. Como, “em Porto Alegre o ´Grupo Maximalista`, no Recife ´Círculo Maximalista` e a ´Liga Comunista Feminina` no Rio de Janeiro”.(CUBERO, 1997: 31).
No Brasil, a década de 19107, mas especialmente o ano de 1917 demarcava com furor as peculiaridades da Primeira República, principalmente em seus aspectos sociais, frente a carestia do custo de vida, quer na alimentação, moradia ou vestuário, agravada ainda mais pelo contexto de crise mundial ocasionada pela Primeira Guerra Mundial. Situação de penúria e instabilidade que fortemente perpassava as relações de trabalho, mediante longas jornadas de trabalho (14 e 16 horas), salários baixíssimos e desemprego, seguido da exploração do trabalho infantil e a desvalorização da mão-de-obra feminina, ainda como da limitação das liberdades individuais. Visando superar tal realidade inúmeras greves convulsionavam a década de 1910. Nesta senda:

A elevação do custo de vida, no ano de 1917, em especial dos produtos de primeira necessidade, fora usada com sagacidade política pelos militantes, durante o primeiro semestre, para sacudir as energias dos operários e desapertá-los da apatia. A ressonância dos seus discursos junto ao operariado apareceu na deflagração de greves, a partir do mês de maio, pressionando os patrões a atender as reivindicações de aumento salarial e de melhoria nas condições de trabalho das fábricas e oficinas. (...). A paralisação iniciada em maio pelos trabalhadores têxteis foi, aos poucos, ganhando a adesão de outras categorias e, a partir de junho, o movimento foi se agigantando. (LOPREATO, 2000: 33).

Segundo ainda registra Yara Aun Khoury,

O número dos grevistas continua a aumentar, não obstante os apelos das autoridades e o fato de uma parte dos estabelecimentos já ter concedido aumentos salariais. Entre 12 e 15 de julho o número de grevistas sobe a 45 000. (KHOURY, 1981: 24).

O Movimento grevista de 19178 daria forma ao Comitê de Defesa Proletária (CDP) constituído por militantes anarquistas e socialistas enquanto órgão organizador das reivindicações e instrumento de denúncia das arbitrariedades patronais e da truculência policial. Dando mostra da sua violência, no mês de julho um regimento policial - encorajado pelo governador do estado a tomarem medidas mais enérgicas -, abre fogo contra manifestantes de uma passeata, resultando na morte do sapateiro José Martinez, intensificando ainda mais o movimento grevista.
Para dar força a propaganda grevista e aos anseios revolucionários professados pelos libertários, era criado o periódico A Plebe9, que já pela escolha do seu nome revelava as pretensões anarquistas, de através de uma Greve Geral, como a que se equacionaria no transcurso de 1917, dar os primeiros passos rumo a Revolução Social, mediante “(...) à magnitude deste extraordinário momento histórico por que está atravessando a humanidade”. (KHOURY, 1981: 130). Escrevia assim, sobre os objetivos de A Plebe - o secretário do Comitê de Defesa Proletária (CDP) e jornalista libertário -, Edgard Leuenroth10 (1881 – 1968). Através de suas mãos nascia em junho de 1917 - em plena greve -, o referido jornal, tendo como um dos motes norteadores as insurreições que sacudiam a Rússia, desde fevereiro do corrente ano.
Não obstante:

A segunda metade de 1917 foi marcada por uma onda repressiva, em São Paulo e no Rio de Janeiro, contra as associações, inclusive com o fechamento da FORJ.11 Ainda que simbólica, a entrada do Brasil na guerra, em outubro, restringiu ainda mais o espaço de ação do movimento operário. Mas o movimento grevista em 1917 não ficou limitado a esses dois casos: no mês de julho, diversas greves foram desencadeadas na Paraíba e greves ferroviárias ocorreram no sul de Minas Gerais e no Rio Grande do Sul12 (e novamente em outubro, no caso desse último estado). (BATALHA, 2000: 52/ 53).

Em de 18 de novembro de 1918 - a partir de outra greve nascente -, as ruas do Rio de Janeiro tornaram-se o palco de uma Insurreição13, denominada por muitos de “O Soviete do Rio”, revolta que tinha como articuladores, os anarquistas. Através da força das armas, - às quais pode-se acrescentar bombas de dinamite - almejavam derrubar o governo, segundo ponderações canalizadas da Revolução Russa. Após insistente batalha, em que se acreditou ser possível a adesão de membros das Forças Armadas, - num episódio idealizado pela experiência russa - o levante anarquista, delatado de antemão pelo tenente infiltrado Jorge Elias Ajus, era sufocado, tendo como saldo, cerca de 78 anarquistas presos.
Tais anseios revolucionários lançavam-se como chave-mestra, rumo à constituição de novos horizontes, como pode ser notado no livro escrito em 1919 pelos anarco-sindicalistas Edgard Leuenroth, redator do periódico A Plebe e Hélio Negro,14 intitulado: O que é o maximismo ou o bolchevismo (programa comunista), onde encontramos: “O regime vigente na Rússia é uma organização de defesa e reconstrução, a caminho do almejado comunismo libertário, que trará para todos a paz, o bem-estar e a liberdade”(LEUENROTH; NEGRO, 1984: 9). E acrescentam: “No estado de miséria em que estão os povos de quase todo o mundo, só o Comunismo, como forma econômica de estrita solidariedade, pode salvar a humanidade da ruína completa”.(LEUENROTH; NEGRO, 1984: 20). Obra que surgia como uma proposta, um esboço de programa comunista para o Brasil, permeando os diversos setores estruturais da sociedade, segundo um trato comunista libertário. Para tanto, escrevem: “Vivemos um instante decisivo, que há de marcar um rumo novo a história da humanidade”(LEUENROTH; NEGRO, 1984: 45), assim, “Ligado ao resto do mundo pelos elos criados pela civilização, na interdependência de todas as nações, o povo do Brasil tem por força, por força da fatalidade histórica, de tomar parte na obra colossal de remodelação dos sistemas e métodos da vida individual e coletiva”.(LEUENROTH; NEGRO, 1984: 45). “Escrito apressadamente em abril de 1919, o panfleto O que é o Maximismo ou Bolchevismo reflete a confusão dos libertários brasileiros entre o sucesso da Revolução Russa e a conseqüente aceitação teórica de preceitos mais autoritários para consegui-la”. (MARAM, 1979: 81).
Em 1919, os anarquistas, ainda sob o frenesi da Revolução e instigados pela solidariedade internacional aos proletários russos, fundavam o Partido Comunista do Brasil, também denominado de Partido Comunista-Anarquista ou Partido Comunista Libertário tendo como diretrizes, “(...) a abolição do Estado, de todas as leis e instituições políticas, assim como de todas as organizações hierárquicas e autoritárias”.(DULLES, 1980: 80) Elementos estes que compunham o programa maximalista do Núcleo de São Paulo, publicado em 23 de agosto de 1919, no periódico anarquista A Plebe. Sendo oportuno lembrar que dentro das perspectivas anarquistas, comunismo (ou socialismo) e anarquismo eram denominações agrupáveis, desde que aparadas na defesa da liberdade e eximidas de atributos autoritários.
O Partido Comunista do Brasil contava com um segundo Núcleo instituído no Rio de Janeiro, valendo-se do jornal anarquista Spártacus15, surgido em 2 de agosto de 1919 como principal porta-voz da causa maximalista. Este periódico contaria em sua redação com proeminentes figuras do movimento libertário, tais como, José Oiticica (1882 – 1957)16 e Astrogildo Pereira (1890 – 1965).17 Nas páginas do Spártacus de autoria do dirigente bolchevista russo Lênin, publicou-se: “Mensagem de Lénine aos Trabalhadores Americanos”18 e “A Democracia Burguesa e a Democracia Proletária”19, assim como, do líder do Exército Vermelho Leon Trótski (1879-1940) o texto “Grande Época”20, pontuando as esperanças que parte dos libertários do Brasil depositavam na Revolução no Leste Europeu. Outrossim, no referido periódico José Oiticica pontuava “O movimento russo exemplificou admiravelmente quanto é fácil a transformação do regime capitalista firmado na base proletária”21. Desta forma:

Para os anarquistas, o grande evento na Rússia configurava, ao menos nos primeiros anos, a possibilidade de uma conjugação de esforços entre tendências revolucionárias nem sempre afinadas. As divergências em relação aos métodos do marxismo-leninismo passaram ao largo da imagem otimista presente nas primeiras notícias que chegaram ao Brasil. (SAMIS, 2002: 24).

Estes anseios que a tantos contagiava, instigaria o meio intelectual a se pronunciar, e para tanto, o autor de Policarpo Quaresma, Afonso Henriques de Lima Barreto (1881 – 1922), que não escondia seus vínculos libertários22, em 1918, publicava no semanário ABC seu Manifesto Maximalista, enquanto panfleto de apoio à Rússia revolucionária. No mesmo tem-se:

Se Kant, conforme a legenda, no mesmo dia em que a Bastilha, em Paris, foi tomada; se Kant, nesse dia, com estuporado assombro de toda a cidade de Koenigsberg, mudou o itinerário da excursão que, há muitos anos, fazia todas as manhãs, sempre e religiosamente pelo mesmo caminho – a comoção social maximalista tê-lo-ia hoje provocado a fazer o mesmo desvio imprevisto e surpreendente; e também a Goethe dizer, como quando, em Valmy viu os soldados da Revolução, mal ajambrados e armados, de tamancos muitos, descalços alguns, destroçarem os brilhantes regimentos prussianos – dizer, diante disto, como disse: “A face do mundo mudou”. Ave Rússia! (BARRETO, 1993: 375)

Tais utopias somente se dissipariam a partir de 1920, frente às denúncias de uma Revolução que tomava rumos autoritários. Notícias, que a primeira vista soavam em solo brasileiro como calúnias e deturpações de natureza propagandista burguesa, pouco a pouco não tardariam por apresentar um fundo de verdade. Revelando um comunismo de bases autoritárias incompatível com as premissas anarquistas de um modelo de comunismo libertário. Neste sentido, no início de 1920 através do periódico A Plebe o anarquista Florentino de Carvalho23, em artigo nominado “Falência do anarquismo?!”, ponderava:

Não é verdade que os anarquistas sejam partidários da ditadura, da lei, do Estado. Na Rússia, por exemplo, tanto não estão conformes com a ditadura do proletariado, que chegaram a sustentar, contra os maximalistas, verdadeiras batalhas nas ruas de Petrogrado e Moscou. (DULLES, 1980: 132).

Assim assinalando as distinções entre o pensamento e ação dos anarquistas e dos comunistas bolcheviques. Desse modo os primeiros professavam-se favoráveis a igualdade social e a liberdade, opondo-se a constituição de partidos políticos enquanto legítimos guias do ímpeto revolucionário, tal como da permanência do Estado nas relações sociais, enquanto os comunistas-marxistas creditavam sua força organizadora (de diretriz única) nas demandas equacionadas por um partido dirigente, valendo-se da conservação de um Estado de base popular que via “ditadura do proletariado” garantiria o sucesso de um modelo econômico que acabaria de vez com a desigualdade social. Orientações que gradativamente sinalizariam perspectivas adversas entre os anarquistas (alimentados por utopias de um comunismo libertário) e a desenvoltura de uma Rússia de aspirações bolchevistas (sedimentada no comunismo autoritário).
Através de seu próprio semanário intitulado A Obra24, que ganhava forma a partir maio de 1920, Florentino de Carvalho munido de sua visão antibolchevista advertia:

Contudo, se, em oposição ás calunias dos burgueses, divulgamos a obra benefica de república russa, nunca fizemos a apologia desse regime, porque demasiado sabiamos que o Estado, qualquer que seja a sua estrutura autoritária ou governamental é essencialmente contrário aos nossos princípios. Sempre mantivemos sobre este assunto as devidas reservas, esperando ser ilustrados por documentos aos quais pudessemos confiar.
Agora, porém, de posse desses documentos, cumpre-nos esclarecer a situação, principalmente e porque, havendo no Rio alguns libertários militantes que tomam a nuvem por Juno, isto é confundem a revolução russa com o Estado burocrático e militarista ali estabelecido, chegando a propagar a organização de um partido socialista-maximalista, o qual teria por fim, entre outras coisas, a conquista do Estado burguês, empregando o processo eleitoral, transformando-o em Estado maximalista (...). (A OBRA, nº 13: 15 de setembro de 1920).

Este escrito reportava-se aos militantes agrupados em torno do Partido Comunista do Brasil criado em 1919 no Rio de Janeiro por anarquistas, e aos propagandistas do jornal Spártacus, o principal instrumento de propaganda do grupo. No transcurso de sua escrita Florentino ainda destaca a necessidade de findar com toda pretensão política estatal, quer de direita, quer de esquerda, entendendo que mesmo a defesa de um Estado travestido de maximalista, incorreria num ato de “traição da causa da emancipação humana”.
Ainda nas páginas de A Obra, encontra-se um texto intitulado “Definindo princípios. O sindicalismo não é marxista. A ditadura do proletariado, clausula capital do marxismo, não é a finalidade do sindicalismo”, em que o autor25 (possivelmente um militante anarco-sindicalista) ataca o bolchevismo, figurado por ele como “modismo”, devido a sedução que teria causado em vários amigos militantes, buscando converter o sindicalismo revolucionário em uma simples modalidade do socialismo marxista. Insurgência possivelmente decorrente da gama propagandista de verve bolchevista e do teor desordenado de algumas matérias vinculadas no periódico Spártacus tais como esta: “Chama-te então o que quiseres, - bolchevista, sovietista, anarquista, sindicalista, rebelde, revoltado, maximalista, - és um camarada, és um irmão”26. (SPÁRTACUS, nº 18: 29 de novembro de 1919).
Desta forma, reportando-se a um contexto de incertezas que figurava no meio operário e libertário no Brasil do começo do século XX, o ex-anarquista Astrogildo Pereira, em depoimento expunha: “O que não se sabia ao certo é que os comunistas que se achavam à frente da revolução russa eram marxistas e não anarquistas. Só mais tarde estas diferenças se esclareceram, produzindo rupturas entre os anarquistas”.(BANDEIRA, 1967: 159).
Contundentes notícias sobre o assassinato de socialistas e anarquistas, e das vilanias praticadas pelo Exército Vermelho de Trótski sobre o movimento libertário Makhnovista (ao final de 1920) na Ucrânia,27 ainda como, contra os marinheiros insurgentes de Kronstadt28 (no começo de 1921) multiplicavam-se, trazendo consigo manifestações contra o Estado Soviético e os bolchevistas em terras brasileiras.

Dilemas de intenções e tensões que produziriam no movimento anarquista brasileiro, cisões, remodelando o cenário das lutas operárias, principalmente com a criação em 1922 do Partido Comunista do Brasil (PCB) - órgão oficial bolchevista - por ex-anarquistas, a partir do programa proposto em 1921 por um emissário bolchevista29 a serviço do comunismo russo. Fomentando duelos de forças entre anarquistas e comunistas, mediante os horizontes de transformação da sociedade capitalista industrial, que se perpetuaria de forma mais persistente durante as primeiras décadas do século XX.


* Mestre em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
1 Notas

1 A Rússia já bastante desgastada pelos anos de batalha, retirava-se do conflito mediante a Revolução Socialista que se desenvolvia em seu país no transcurso de 1917, neste mesmo ano os EUA declaravam guerra a Alemanha, dando equilíbrio a Tríplice Entente, assim como garantindo o retorno de seus investimentos, configurados em empréstimos financeiros.
2 Comunidade agrária na Ucrânia em que os camponeses liderados por Nestor Makhno, socializaram as terras segundo os princípios libertários.
3 Filho de camponeses pobres do sul da Ucrânia, foi um hábil revolucionário envolvido em atentados e ações expropriadoras contra ricos proprietários, entre 1905 e 1908. Preso em 1908 é condenado a trabalhos forçados, porém com os acontecimentos de 1917 que convulsionam a Rússia, recuperava sua liberdade, retornado a região de Goulai-Polé (sua terra natal), onde organiza uma guerrilha popular e revolucionária, conhecida como Movimento Makhnovista. No Brasil publicou-se de Nestor Makhno as seguintes coletâneas de textos: A “Revolução” contra a Revolução. A Revolução Russa na Ucrânia (março 1917 – abril 1918). São Paulo: Cortez, 1988; Anarquia & Organização: plataforma de organização e outros escritos. São Paulo: Luta Libertária, s/d. Ainda sobre Nestor Makhno e o Movimento Makhnovista tem-se: ARCHINOV, Piotr. História do Movimento Makhnovista. Lisboa: Assírio & Alvim, 1976; BERKMAN, Alexandre, et al. A Revolução Social na Ucrânia. São Paulo: Imaginário, 2001.
4 Compunham o denominado Exército Branco, eram partidários do Antigo Regime tzarista, responsáveis pelo processo que ficaria conhecido como Contra-Revolução.
5 Grupo que depositava os anseios de Revolução no projetar de uma Greve Geral expropriadora da burguesia.
6 Adeptos do programa máximo do partido socialista russo. Acerca do uso do termo maximalista corriqueiramente utilizado Edgard Leuenroth em O que é maximismo ou o bolchevismo reitera: “`Maximalismo` , ´Bolshevikismo´, etc. são idiotismos que tiveram origem na tradução do idioma russo para o inglês e deste para o português”. p. 7.
7 Os primeiros meses de 1913 seriam marcados por Campanhas Contra a Carestia da Vida, organizadas pela Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ) e pela Confederação Operária Brasileira (COB), enquanto protesto frente ao aumento abusivo dos gêneros de primeira necessidade, tais agitações abarcaram os Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul.
8 Movimento que dava os primeiros passos em meados de junho, através de trabalhadores da indústria têxtil Cotonifício Crespi, na Moóca, e que no transcurso de julho foi ganhando mais adeptos, deflagrando uma Greve Geral por três dias. Sobre tais acontecimentos destacamos um importante relato agregado a obra: BEIGUELMAN, Paula. Os companheiros de São Paulo. 2ª ed. São Paulo: Global, 1981.
9 Importante jornal anarquista surgido em 1917 em São Paulo, pelas mãos do jornalista libertário Edgard Leuenroth. A Plebe um dos mais duradouros jornais anarquistas no Brasil, perdurou até 1949 (tendo uma trajetória marcada por interrupções), sendo o mesmo um “momentâneo” substituto do periódico anticlerical A Lanterna, que interrompia suas atividades em 1916 (reaparecendo em 1933).
10 Importante militante anarquista envolvido na desenvoltura de diversos jornais anarquistas, entre os quais A Terra Livre, A Lanterna, A Plebe, A Vanguarda, Ação Direta, fora um dos fundadores da Federação Operária de São Paulo (1905) tendo participado da organização do Primeiro, Segundo e Terceiro Congressos Operários Brasileiros, ainda através de suas mãos ganhava forma um dos mais importantes arquivos sobre as lutas sociais no Brasil, hoje sob responsabilidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Da autoria de Leuenroth publicou-se: Anarquismo: roteiro da libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963 (re-editado em 2007 pela editora Achiamé); A organização dos jornalistas brasileiros (1908-1951). São Paulo: COM-ARTE, 1987. Outrossim, publicou-se uma pequena e interessante biografia sobre este combatente da liberdade na coleção Rebeldes Brasileiros fascículo 7, da revista Caros Amigos.
11 Sigla da Federação Operária do Rio de Janeiro. Acerca da trajetória de lutas desta instituição consultar: NETO, Oscar Farinha. Atuação Libertária no Brasil. A Federação Anarco-Sindicalista. Rio de Janeiro: Achiamé, s/d.
12 Alguns autores mencionam ainda a constituição de greves no ano de 1917 nos estados de Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Paraná e Santa Catarina.
13 Sobre este episódio existe o importante trabalho de ADDOR, Carlos Augusto. A Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.
14 Pseudônimo de Antonio Candeias Duarte.
15 Periódico surgido no Rio de Janeiro em 2 de agosto de 1919, pela iniciava de Salvador Alacid, José Oiticica e Astrogildo Pereira, duraria somente até o começo de 1920, sendo substituído pelo jornal Voz do Povo.
16 José Rodrigues Leite e Oiticica, professor e anarquista que atuou na Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, e organizou periódicos, como Ação Direta, A Vida, Na Barricada entre outros. Autor da obra A doutrina anarquista ao alcance de todos. 3ª ed. São Paulo: Econômica editorial, 1983. Pela já extinta editora Germinal do Rio de Janeiro que pertenceu ao libertário Roberto das Neves, seriam publicados duas coletâneas de textos de José Oiticica, primeiro Curso de Literatura (1960) contendo texto sobre lingüística publicados originalmente no jornal anarquista Ação Direta, e depois Ação Direta: antolologia dos melhores artigos publicados na imprensa brasileira – meio século de pregação libertária (1970), esta obra trás textos publicados em vários jornais do país, com grande suporte de artigos extraídos das páginas do Ação Direta.
17 Anarquista que extasiado pela Revolução Russa abandonaria o ideal ácrata convertendo-se ao comunismo, foi um dos criadores do PCB, enquanto partido oficial bolchevista, em 1922.
18 Spártacus. Rio de Janeiro, nº 1, 2 de agosto de 1919.
19 Spártacus. Rio de Janeiro, nº 15, 8 de novembro de 1919.
20 Spártacus. Rio de Janeiro, nº 10, 4 de outubro de 1919.
21 Spártacus. Rio de Janeiro, nº 15, 8 de novembro de 1919. Fragmento de um texto intitulado “A Revolução Russa”.
22 Valendo-se do pseudônimo Izaias Caminha, escreve ao jornal sindicalista revolucionário do Rio de Janeiro A Voz do Trabalhador, órgão da Confederação Operária Brasileira (COB), datado de 15 de maio de 1913, um artigo intitulado “Palavras de ´snob` anarquista”. Sobre os vínculos libertários de Lima Barreto ver o texto de: MONTENEGRO, José Benjamin. Lima Barreto: escritor negro e anarquista. In: DEMINICIS, Rafael Borges & FILHO, Daniel Aarão Reis (Org.). História do Anarquismo no Brasil – Vol. 1. Niterói: UFF; Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
23 Pseudônimo adotado por Primitivo Raymundo Soares. Acerca da trajetória política deste libertário consultar: NASCIMENTO, Rogério H. Z. Florentino de Carvalho – pensamento social de um anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000.
24 Periódico surgido em 1 de maio de 1920, e que sucumbiria ao final do mesmo ano.
25 Texto assinado por Arnaldo Danel.
26 Artigo de Manuel Ribeiro, intitulado “Definições: Bolchevismo, Anarquismo, Sindicalismo ...”.
27 O Exército Vermelho metralharia no final de 1920 (no istmo de Perekop) o exército makhnovista que regressava vitorioso do combate as tropas contra-revolucionárias de Wrangel. Nestor Makhno sobrevive, partindo em 1921 ao exílio.
28 Sublevação de marinheiros que contagiados pelo ideal libertário exigiam completa autonomia dos Sovietes (Conselhos) frente ao poder do Partido e do Estado, valendo-se da premissa dos primeiros tempos da Revolução: “Todo o poder aos sovietes”. Sobre tal acontecimento tem-se duas importantes de obras referência: ARVON, Henri. A Revolta de Kronstadt. São Paulo: Brasiliense, 1984; ROCKER, Rudolf. Os sovietes traídos pelos bolcheviques. São Paulo: Hedra, 2007.
29 Segundo Edgar Rodrigues em sua obra Nacionalismo & Cultura Social (1972) o nome do emissário era Ramison Soubiroff, o mesmo a principio teria procurado em São Paulo por Edgard Leuenroth, acreditando ser o mesmo a pessoal ideal para a fundação de um Partido Comunista oficial no Brasil, negando o convite, Leuenroth a pedido de Soubiroff que ansiava pela indicação de outro militante político, sugestiona a pessoa de Astrogildo Pereira que atuava no Rio de Janeiro, e que acabaria por não exitar em aceitar tal incumbência, nascendo assim em 1922 o PCB via 11 ex-anarquistas e um socialista, enquanto órgão de propagação bolchevista amparado em diretrizes soviéticas.




Bibliografia

ADDOR, Carlos Augusto. A Insurreição Anarquista no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.

ARCHINOV, Piotr. História do Movimento Makhnovista. Lisboa: Assírio & Alvim, 1976.

ARVON, Henri. A Revolta de Kronstadt. São Paulo: Brasiliense, 1984.

BANDEIRA, Moniz, et al. O Ano Vermelho. A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

BARRETO, Lima. Um longo sonho do futuro. Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio de Janeiro: Graphia, 1993.

BATALHA, Claudio. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

BEIGUELMAN, Paula. Os companheiros de São Paulo. 2ª ed. São Paulo: Global, 1981.

BERKMAN, Alexandre, et al. A Revolução Social na Ucrânia. São Paulo: Imaginário, 2001.

CAMPOS, Cristina Hebling. O sonhar libertário. Movimento operário nos anos de 1917 a 1921. Campinas: Pontes/ Unicamp, 1988.

CUBERO, Jaime. Reflexos da Revolução Russa no Brasil. Libertárias – Revista Bimestral de Cultura Libertária. São Paulo, nº 1, Outubro/ Novembro de 1997.

DULLES, John W. F. Anarquistas e Comunistas no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

KHOURY, Yara Aun. As greves de 1917 em São Paulo. São Paulo: Cortez/ Autores Associados, 1981.

LEUENROTH, Edgard & NEGRO, Hélio. O que é maximismo ou o bolchevismo. São Paulo: Semente, 1984.

LEUENROTH, Edgard. Anarquismo: roteiro da libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1963.

________ . A organização dos jornalistas brasileiros (1908-1951). São Paulo: COM-ARTE, 1987.

LOPREATO, Christina Roquette. O espírito da revolta: a greve geral anarquista de 1917. São Paulo: Annablume, 2000.

MAKHNO, Nestor. A “Revolução” contra a Revolução. A Revolução Russa na Ucrânia (março 1917 – abril 1918). São Paulo: Cortez, 1988.

________ . Anarquia & Organização: plataforma de organização e outros escritos. São Paulo: Luta Libertária, s/d.

MARAM, Sheldon Leslie. Anarquistas, imigrantes e o movimento operário brasileiro (1890-1920). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

MONTENEGRO, José Benjamin. Lima Barreto: escritor negro e anarquista. In: DEMINICIS, Rafael Borges & FILHO, Daniel Aarão Reis (Org.). História do Anarquismo no Brasil – Vol. 1. Niterói: UFF; Rio de Janeiro: Mauad, 2006.

NASCIMENTO, Rogério H. Z. Florentino de Carvalho – pensamento social de um anarquista. Rio de Janeiro: Achiamé, 2000.

NETO, Oscar Farinha. Atuação Libertária no Brasil. A Federação Anarco-Sindicalista. Rio de Janeiro: Achiamé, s/d.

OITICICA, José. A doutrina anarquista ao alcance de todos. 3ª ed. São Paulo: Econômica editorial, 1983.

________ . Curso de Literatura. Rio de Janeiro: Germinal, 1960.

________ . Ação Direta. Antologia dos melhores artigos publicados na imprensa brasileira – meio século de pregação libertária. Rio de Janeiro: Germinal, 1970.

ROCKER, Rudolf. Os sovietes traídos pelos bolcheviques. São Paulo: Hedra, 2007.

RODRIGUES, Edgar. Nacionalismo & Cultura Social. Rio de Janeiro: Laemmert, 1972.

SAMIS, Alexandre. Ecos da Revolução Russa no Brasil. Libertários – Revista Trimestral de Expressão Anarquista. São Paulo – Rio de Janeiro, nº 1, 3º trimestre de 2002.

TRAGTENBERG, Maurício. A Revolução Russa. São Paulo: Atual, 1988.

VOLIN. A Revolução Desconhecida. Vol. 1 – Nascimento, crescimento e triunfo da Revolução Russa (1825-1917). São Paulo: Global, 1980.

Jornais e fascículos:

A Obra. São Paulo, 1920.

A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 1913.

Spártacus. Rio de Janeiro, 1919.

Rebeldes Brasileiros - fascículo 7, (Revista Caros Amigos) s/d.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009


Outrora...

OUTRORA havia a esperança, o luxo e a paixão
de correr o olhar ao longe
e ver tua cabeleira e nossa bandeira ao vento!

OUTRORA a volúpia era
exatamente como o golpe de um machado sobre o tronco:
presente... certeira e certa!

OUTRORA todos os teatros tremiam e incendiavam-se
sob o arremesso das palmas e do gozo anárquico
que sobre ti pendiam!

OUTRORA os musgos e as tarântulas
abriam espaço para tuas delicadas pisadas
e o outono tremulava a superfície do lago
e vertia Wodka para teu deleite!

OUTRORA eu corria meu olhar ao longe
e te via chegando...
elegante como um astro
pecadora como Messalina
triste como uma antiguidade
e revolucionária como uma tempestade!

Ah, agora tudo se resume numa sombra
numa vaga memória de tuas linhas
e no Caos sem remédio de nossa causa!

Levante esse olhar
para que o Arco-Iris da manhã te veja
e não fujas pelas brechas infames do "poder"...
pois a vida é breve, um sopro no tempo
e nossa paixão vai além, muito além
de todos os "porta-vozes" do mundo!
(Depois disso voltarás a me amar, não é verdade?)

* Poema atribuido a autoria de Mikhail Bakunin, escrito a uma de suas amantes.
Extraído da destemida (porém extinta) Revista Víbora, criada nos anos 80 em Brasília por Ézio Flavio Bazzo e provocadores afins.

domingo, 22 de fevereiro de 2009


Okupar é Resistir!


Originário da contra-cultura dos anos 60, o movimento squatter ganhou o mundo com seus ideais de solidariedade e afronta aos valores do sistema capitalista.
Adriano Belisário

Em toda grande cidade, o abandono de imóveis contrasta com a massa de desalojados. Enquanto sem-tetos buscam abrigo pelas ruas, proprietários mantêm suas posses vazias com a esperança de vendê-las no futuro por um preço vantajoso. Geralmente ignorada pelo poder público, a especulação imobiliária não passa desapercebida pelos squatters. Nascido na contra-cultura européia dos anos 60, este movimento ocupa espaços urbanos ociosos para neles construir verdadeiros centros de resistência cultural.
Formado basicamente por anarquistas, punks, hippies e comunistas, o movimento squatter luta contra aquilo que os pesquisadores chamam de gentrificação. Trata-se de um processo de enobrecimento dos espaços urbanos, que ocorre principalmente em pontos centrais das cidades. A gentrificação ocasiona a remoção dos moradores de áreas consideradas degradadas em prol da recuperação econômica do local.
Por sua vez, os squatters promovem outro tipo de revitalização. Após limpar o prédio abandonado, eles instalam serviços básicos, através de “puxadinhos” de água, luz e gás. No entanto, a ocupação só é completa quando o local passa a ser sede de atividades culturais, como a instalação de bibliotecas, mostras de teatro e poesia e rádios clandestinas. Eis, então, um autêntico squat. A legalidade de seu funcionamento varia de acordo com a legislação do país. Enquanto em muitas regiões a prática é considerada ilegal, na Holanda, por exemplo, prédios abandonados por longos períodos podem ser ocupados sem problemas judiciais.
Os squatters também são conhecidos como okupas. Entre eles, o termo "ocupação" é grafado com K para diferenciar suas intervenções das outras, marcando o caráter políticos de seus atos. A letra remete ainda à cultura punk, que, ao lado do anarquismo, forneceu as diretrizes básicas do movimento squatter. As ocupações são feitas em regime de autogestão, sem chefes ou líderes. Para os squatters, a construção de um espaço alternativo baseado em princípios de solidariedade e respeito mútuo é uma forma de resistir ao pensamento capitalista, centrado nas noções de propriedade privada e na massificação cultural.
Para quem acredita que anarquia é sinônimo de bagunça, não faltam exemplos de organização squatter para provar o contrário. Em Londres, ficou famoso o caso do Squat 121 Center, que após 18 anos de existência foi desativado em 1999. Nele, entre outras atividades, os okupas realizavam ações de amparo à população pobre da cidade. Em relato à Revista Dynamite, Kuru, brasileiro ex-membro do squat inglês, afirma que o grupo era formado em grande maioria por revolucionários e pessoas ligadas à causa ecológica. “A gente ia aos lixos atrás dos supermercados e feiras. Pegávamos tudo o que eles não queriam mais. Era muita comida. Às vezes cozinhávamos para quase 100 pessoas”, conta.

Pesquisador da Universidade do Estado de Santa Catarina, Cleber Rudy estuda o movimento squatter e é autor de artigos sobre o tema. Em entrevista concedida ao site da Revista História da Biblioteca Nacional, Cleber comenta a atuação destes grupos no Brasil.
Revista História - Na década de 60, surgiu na Holanda o movimento Kraker, que possuía atuação bastante semelhante aos squatters. Qual a sua influência na construção dos squats?
Cleber Rudy: A política squatter é fundamentada no movimento punk-anarquista, compondo uma espécie de simbiose squatter-punk. A máxima holandesa dos anos 80, “um punk é um squatter e vice-versa”, ainda que de forma amena, é também seguida no Brasil. Neste sentido, apesar dos squatters brasileiro não agregarem os dispositivos de resistência (rádios clandestinas, revistas, livrarias, advogados especializados, etc) utilizados nas ocupações dos krakers, este movimento holandês tornou-se um forte referencial de luta para os ativistas nacionais. Por exemplo, em Curitiba, o squat Payoll mantinha uma distribuidora de livros e de outros produtos chamada Kraakers, em homenagem ao movimento dos anarquistas sem-teto de Amsterdã.

RHBN – Os squatters surgiram no Brasil na década de 90. Antes disso, há registro de grupos que promoviam a ocupação sistemática de imóveis abandonados?
Cleber: Antes disso, o que se pode constatar são alternativas comunitárias que tinham como peculiaridade o perímetro rural, embasadas em princípios ecológicos ou esotéricos e envolvidas pela contracultura hippie. Todavia, os squatters voltaram-se para as áreas urbanas, optando por permanecer nas cidades e buscando soluções ali mesmo, já que eram compostos por punks (outro movimento urbano) motivados por perspectivas anarquistas. Eles buscavam saídas diante da especulação imobiliária, defendendo novas maneiras de pensar e agir como forma de resistência à organização capitalista da vida urbana, principalmente nos grandes centros.

RHBN – Quais os principais grupos ainda existentes no Brasil? Como suas atividades são vistas pela mídia e pelo poder público?
Cleber: Existem espaços que ainda resistem. Em Atibaia, interior de São Paulo, há a Casa Reciclada. Na periferia de Curitiba, temos a Kaazaa, um dos espaços mais antigos no Brasil, que já completou 13 anos de ocupação. Em Blumenau, há o Corcel Negro. Em Porto Alegre, a Kasa de Kultura. É muito raro a grande mídia dar cobertura a estes movimentos e à trajetória destas experiências. Isto praticamente só ocorre durante as ações de despejo. Todavia, os squatters possuem seus próprios dispositivos de comunicação e divulgação, como os zines, pequenos jornais feitos de forma artesanal e com uma tiragem reduzida. Eles intercambiam informações entre grupos nacionais e internacionais, relatando atividades e organizando encontros de confraternização entre okupas.
Como o movimento squatter se coloca na contra-mão do estabelecido ao desafiar interesses imobiliários e políticas urbanas, o poder público tende a se mostrar hostil a tais iniciativas, não vendo distinções entre espaços ocupados com finalidade de atuarem como centros culturais e lugares usados como refugio para uso de drogas e depósito de furtos. Desta forma, o poder público acaba implementando uma legislação, como a efetivada em Curitiba em 1997, para sancionar o “lacramento completo de portas e janelas, proibindo a entrada de desconhecidos” em imóveis abandonados, visando, neste exemplo, coibir o squat Payoll.

RHBN – Além dos zines, a militância squatter utiliza também as novas tecnologias como forma de divulgar suas atividades?
Cleber: No caso do Movimento Squatter no Brasil, há ainda um certo receio na utilização de tais meios como um veículo de propaganda em favor da causa okupa. Aparentemente, tal desconfiança parece estar ligada a uma precaução face à represália policial, já que o ato de okupar implica em litígios jurídicos que revelam as dicotomias entre o direito à vida e o direito à propriedade, em situações em que se contempla um maior respeito ao direito de propriedade.
RHBN – Além dos embates com o poder público, os squatters enfrentam outros tipos de ataque?
Cleber: A causa squatter é abraçada grandemente por anarco-punks, ou seja, jovens que além de seguirem a cultura punk buscam na política anarquista um mote de embate social em defesa da liberdade, da igualdade e contra o capital, valendo-se da autogestão e da solidariedade. Do outro lado do cenário urbano há os skinheads, por exemplo. Trata-se de um grupo influenciado por ideologias nazi-fascistas. São grupos amparados em perspectivas de luta opostas.
Na defesa de um modelo social conservador, os skinheads praticam ações violentas contra segmentos questionadores destes princípios, entre os quais os squatters. Para se ter uma idéia dos embates entre squatters e skinheads, o squat Payoll de Curitiba foi alvo de duas bombas caseiras em 1998. Um de seus membros foi ainda esfaqueado nas redondezas da ocupação.

Saiba mais:Advisory Service for Squatters - Serviço de apoio ao movimento squatter
Publicado originalmente na Revista de História da Biblioteca Nacional (versão on-line) em 27 de agosto de 2008.

Espaço Cultural Alternativo - Squat de Florianópolis (1993)

Squat Payoll de Curitiba (1997-1999)

Cecília, uma Colônia Anarquista

No final do século 19, imigrantes italianos em terras paranaenses efetivavam no Brasil um primeiro estágio das perspectivas anarquistas, via a constituição de uma colônia, a Colônia Cecília. Evocando a possibilidade de transformação social, os anarquistas, ou libertários, se punham no combate ao autoritarismo e a opressão e em defesa da liberdade enquanto bem maior.
Neste sentido, o mentor da colônia anarquista, Giovanni Rossi, escrevia: “peço a sua ajuda na seleção de novos adeptos para a Colônia. Esta arregimentação de colonos que são antes fugitivos da fome do que anarquistas só trouxe problemas para os que acreditam na experiência da Cecília. Não precisamos mais desses desesperados do destino, que encontram nos anarquistas uma possibilidade de conseguir imigrar, valendo-se de nossos precários recursos. Queremos trabalhadores convencidos de nosso ideário e com bom caráter.” Estas preocupações, aliás, são registradas por Miguel Sanches Neto em seu romance Um Amor Anarquista, obra que trata desta experiência anarquista, efetuada em terras paranaenses entre os anos de 1890 e 1894.
Giovanni Rossi, também conhecido por Cárdias era anarquista e engenheiro agrônomo, natural de Pisa na Itália, e mentor da colônia libertária erigida em Palmeiras, no Paraná. Anos antes tentara na Itália, na região de Cremona, uma experiência comunitária similar conhecida como Cittadela. Na Itália, era ainda responsável pelo semanário socialista Lo Sperimentale, que tratava de discutir experiências sociais de caráter comunitário. Movido pela idéia de que um novo mundo seria possível na América, Rossi junto com outros idealistas seguiu para o Brasil, para aqui dar vida à experiência comunitária de Cecília.
Assim, em terras compradas do governo brasileiro (a serem pagas em cinco anos), nascia esta colônia que chegou nos melhores tempos a abrigar até 250 pessoas, que sobreviviam mediante um sistema de produção coletivo, baseado no trabalho inorganizado (espontâneo), enquanto a distribuição da produção dava-se pela necessidade de cada membro. Para tanto, Candido de Mello Neto – descendente de uma das famílias que viveram na colônia -, em O Anarquismo Experimental de Giovanni Rossi escreveu: “Quanto aos alimentos existentes em maior quantidade, havia liberdade em seu consumo; os mais raros, ou mais saborosos, eram racionados em partes iguais. Os doentes recebiam privilegiadamente a comida e a bebida mais delicada. A caixa social permanecia sempre aberta, mesmo após o único roubo ocorrido. Com a concordância de todos, esta estabelecido que o abandono da Colônia não propiciava quaisquer direitos de reclamação quanto a bens materiais”.
Desta forma, a experiência de viver anarquicamente requeria modificações dos costumes e hábitos, exigindo dos envolvidos a superação dos antigos vícios de uma sociedade solidificada em relações egoístas. E neste sentido, o amor livre foi uma nova concepção de amar, levada a cabo na colônia por Aníbal, Eleda e Rossi. E nesta perspectiva o amor, visto como espontâneo, era movido pelo ânimo de estar ao lado de que quem se gosta sem a implicação de contratos ou obrigações. Sobre tal ímpeto amoroso em Cecília, Rossi comenta: “quando, (...) todos viram o modo respeitoso com que tratei Eleda e que as atitudes desta não deixaram, em nenhum momento, de ser afetuosas com Aníbal e reservadas comigo, quando viram a amizade fraternal entre Aníbal e eu, movida pelo objetivo comum de tornar agradável a vida de Eleda, quando, em suma, perceberam que o amor livre não é a vulgaridade animalesca e sim a mais alta e agradável expressão da afetividade, dissiparam-se até as últimas hesitações”. O nome da colônia, inclusive, tinha sua origem numa personagem de uma das obras de Cárdias, “Uma comuna socialista”, uma aventura a três, vivida entre Cecília, Rossi e um amigo.
Todavia, muitas eram as dificuldades para um laboratório social como Cecília, como integrantes que debandavam, buscando melhores condições de vida, integrando-se como mão-de-obra em cidades vizinhas. Entretanto Candido de Mello Neto afirma: “a Colônia não caiu por ter sido comunista e muito menos por ter sido anárquica, mas porque era pobre e era pobre porque começou com pouquíssimos meios, com pessoas incapazes para os trabalhos agrícolas, estando em meio a uma vida que lhe era economicamente estranha”.
Dissolvida a colônia libertária em 1894, muitos dos seus membros ao migrarem principalmente para Curitiba ou Porto Alegre, contribuíram para a organização do movimento operário segundo perspectivas anarquistas. Em Curitiba pelas mãos do egresso, Egízio Cini surgia em 1899 o periódico anarquista Il Diritto. Mais tarde dava alento a fabricação de bebidas, entre estas o refrigerante Cini, ainda hoje existente, mas que poucos sabem ter nascido do pioneirismo de um anarquista outrora integrante da Colônia Cecília.
Giovanni Rossi, o “pai” da experiência anarquista, após curta estadia em Curitiba, rumou para o Rio Grande do Sul, vivendo posteriormente em Santa Catarina, porém esta é uma história, para um outro momento de prosa, entre um gole e outro de Cini.

Cleber Rudy



Filme ítalo-francês de 1975 que se reporta a experiência anarquista da Colônia Cecília
MILITÂNCIA, SEXO E AMOR:
Discursos e debates sobre sexualidades e papéis de gênero no jornal anarquista A Plebe no ano de 1935.

Ana Claudia Ribas
Mestra em História do Tempo Presente - UDESC





A nossa aspiração baseia-se no esquema anarquista da observação experimentando-a quem quiser, espontaneamente, sem subterfúgios de partidas, de partidos, ou na religião, a nossa escolha é filosófica-literária e marcha para a liberdade, para o amor livre e para a harmonia da espécie humana.

Trecho do texto assinado por F. Accuaviva,
para o Jornal A Plebe em 27/05/1935.


Muito presente entre os operários da indústria paulista e carioca – além dos demais centros industriais brasileiros - durante as primeiras décadas do século XX, encontrava-se as idéias libertárias do anarquismo, seja em greves e mobilizações, seja em lutas por melhores condições de trabalho e de vida para o operariado, ou ainda na discussão sobre a exploração imposta pelo capitalismo.
Os ideários anarquistas, nesse período de grande efervescência, tornavam-se ainda mais perceptíveis por uma imprensa muito ativa, que dentre as temáticas de cunho social que abordava, também trazia em seu interior interessantes discussões sobre o ser humano enquanto um ser global, cuja individualidade precisaria ser respeitada para que uma nova sociedade justa e igualitária pudesse, enfim, nascer. E é a partir dessa perspectiva que o tema sexualidade acabaria por surgir entre as discussões nos jornais anarquistas dessa primeira metade do século XX, uma vez que era compreendida como parte integrante da vida humana, e lugar onde também a liberdade individual também deveria existir [1].
Assim, muitos são os pontos em que o discurso anarquista, em seus periódicos, iria destoar dos demais discursos vigentes na sociedade brasileira, e por vezes, gerando conflitos entre os próprios discursos de militantes anarquistas, pois não se limitava a discutir questões ligadas apenas ao corpo feminino, mas preocupava-se, por vezes, em lançar olhares também sobre os corpos masculinos.
Muitos podem ser os fatores apontados para explicar a presença de tal tema nas páginas da imprensa libertária, mas certamente não há como se desconsiderar que a presença efetiva de mulheres como colaboradoras na produção desses periódicos, deve constar entre os mais significativos. Essa presença feminina não ocorre por acaso, uma vez que no Brasil, assim como em diversas outras partes do mundo ocidental, as mulheres passam a questionar as normas de conduta rígidas que lhes são impostas, assim como sua limitação à esfera privada [2]. Elas, a muito, já participam do mercado de trabalho. Na década de 1930 ganham seu primeiro espaço como eleitora. Já estão presentes nos círculos intelectuais, e a própria moda torna-se mais leve, mais prática, criando uma aura de “liberdade” aos modelos femininos.
O anarquismo acabou por fornecer um espaço político de luta pela emancipação feminina, assim como para uma participação efetiva das mulheres em seus planos de construção de uma nova sociedade[3]. E, neste contexto, algumas personalidades acabariam por destacarem-se, como é o caso da professora Maria Lacerda de Moura[4] que desponta no espaço público discutindo o lugar social destinado às mulheres e conseqüentemente, acaba por promover inúmeros debates sobre questões ligadas a sexualidade.
É interessante notar que, apesar do espaço destinado as mulheres dentro do movimento anarquistas na primeira metade do século XX não se tratar de um espaço de subalternidade[5], isso não significa que havia uma proximidade entre os libertários e libertárias com as feministas. Para os anarquistas o discurso de igualdade deveria ser ampliado, ultrapassando as discussões limitadas à questão sexual, a dominação masculina sobre a mulher, alcançando patamares onde fosse possível efetivar-se uma sociedade igualitária, tanto para homens quanto para mulheres.
Neste artigo, objetiva-se lançar olhares sobre o jornal anarquista A Plebe, analisando os números que saíram durante o ano de 1935, buscando perceber como, neste pequeno recorte temporal, e diante do contexto social e político que se descortinava como pano de fundo, os anarquistas e as anarquistas se posicionavam diante das discussões sobre as sexualidades e os corpos.
Ambiciona-se ressaltar a importância dos debates sobre corpo, moral e sexualidade na divulgação do projeto anarquista, mas de forma alguma se almeja esgotar esta discussão, uma vez que este trabalho é limitado, tanto ao recorte temporal, quanto em seu objeto de análise – pois se trata de apenas uma das muitas publicações anarquistas do período -, restando como objetivo apenas um breve olhar sobre este interessante tema, e deixando maiores aprofundamentos para trabalhos posteriores.

A Plebe e a militância

O periódico A Plebe, certamente pode ser citado como um dos mais conhecidos e importantes periódicos da imprensa libertária brasileira, tanto pela extensão do período de sua existência, como pela abrangência de sua circulação.
Fundado em junho de 1917 em São Paulo, em plena greve geral, tinha por objetivo servir como instrumento de divulgação das notícias desse conturbado momento, mas acaba firmando-se como importante divulgador da doutrina anarquista, mantendo sua circulação até o ano de 1949, com pequenas interrupções motivadas por perseguições policias e problemas financeiros.
Fundado por Edgard Leuenroth, o jornal teve vários redatores, desde o próprio Edgard, passando por Florentino de Carvalho, Manuel Campos, Pedro Augusto Mota e Rodrigo Felipe [6].
Na década de 1930 era Rodolfo Felipe quem dirigia A Plebe, em uma época em que ainda se podia sentir os abalos causados pela “revolução” de 30 e a chegada de Getúlio Vargas ao poder. Era época de intensa perseguição aos anarquistas. Evidentemente, estas perseguições não eram uma grande novidade para os militantes, entretanto foi neste período que inaugurou-se um diferencial, o DEOPS-SP [7] passou a funcionar intensa e sistematicamente, tornando mais arriscada a militância efetiva.
Entretanto, nos anos de 1934 e 1935, tanto o diretor do jornal Rodolfo Felipe, que havia sido preso algumas vezes, quanto o próprio periódico A Plebe, experimentaram um período de “sossego”.
No ano de 1935, muitos eram os temas abordados neste jornal, que iam desde propagandas dos princípios anárquicos, suas ideologias, seus posicionamentos anticlericais e anarco-sindicais, denúncias contra abusos policiais e prisões arbitrárias, informações sobre organizações e encontros sindicais e operários, informativos de greves - tanto no que se referiam a movimentos nacionais quanto no âmbito internacional -, convites para confraternizações e piqueniques entre os militantes da causa anarquista, operários e seus familiares, conferências, até críticas ao Partido Comunista, aos bolcheviques e aos integralistas. Entretanto também a questão da emancipação feminina e a participação das mulheres na vida pública são visíveis nesse momento dentro de A Plebe.
As influências sofridas pelos redatores(as) e colaboradores(as) de A Plebe são incontáveis, e algumas provenientes do movimento anárquico existente fora das fronteiras brasileiras, como é o caso da influência exercida por Emma Goldman[8], que muito inspirava as militantes engajadas em uma luta pelo emancipação feminina, seja por sua vida militante ou seja por seus escritos inspiradores.
Assim como Emma Goldman, muitas eram as mulheres que participavam como colaboradoras nos jornais anarquistas brasileiros, propondo-se a discutir questões sociais a partir do pensamento anarquista. Este engajamento feminino é perceptível em inúmeras passagens, de onde convém destacar algumas, por exemplo, o texto intitulado “Um apelo que deve ser ouvido”, assinado por Isa Ruti. Neste, a autora objetiva lançar uma campanha de auxílio financeiro ao jornal A Plebe, que constantemente encontrava dificuldades para manter sua periodicidade e circulação. Deste modo, “juntando a ação às palavras”, a decidida militante oferece a redação do jornal a quantia de “cinco mil réis, equivalente a duas entradas de cinema”, diversão de que está decidida a privar-se “em favor da ‘Plebe’”, desejando que sua atitude viesse a inspirar seus companheiros de militância. Assim, Isa Ruti conclui: “O meu coração sensível de mulher contém, armazenado muito amor pelo ser humano. Desse amor vou dispor para dar o que eu poderia dar, se fosse homem e fumasse, em beneficio da ‘Plebe’” [9].
É interessante notar que os preceitos de feminilidade, assim como, a clara distinção de entre homens e mulheres, é mantida no texto de Isa Ruti. Mesmo estando em um ambiente tipicamente masculino – o espaço público – ela não anseia, em seu discurso, por ‘masculinizar-se’, acabando por transformar a sensibilidade atribuída à mulher, em um fator crucial de sua militância, um diferencial que teria apenas a contribuir com o movimento anarquista. Isto se torna mais claro quando, no final de seu artigo, Isa Ruti descreve o desenvolvimento de “um trabalho sobre o tema – ‘O amor como fator de progresso humano’”, visando oferecer este “em palestra pública, em beneficio do jornal”.
É perceptível que não há interesse em discutir a construção social do papel de mulher ou homem na sociedade, isso em termos culturais, mas as relações de poder que acabam imbricadas nestas construções. Isso se deve ao ideal de igualdade e individualidade pregadas pela doutrina anarquista, que acaba por permitir as mulheres envolvidas no movimento, um diferencial de luta por sua emancipação, se comparadas as feministas em atividade neste mesmo período histórico.
Entretanto, a militância anarquista feminina, refletida nos discursos produzidos nas páginas de A Plebe, não pode ser homogeneizada, nem o modo “adocicado” de escrita de Isa Ruti, tomado como padrão. Textos mais inflamados, que visam incitar os seus leitores a um “levante revolucionário” propriamente dito, são assinados por mulheres, mostrando a grande diversidade que foi a participação feminina nas páginas deste periódico.
Um exemplo de discurso incitador seria o assinado por Juliette Witheatname:

Dum lado, os que querem dominar, avassalar os seres, utilizá-los para seus fins próprios; do outro, aqueles que tentam torná-los livres, de erguê-los contra todos os despotismos, venham não importa de onde: da vontade de um só ou da de um agrupamento promovido à carga de impingir à coletividade, editais ou leis. É o sopro desses rebeldes que emana a força que derrubou todos as regimes passados e que, amanhã solapará o regime atual em que vivemos, apesar da potência de que dispões na riqueza e na ordem estabelecida, protegidas pelo seu baluarte, o exército, e encostadas a sua fiel auxiliar, a religião.[10]

A homogeneização da militância anarquista feminina nas páginas de A Plebe torna-se ainda mais inviável se levarmos em consideração que além da questão de gênero que envolve a produção de discursos desse periódico, também a outra questão precisa ser considerada: a geracional. Textos de Maria Lacerda de Moura, que neste período já contava com uma idade bastante avançada, coexistem com artigos como o de Alba Moscalega, que além de expor sua opinião sobre os conflitos que ocorriam na Europa, explicita nas páginas desse mesmo jornal que conta com menos de doze anos de idade [11].
Percebe-se, então, um maravilhoso mosaico de personalidades e militantes que utilizavam o periódico para expressarem suas opiniões e difundir o ideário anarquista.

O homem, a mulher, a militância e o amor

Mesmo com a Constituição de 1934 e a inclusão das mulheres no processo eleitoral, e o surgimento de inúmeras vagas de trabalho que eram destinadas a elas –como datilografas, telefonistas, professoras, entre outras -, o espaço público ainda não estava completamente conquistado, uma vez que a mulher encontra-se amarrada a um modelo de família que não acompanhava estas mudanças pelas quais a sociedade passava. Diante deste impasse, os anarquistas percebem dois “problemas” que atravancavam a emancipação feminina: a prostituição e o casamento indissolúvel.
A prostituição era tema constante nas páginas de A Plebe, sempre apresentada como uma “calamidade muito antiga”, e como uma cruel forma de “exploração” feminina, para a qual a mulher é obrigada a recorrer diante do sistema capitalista. Tal abordagem fazia com que os anarquistas conseguissem, no campo discursivo, desvincular o problema da prostituição do campo moral, e ligá-lo ao campo social, afastando-se de possíveis consonâncias com o discurso religioso, por exemplo.
A crítica a prostituição, nos discursos veiculados por A Plebe, caminha paralelamente, chocando-se por vezes, com a crítica ao modelo de família burguesa nuclear, onde o homem destaca-se como o “cabeça do casal”.
Em um artigo publicado em março de 1935, e assinado por De Noedul, encontramos uma interessante discussão sobre o espaço da mulher nas famílias e o respaldo legal deste. O autor do artigo tece críticas ao fato de que em muitas civilizações a mulher tem basicamente dois papéis: o de dar prazer ao homem e de dar-lhe também filhos. Neste contexto, apresenta um interessante ponto de reflexão para seus leitores: “a legislação defende a ‘família’, não o indivíduo da família” [12]. Assim, qual seria a importância da família, se os indivíduos pertencentes a ela não são importantes? Para justificar essa explanação de não-defesa do indivíduo dentro do ambiente familiar, ele escreve:

Se uma das filhas é seduzida (no sertão brasileiro), perde o direito ao titulo de família e é considerada “mulher atoa”, isto é, perde o direito de se constituir família honesta e passa para o uso da coletividade masculina.(...)
Enquanto que o homem é considerado (pela lei) um ser dotado de inteligência e, portanto, suscetível de errar, a mulher é considerada um ser irracional (...). [13]

Apesar da indignação expressa no trecho acima, de modo algum o autor deste artigo desejava apresentar as mulheres enquanto vítimas das circunstâncias. Ele afirma nas linhas seguintes: “E de quem é a culpa, no entanto: da mulher (...)”. Apesar de iniciar seu texto apontado um descaso legal para com as mulheres, citando exemplos disso a partir do sertão brasileiro, o autor crê que apenas poderá haver algum tipo de mudança, não somente a partir de homens como ele, que percebem e indignam-se com a injustiça, mas a partir das próprias mulheres, que necessitariam construir uma nova consciência sobre seu espaço e seu papel social, engajando-se nas mudanças que seriam necessárias para uma sociedade mais justa.

(...) [A] própria mulher que esquecera o seu papel de companheira do homem, aceita, submissa, o papel de fêmea. Ela é que tem por seu próprio esforço de elevar-se até o homem emancipando-se, como os escravos o souberam também. [14]


Reafirma, ainda, com veemência a importância da participação da própria mulher em sua emancipação, a partir de um exemplo entre mãe e filho:

Os homens que a classificaram rebaixando-a, são filhos seus, foi ela que lhes ensinou as primeiras palavras, que “lhes mereceu” o primeiro sorriso e o primeiro amor. E, são “senhores, a julga-la, classificando-a como coisa e não como ser humano, é revelia dela própria que, incapaz de reagir recolhe-se em seu próprio sofrimento com a passividade do bruto.[15]

Assim, as mulheres apenas estariam fora das leis dos homens por vontade própria, por apatia, por passividade e por medo de levantarem-se contra sua própria submissão. Esse posicionamento é por vezes justificado, por exemplo, no discurso proferido pela militante apenas identificada pelas iniciais O. F. , por ocasião de um piquenique comemorativo organizado pelo próprio jornal, e que foi transcrito em suas páginas. Neste constata que “A sociedade não intervem entre escrava e senhor pra proteger a parte mais fraca e chamar a parte forte a razão (...)” e é neste exato ponto que o papel dos anarquistas na luta pela emancipação feminina tornava-se, de acordo com seu discurso, imprescindível: “Cabe a nós anarquistas, amantes da liberdade e da justiça reabilitar a mulher tão oprimida(...)”.[16]
O papel redentor do anarquismo apresentado nestes discursos é claro: a mulher não pode alcançar sua emancipação sem que ela própria assim o deseje, mas para que ela possa perceber as desvantagens de sua situação, precisa tomar consciência de seu lugar enquanto igual e companheira do homem. Assim, para que ela seja realmente capaz de “levantar-se” contra este modelo social seria necessário que esta mulher aperfeiçoasse-se moral e intelectualmente, e isso seria possível através da doutrina anarquista.
Deste modo, em muitos artigos de A Plebe é possível encontrar críticas a mulher como propriedade do homem, uma vez que a própria noção de moral anarquista baseava na idéia de liberdade, como podemos ver na frase a seguir, retirada de um artigo intitulado “A moral social na sociedade socialista libertária”: “A solidariedade é a primeira lei humana – dizia Bakounine[17] – a liberdade eis aí a segunda” [18].
E é com base neste preceito de liberdade, tão difundido pelos pensadores e ativistas anarquistas que se viria discutir o casamento indissolúvel - o modelo de família burguesa -, dentro das páginas de A Plebe.

Os conceitos morais de nossos avós já bruxuleiam como luz prestes a se apagar. Eram baseados na ignorância feminina conservada propositalmente para evitar esclarecimentos. Atualmente estas idéias fossilizadas existem nos países católicos, mas a irradiação dos conceitos novos, partidos dos povos mais adiantados, irão gradualmente iluminando a mentalidade feminina, que acordará envergonhada do longo sono em que permaneceu insciente do opróbrio que por séculos lhe pesou em cima. [19]

Era preciso lançar rapidamente novos posicionamentos políticos e morais que dessem conta da solução para o modelo de família nuclear baseado no casamento indissolúvel, assim como, para erradicar a prostituição. Era preciso apontar um novo espaço seguro para as mulheres, enquanto iguais e livres, como mandava a tradição anarquista. Assim inicia-se a difusão das teorias de amor livre e a educação sexual.
O amor livre era, em verdade, a crítica a família burguesa e a instituição católica do casamento, tachados de “superstição e egoísmo” de uma “vida em sociedade” [20]. Este amor livre estaria ligado ao direito ao amor como um sentimento natural, “menos a uma proposta de variação de parceiros, do que a crítica a institucionalização dos sentimentos em formas rígidas e envelhecidas” [21]. Era a maneira com que os libertários, assim como as libertárias questionavam a disciplinarização do amor e do sexo.

Nos entendemos amor livre o direito de amar livremente para ambos os sexos, o direito da mulher escolher livremente o eleito de seu coração, sem encontrar no caminho da suas inclinações os obstáculos da tirania paterna ou preconceitos de uma sociedade baseada na mentira religiosa, na mentira sexual e na mentira do amor.[22]

Nas páginas de A Plebe muitos discursos neste sentido foram proferidos por mulheres militantes, chamando os demais leitores a uma mudança de atitude em relação ao matrimônio indissolúvel, apontando para possíveis resistências de militantes anarquistas que, certamente sentiam-se desconfortáveis diante de tais afirmações.
O trecho a seguir foi assinado por Erna Gonçalves, em um artigo intitulado “Amor livre (a minha opinião)”:

Amigos! Nós, que somos unidos numa compreensão sã das coisas, que não nos escondemos quando ouvimos discutir questões do matrimonio e que, nas prostituídas, vemos vitimas de uma situação criada pelos absurdos da exploração de sentimentos, nossas irmãs, nossas companheiras, não podemos temer o amor livre, porque temos consciência dos nossos deveres, deveres de anarquistas.[23]

É interessante perceber que, para este artigo escrito por Erna, surge uma resposta escrita por outro anarquista que assinava como Amilcar, e que elogia a atitude da “camarada”, que teve “coragem para dizer em público que não temes o amor livre”, arrematando que “esta franqueza é admirável” [24].
Estas palavras induzem a conclusão que, apesar das discussões sobre amor livre estarem presentes nos jornais anarquistas desde o final do século XIX e o início do século XX, ainda não haviam alcançado uma grande adesão entres os militantes e as militantes anarquistas em 1935, estando mais restritas ao meio discursivo do que o prático. Mostrando a dificuldade existente, entre os próprios anarquistas, em romperem com a norma social estabelecida.
É interessante perceber que a justificativa mais forte para que o amor livre passasse a ser a regra do novo modelo de sociedade almejado pelo movimento anarquista, é a felicidade.

Há um ideal humano. Todos sentem esse ideal sem distinção de raças, sexos, idades, todos querem atingi-lo. Este ideal é a felicidade.(...)
É verdade que cada indivíduo tem um modo de encarar a felicidade. Justamente por isso só se pode ser feliz sendo livre.[25]


Não há dúvidas que o amor livre, neste momento histórico, apresenta-se como uma grande ruptura, especialmente para as mulheres, pois acaba por tirar da mulher um diferencial no âmbito social, de convivência e status: o título de “mulher honesta”. Mesmo que o amor livre prometesse o fim de seu sujeitar-se a “escravidão” de um casamento arranjado pela família, em um relacionamento sem amor, onde a mulher não era vista como uma companheira, uma igual na relação, significaria abandonar toda a educação burguesa que tivera (mesmo não pertencendo diretamente a esta classe) e perder a “respeitabilidade”, a “honra” diante do restante da sociedade. O amor livre propunha romper com a religião, o casamento indissolúvel, com as leis, e com a moral vigente.
Para que a mulher pudesse estar preparada para estas mudanças tão radicais, os anarquistas complementavam seu projeto de amor livre com o projeto de educação sexual, pois “Só assim faremos obra de educação e preparemos a mulher livre do futuro”[26].
Em A Plebe encontram-se resenhas de livros que tratam da Educação Sexual, a partir de uma ótica libertária, como por exemplo, o livro intitulado “Educação Sexual” de José de Albuquerque, onde comenta-se que “(...) por ser pecado, achavam que as moças e os rapazes deveriam ser criados com absoluta ignorância dos assuntos referentes ao sexo e as funções sexuais” [27], mas que proporcionar este tipo de educação, não seria banalizar o sexo, mas tornar possível um conhecimento que trouxesse segurança, tanto as famílias, quanto as jovens e os jovens, uma vez que estariam esclarecendo a estes sua própria sexualidade.
No entanto, a sociedade ainda encontrava-se receosa para este tipo de assunto dentro da âmbito familiar.

Ensinar os filhos como nascem e qual a razão de ser de certos fenômenos que se manifestam em seus organismos, evitando, muitas vezes, desarranjos que provocam verdadeiros infortúnios, era um crime, era a desonra, era levar a família à degradação e ao despudor... [28]

E conclui:

É uma gama de verdadeiros conselhos às mães, aos pais, e sobretudo aos jovens de ambos os sexos que é preciso cerrar de todos os cuidados e de todos os respeitos que merecem ao entrarem nos portais da vida em que vão ter uma função criadora.[29]


Além da divulgação de livros, haviam divulgações de eventos organizados pelo Circulo Brasileiro de Educação Sexual, que iam desde programas de rádio, distribuição de folhetos, até a Semana Paulista de Educação Sexual. Entretanto as atividades desse grupo não eram constantemente vistas com bons olhos pela sociedade e pelo governo do período, acarretando na proibição da exibição do filme “A Educação Sexual dos Diversos Períodos da Vida”, promovido pelo Círculo. Neste filme, além das informações sobre as diversas fases da vida do ser humano, também havia orientações de como evitar doenças, por exemplo, as “moléstias venérias” [30].
Estas campanhas pela educação sexual tão caras aos anarquistas, eram também seguidas por campanhas realizadas pela própria Igreja Católica, que desde 1931, com a sansão do Papa, proíbe formalmente os pais católicos e professores de esclarecerem os filhos ou alunos – de ambos os sexos - a respeito de assuntos sexuais, sendo que somente os padres ficariam autorizados, em casos urgentes, a dar explicações sobre o tema.
Esta normatização imposta pela Igreja Católica, assim como seus valores morais de pureza e castidade, eram constantemente motivo de pesadas críticas por parte dos e das anarquistas. Entretanto, estes militantes, mesmo que inconscientemente, partilhavam dos valores vigentes de sua época. Um bom exemplo disso, pode ser a resenha publicada em A Plebe, sobre o livro “Nancy – La de los ojos Pardos”, do autor Georges Cenardo.
De acordo com a resenha, este se trata de um romance, cujo personagem principal é uma moça chamada Nancy, “fruta apetitosa da cobiça dos homens”, que precisava “auxiliar a manutenção da casa de seus pais”, e que para tanto, sai em busca de trabalho. Entretanto, graças as seus atributos físicos acaba por ficar “entre dois dilemas terríveis: subir, ganhar posições cedendo aos desejos, as vezes degeneradas manifestações de temperamentos viciosos dos chefes, ou forçada a abandonar o trabalho” [31].
Entre os mais variados infortúnios de uma “sociedade burguesa”, Nancy “Passa por tudo isso como uma salamandra pelo fogo sem se queimar”, mantendo sua pureza e não se entregando sem amor. Ao final, como recompensa “ao seu martírio, Nancy encontra um moço bom que por ela se apaixona e a faz sua esposa” [32].
O final do romance aproxima-se do ideal de amor burguês, mas que é muito bem comentado no jornal:

Valha, porem, a intenção do autor que, num escrito poético e romântico faz nascer num pantanal de lama e vicio, de crime e vergonha, miséria física e moral, uma flor de pureza rutilante e imaculada.[33]


Seria a busca constante dos e das anarquistas, não pela liberação sexual, mas sim pela liberação dos sentimentos, indo contra a “sociedade onde o amor se vende e os sentimentos se prostituem” [34]. Não é um apelo a promiscuidade, muito pelo contrário, mas a busca por uma sociedade em que os sentimentos possam ser o principal motivo da vida a dois, e onde a mulher possa tornar-se parte ativa e respeitada, mesmo que o caminho para tanto seja repleto de dissonâncias e contradições.

O corpo masculino e a nova sociedade

Dentro do discurso anarquista expresso em A Plebe, a primeira impressão que se pode ter é de que o papel do homem está plenamente definido, e que resta então, discutir a questão feminina, o lugar da mulher nesta nova sociedade que está sendo idealizada.
Mas, em um olhar mais apurado, é possível perceber que há sim uma discussão sobre a sexualidade masculina, especialmente enquanto parte do processo reprodutivo humano.
Entre os anarquistas, especialmente na década de 1930, muito se discutia sobre a maternidade, não para negar o papel das mães, mas na defesa de que se tornar mãe poderia ser uma opção, e não uma obrigação. Assim, o momento mais propício e as melhores condições para a maternidade poderiam, e deveriam, ser escolhidas.
Muitos membros do movimento anarquista concordavam com este posicionamento, e promoviam discussões em prol da legalização do aborto. Outros, apesar de concordarem com a opção de se poder escolher o momento certo, tanto para a maternidade quanto para a paternidade, passam a discutir um método que julgavam mais seguro que o aborto - por ser este considerado o último recurso no controle de natalidade, uma vez que precisaria ser realizado mediante muitos cuidados e ainda nos primeiros meses de gestação –, eles discutem a vasectomia.
Em um artigo para A Plebe, Marques da Costa relata o drama vivido por alguns amigos e suas companheiras na Europa, que haviam sido presos pela polícia francesa sob a acusação de “provocação de abortos” e de “mutilação de órgãos genitais” – a vasectomia -, previsto no Código Penal Francês do período.
O texto, além de desejar fazer denúncia sobre a prisão dos anarquistas na Europa, este militante também acaba por homenagear as atitudes desses homens, tratando-os como exemplos para a cultura anarquista:

Que estas linhas, sejam pois, uma homenagem – bem merecida, por certo! – a fé inquebrável no ideal anarquista de que os companheiros Barthozeck, Prévotel e Lapeyre acabaram de dar prova, ao mesmo tempo que da propaganda dessa formula preconizada por Barthozeck de esterilização dos órgãos genitais do homem, que tem, indiscutivelmente, o direito de não assumir responsabilidades paternais, se as suas atividades político-evolucionárias fizerem dele um candidato a constantes perseguições, à prisão continua e a deportação e expulsão sistemática com que os governos de todos os paises se vingam dos que conscientemente e irredutivelmente os criticam e acusam e combatem.[35]

A busca por um controle da natalidade encontra apoio na premissa anarquista que rege seus discursos sobre sexualidade: a liberdade. Neste caso a liberdade de não precisar assumir as funções paternais, e poder estar dedicando-se totalmente a causa anarquista. Para tanto os métodos anticoncepcionais, assim como o aborto, são temas muito discutidos. O que convém ressaltar aqui, é a discussão sobre a vasectomia, que ainda na atualidade é vista com receio pela maioria dos homens. Entretanto, o autor do artigo afirma: que “a vasectomia – não está de mais repeti-lo – não é castração; não é a abdicação testicular” [36]. Esta é indubitavelmente uma discussão avançada para o período, especialmente para o Brasil.
O que é mais interessante perceber é que a vasectomia é vista como uma solução para o risco do aborto, além de ser também uma opção masculina contra a natalidade, sua livre opção de ser ou não pai.
Muito comumente encontra-se o discurso sobre o controle da natalidade que insidem sobre o corpo feminino, como se fosse apenas obrigação da mulher dar conta dos métodos anticoncepcionais ou decidir pela maternidade. Esta discussão proposta nas páginas de A Plebe mostra um interessante deslocamento, onde também os homens encontrar-se-iam aptos a decidirem pela geração ou não de uma nova vida. E se caso houvesse discordância entre o casal no que se referiria ao desejo ou não de se ter filhos, o amor livre seria a solução para o problema: “O homem que não quiser se pai pode evitar de o ser. A mulher que deseje, que anseie, que queira ser mãe, fica sempre o recurso de buscar um homem que a faça engravidar”, pois “somos partidários da liberdade”.[37]

Considerações Finais

Há muito ainda para ser explorado no que se refere ao corpo e a sexualidade dentro dos discursos anarquistas divulgados em sua imprensa libertária, e esta discussão não pode, de modo algum, ser vista como conclusiva ou acabada, o que torna o tema ainda mais interessante e sedutor.
No entanto, mergulhar nestes discursos é perceber que os anarquistas e as anarquistas compreendiam muito bem que o corpo também pode ser um modo de fazer política, e que a liberdade passaria, inegavelmente por ele, quebrando com a idéia de “corpos dóceis” para o trabalho e para a família, para a sociedade disciplinadora. Assim, temas como amor livre, maternidade, aborto, prostituição, vasectomia, não poderiam estar ausentes, de forma alguma, tanto em sua doutrina como em sua imprensa libertária.
Mas discutir o conteúdo desses discursos nos jornais pode trazer também algumas armadilhas, pois estes não refletem toda a discussão e o debate empreendido no meio anarquista do período. Exemplos são as discussões propostas pela professora Maria Lacerda de Moura, que em sua obra “A Mulher é uma Degenerada”, que discute a reivindicação do prazer sexual também pela mulher, o que não é visto com freqüência nos debates nas páginas de A Plebe. Este tema é substituído pela valorização do companheirismo e do sentimento em uma relação, em detrimento ao lado sexual, no que se refere ao prazer.
Obviamente, cada jornal libertário tinha seu público alvo, seus colaboradores, e seus objetivos que precisam ser considerados, o que vem abrir espaços para que se lancem inúmeros outros olhares sobre esta temática, que neste artigo, apenas pode ser levemente explanado, mostrando que as discussões atuais sobre sexualidade e corpo, não são tão inéditas quanto aparentam.

Referências Bibliográficas

GOLDMAN, Emma. O indivíduo, a sociedade e o Estado. São Paulo: Imaginário, 1998.

PISCITELLI, Adriana. Reflexões em torno do gênero e feminismo. In: COSTA, C. de L. e SCHMIDT, Simone P. (orgs). Poéticas e políticas feministas. Florianópolis: Mulheres, 2004.

PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.

RAGO, Margareth. “Es que no es digna la satisfacció de los institos sexuales?”: Amor, sexo e anarquia na revolução espanhola. In: Letralivre – revista de cultura libertária, arte e literatura, Rio de Janeiro, n.6, p. 09-16, 2002.

SILVA, Rodrigo Rosa. As idéias como delito: a imprensa anarquista nos registros do DEOPS-SP (1930-1945). In: DEMINICIS, Rafael Borges e REIS FILHOS, Daniel Aarão. História do Anarquismo no Brasil vol. I. Niterói – RJ: Mauad X, 2006, p. 113-132.

RAGO, Margareth. Do amor Livre. In: Revista Libertárias: Revista de Cultura Libertária, n. 03. São Paulo, set. 1998, p.11.


[1] GOLDMAN, Emma. O indivíduo, a sociedade e o Estado. São Paulo: Imaginário, 1998.
[2] PISCITELLI, Adriana. Reflexões em torno do gênero e feminismo. In: COSTA, C. de L. e SCHMIDT, Simone P. (orgs). Poéticas e políticas feministas. Florianópolis: Mulheres, 2004.
[3] PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.
[4] Nascida em Minas Gerais em 1887, em uma família modesta, foi uma ativista anarquista e professora. Escreveu muitos livros onde deixava clara sua posição em prol da emancipação feminina, defendendo desde a educação sexual ao amor livre.
[5] RAGO, Margareth. “Es que no es digna la satisfacció de los institos sexuales?”: Amor, sexo e anarquia na revolução espanhola. In: Letralivre – revista de cultura libertária, arte e literatura, Rio de Janeiro, n.6, p. 09-16, 2002.

[6] SILVA, Rodrigo Rosa. As idéias como delito: a imprensa anarquista nos registros do DEOPS-SP (1930-1945). In: DEMINICIS, Rafael Borges e REIS FILHOS, Daniel Aarão. História do Anarquismo no Brasil vol. I. Niterói – RJ: Mauad X, 2006, p. 113-132.
[7] Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo: órgão de repressão política utilizado no governo Vargas para coibir e controlar a existência de focos políticos contrários ao governo instaurado.
[8] Nasceu em 1869, na Rússia, mas em 1886 migrou para a América, onde trabalhou como operária. Tida como uma “oradora nata” realizou inúmeras conferências em prol da emancipação feminina. Foi presa várias vezes. Participou como colaboradora em diversos jornais anarquistas, até que passou a publicar sua própria revista chamada Mother Earth. Morre em fevereiro de 1940.
[9] A Plebe. São Paulo, 05 de janeiro de 1935.
[10] A Plebe. São Paulo, 27 de abril de 1935.
[11] A Plebe. São Paulo, 26 de outubro de 1935.
[12] A Plebe. São Paulo, 30 de março de 1935.
[13] Idem.
[14] A Plebe. São Paulo, 30 de março de 1935.
[15] Idem.
[16] A Plebe. São Paulo, 28 de setembro de 1935.
[17] Refere-se a Michael Bakunin, importante teórico e militante anarquista russo.
[18] A Plebe. São Paulo, 23 de novembro de 1935.
[19] A Plebe. São Paulo, 08 de junho de 1935.
[20] A Plebe. São Paulo, 19 de janeiro de 1935.
[21]RAGO, Margareth. Do amor Livre. In: Revista Libertárias: Revista de Cultura Libertária, n. 03. São Paulo, set. 1998, p.11.
[22] A Plebe. São Paulo, 17 de agosto de 1935.
[23] A Plebe. São Paulo, 19 de janeiro de 1935.
[24] A Plebe. São Paulo, 02 de março de 1935.
[25] Idem.
[26] A Plebe. São Paulo, 23 de novembro de 1935.
[27] A Plebe. São Paulo, 25 de novembro de 1935.
[28] Idem.
[29] Ibidem.
[30] A Plebe. São Paulo, 06 de junho de 1935.
[31] A Plebe. São Paulo, 30 de março de 1935.
[32] Idem.
[33] Ibidem.
[34] A Plebe. São Paulo, 02 de março de 1935.

[35] A Plebe. São Paulo, 08 de junho de 1935.
[36] Idem.
[37] A Plebe. São Paulo, 09 de junho de 1935.

HÓSTIAS AMARGAS[1]: o anticlericalismo catarinense na imprensa anarquista paulista do início do século XX.[2]


Cleber Rudy




O Brasil das primeiras décadas do século XX seria marcado pelo crescimento urbano-industrial, e pela idéia do “moderno”, que mudaria a fisionomia arquitetônica e comportamental de suas cidades, segundo projeções de índole inglesa e francesa, inaugurando no país o resplandecer do que se denominou Belle Époque. Assim, progressos técnicos, aliciados a ideologia burguesa projetavam seus valores, no concernente ao modo de pensar e agir operário e de suas famílias, visando o disciplinamento e manutenção da “ordem” e do “progresso”, de uma irradiante sociedade republicana nascente e positivistamente constituída, que na contra-marcha dos seus interesses, ver-se-ia cara a cara com conflitos classistas.
Inspirado em tal emaranhado de “essências transitórias”, surgiria à confabulação de estratégias de luta contra a presença do clero na vida social, e seus conchavos com o poder público. Desta forma, principalmente pela imprensa libertária e independente, que surgia nos grandes centros urbanos (em especial São Paulo e Rio de Janeiro), marcados pelo grande contingente de imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, dos quais muitos militavam em seus países de origem, em organizações anarquistas[3] e socialistas, proveriam questionamentos a tais instâncias de poder. Pois para estes a Igreja, a religião e por vezes a crença em um Deus eram vistas como superstições, mitos para entorpecer os pobres, e que por via da mentira visavam subjugá-los. E, assim, explorá-los.

É preciso lembrar quanto e como as religiões embrutecem e corrompem os povos? Elas matam neles a razão, o principal instrumento da emancipação humana e os reduzem à imbecilidade, condição essencial da escravidão. Elas desonram o trabalho humano e fazem dele sinal e fonte de servidão. Elas matam a noção e o sentimento da justiça humana, fazendo sempre pender a balança para o lado dos patifes triunfantes, objetos privilegiados da graça divina. Elas matam o orgulho e a dignidade humana, protegendo apenas a submissos e os humildes. Elas sufocam no coração dos povos todo sentimento de fraternidade humana, preenchendo-o de crueldade.[4]

Esse discurso proferido teria como autor, o anarquista russo Michael Alexandrovich Bakunin (1814-1876), considerado um dos mais brilhantes libertários, pelo seu ativismo em rebeliões e revoltas, que sacudiam Paris, Praga e Dresden, e que por sua ação revolucionária, seria várias vezes preso. Homem de temperamento forte que por sua oposição a Karl Marx durante a Primeira Internacional, seria expulso acompanhado de outros companheiros. Após a expulsão fundariam uma organização independente conhecida como a Internacional St. Imier. Entre seus legados à causa libertária, tem-se a projeção do o que fora denominado movimento anarquista histórico.[5]
Apesar da clara separação entre Igreja e Estado, instituída pela República e consolidada pela constituição de 1891 no Brasil, a qual decretava a secularização através da legitimação do casamento civil, da efetivação dos registros de nascimento e óbito em cartórios, de um sistema de ensino laico, assim como os cemitérios deixariam de pertencer a uma única religião, clímax que teria como desenrolar a perda da legitimidade de outrora da Igreja Católica Apostólica Romana enquanto instituição oficial. Acontecimentos que trariam junto de si interrogações acerca da permanência de frades e padres no que concernia a instrução pedagógica e moral de uma população supostamente aliciada pelos perigos da perdição, que poderia ser entendida como o não comprimento dos sacramentos[6], entre outros deslizes “pecaminosos”.
Nesta senda, em Santa Catarina os reflexos de tal momento histórico brasileiro teriam os mais variados impulsos, ou seja, de um lado uma ala assumidamente republicana que extasiada buscava fazer valer os semblantes instituídos pelo novo governo, enquanto por outro lado vê-se agrupamentos marcadamente agregados às tradições monárquicas de padroado, e que almejavam manter-se enquanto instituição de poder oficial, (mesmo não mais o sendo), e desta forma, cerceando a vida da população local, e seus tramites políticos. E é em meio a tal enredamento que nos deparamos com indivíduos que frente à Igreja, alimentados por um enorme descontentamento, manifestariam sua aversão diante do que comumente se referiam como invasão de frades estrangeiros, loyolas[7] e demais segmentos sacros que impregnavam suas vivências.
Sendo assim, cansados de um certo “abstratismo” (o qual deve ser interpretado no sentido de silenciamento, ou limitação repercusiva de suas críticas), tais indivíduos recorreriam à imprensa escrita para denunciar as mazelas levadas a cabo em nome da salvação divina, assim como acerca da dicotomia entre os votos “sagrados” e a prática “profana”.
No jornal A Lanterna[8], de inspiração anticlerical e libertária, editado em São Paulo, que operava como veículo de informação principalmente à classe operária, tendo em sua direção o jornalista e anarquista Edgard Leuenroth, encontramos artigos, crônicas de anticlericais catarinenses, que identificados até certo ponto com seus princípios libertários, ainda como pelo fluir de uma circulação de ampla proporção preferiam recorrer a ele ao invés das publicações existentes em seu próprio estado. Jornal que durante o início da década de 1910 tinha como um dos seus pontos de venda na Ilha de Santa Catarina, a Agencia de Revista do Sr. Valentin Farinhas, localizada na rua República n° 2.
Em Florianópolis durante as primeiras décadas de 1910, publicou-se um jornal de combate ao clero católico, e que emanava um discurso de postura mais amena do que A Lanterna. O jornal intitulava-se, O Clarão[9]. E também perpassaria por temáticas ligadas à maçonaria e ao espiritismo.
O Clarão, surgido em 1911, visava discursar contra os mandos e desmandos dos padres em Florianópolis e cercanias. Seu “xeque-mate” era especificamente contra os clérigos católicos, dando vazão às outras crenças religiosas e demais manifestações humanas míticas regidas pelas luzes do esclarecimento e da liberdade. Seus editores mantinham contatos com o jornal A Lanterna, o qual era distribuído no referido estabelecimento do Sr. Farinhas, onde também era vendido O Clarão.
Mas no concernente ao jornal A Lanterna, um entre seus cronistas nos chama a atenção em especial, mediante sua certa periodicidade de comunicação com este jornal, e pela profusão crítica de seu discurso, por vezes transvasado de essência atéia: C. de Lippe, era como assinava, e a cidade de São José seu ponto de envio.
Seus textos eram mensais e sairiam durante o ano de 1914, numa coluna intitulada, ora por “Crônica de Santa Catarina”, ora por “´A Lanterna` em Santa Catarina”, o que evidencia a circulação do próprio jornal por estas terras, fato comprovado pelas menções no próprio jornal acerca da correspondência e das encomendas remetidas a C. de Lippe. Tais escritos se reportavam a situações ocorridas na própria comunidade e cercanias, (São Pedro de Alcântara, Angelina, Santo Amaro do Cubatão). Situações as quais condiziam acerca das lides dos padres e a desenvoltura do poder destes sobre o cotidiano destas regiões, que se mantinham sedimentadas numa cultura ruralista, da qual os saberes teóricos científicos imbuídos pela modernidade, não faziam parte, e que de certo modo favorecia a emanação dos poderes provenientes da Igreja Católica enquanto única experiência de vida e análise de mundo.
C. de Lippe num primeiro momento manifesta sua preocupação pelo que denomina de crescente invasão de frades estrangeiros em Santa Catarina, fato que o inquietava não por suas nacionalidades, mas por serem do clero, “gênero que as Filipinas, a França e ultimamente Portugal atiraram á praia como elemento mau e principal fator de todo o mal”[10].
Tais dados expostos em sua crônica condiziam com os andamentos que fervilhavam a Europa do século XVIII, embalada pelos ideais iluministas e que adotaria políticas de aversão aos jesuítas, onde, em Portugal, o estadista Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (1699-1782), expulsaria os jesuítas tanto em seu país como no Brasil, e que junto a Clemente XIV, intercederia pela extinção da Companhia de Jesus; na Espanha, Pedro Pablo Abarca de Bolea, o Conde de Aranda (1718-1798), durante o reinado de Carlos III, instigaria o motim de Esquilache (1767), tendo como objetivo a expulsão da Companhia de Jesus; na França, Étienne François Choiseul (1719-1785), homem de estado, diplomata, conseguiria o banimento dos jesuítas em seu país. Desta forma, quando não eram expulsos, acabavam por ter seus poderes limitados, e sua atuação restrita a conventos, irmandades e mosteiros.
O cronista em voga prossegue:

Como, porém, neste Estado, a população sertaneja, infelizmente, ainda conserva-se mergulhada nas trevas, isto é, sem o menor grau de instrução, eis porque essa negra remessa tem sido quase toda depositada aqui, para desgraça e infelicidade nossa.[11]

Assim, tem-se uma população que perece pela falta de substratos instrutivos, os quais serviriam de justificativa para a introjeção de tais membros provenientes da Companhia de Jesus, e que como se percebe nos idos da Instituição em Santa Catarina, instruir era catequizar, “(...) adultos e meninos, ´se levam à piedade e elegância cristã`. (...) o mesmo fim, (...) educação religiosa, com a palavra de Deus e administração dos sacramentos”.[12] Práticas emanadas como unicum refugium, a massa de “incautas”.
Lippe, ainda no referente aos frades coloca, que:

É esse um individuo perverso e mau; educado desde tenra idade na escola da ignorância e da mentira, está unicamente preparado para, em nome dos deuses inexoráveis e vingativos, embrutecer o povo para melhor explorar e saquear desapiedadamente os mingoados recursos de que ele dispõe.[13]


Análise que visava evidenciar os seminários e conventos, enquanto lugares de articulação de mentiras e demais hipocrisias. Seguindo em sua ótica, demonstrava a perpetuidade acerca da perversão dos deuses, os quais, sob seu caráter acobertava a exploração do povo.
Fato que “deveria prender mais seriamente a nossa atenção, e muito especialmente a daqueles cuja investidura lhes confere atribuições de administradores das coisas publicas.”[14] Não limitando suas objeções, por aí a questão religiosa segundo sua ótica, vulgarmente falando, seria caso de polícia:

Os governantes perseguem os cáftens e todos aqueles indivíduos que julga capaz de perturbar a paz e tranqüilidade publicas, e isto independente de mais formalidades que evidentemente constatem a veracidade de suas suspeitas. E por que, perguntamos nós, não perseguem ou pelo menos não exercem sua vigilância sobre os frades (...)?[15]


Outrossim, patenteava os votos instituídos pela República, que desvinculavam relações coniventes de cooperação pública entre Igreja e Estado, mas os quais nem sempre eram efetivados na prática, evidenciando uma República que perecia de maturidade e suficiência para desatrelar-se por completo das antigas tradições monarquistas, no referente a situação eclesiástica que assolava o país,

Mas, o que vemos? Os poderes públicos em completa ligação com a Igreja Romana: ora subvencionando instituições puramente religiosas com caracter de hospitais, onde doentes de todos os credos que teem a infelicidade de lá ir parar, são obrigados a sofrer, além da dor física, as cruéis torturas morais das rezas e confissões; ora lançando mão dos dinheiros públicos, que representam a economia e o sacrifício do povo, para compra de luxuosos palácios para bispos, e, finalmente, - até certas câmaras municipais do interior, cujas rendas são diminutissimas, concorrem com regular verba para manutenção de irmandades e “folias” do Espírito Santo ![16]


Desta forma, além do dinheiro saído dos cofres públicos para erigir hospitais, ministrados pela Igreja e festins religiosos, o cronista creditava a tais instituições, o papel catalisador de propaganda cristã, facilitada pelo desespero infermicida de seus internos, que daria vazão (condicionada), de piedade moral e fé exacerbada.
Em outra de suas crônicas C. de Lippe, tece sua analogia acerca dos “fanáticos” do sertão, ligados ao Conflito no Contestado[17], e o fanatismo reinante em sua própria cidade e demais cercanias, patrocinado pelos frades, como se pode ver neste trecho de seu escrito intitulado “Os fanáticos sublevados no sertão”:

(....) O governo estadual tem lançado mão de todos os meios brandos para restabelecer a paz e a tranquilidade naquela região ora fragelada pela peste religiosa, sendo, porêm, todos eles improficuos ante a feroz resistência com que aqueles sertanejos ingênuos e ignorantes defendem as suas divindades protetoras: Deus, S. Sebastião e o seu monge José Maria, que os assiste, como firmemente crêem, a todos os combates que houverem de travar com as forças legais.
Ora, isto é o cumulo da estupidez !
(...) Poder-se-ia apelidar de fanáticos os revolucionários de Taquarussú se não existisse maior grau de fanatismo em Angelina, S. Pedro e Santo Amaro do Cubatão; porque aqueles resumem sua crença em Deus, S. Sebastião e no monge e estes, além de acreditarem em maior numero de absurdos, ainda carregam, dependurado ao pescoço, pedaços das velhas roupetas dos frades, que as adquirem por elevado preço.[18]


Pode-se perceber que, para ele, o “fanatismo” religioso que se vê manifestado em sua localidade e adjacências mediante as lides dos padres, tomava contornos tão impactantes e hediondos como o que se presenciava no sertão Contestado, abalado pelo messianismo. Crença que aflorava pelos sertões catarinenses e que constantemente sofreria ataques por parte dos padres pelo fato dos “monges” atuarem como poder paralelo.[19] Ainda para Lippe, tal guerra seria fruto do veneno religioso[20]. Crônica que em seu bojo, evidenciava sua aversão e descrença frente ao culto religioso constituído pela existência de Deus, santos e a utilização de relíquias[21], como bem expõem ao referir-se aos pedaços de velhas roupas oriundas dos frades, aos quais uns grupos de pessoas trazem presos ao pescoço, e que aos seus olhos tomam contornos de sórdido, assim como de absurdo mediante os valores de compra inóspitos atribuídos a tais objetos.
Ao prosseguir elucida:

Felizmente não são os heréticos, os excomungados pela santa igreja católica, que promovem com a sua descrença essas guerras fratecidas que tanto fazem esgotar os cofres públicos e exterminar as vidas; são exactamente os clientes, nos quais os frades, auxiliados pelo próprio governo, introduzem no seu bestunto doentio a absurda crença de que Deus impõe tais sacrifícios em compensação de futuros gosos celestes.
Diz a Igreja: quem não crê morre; e nós agora podemos dizer que, quem toma uma elevada dose de crença incorre no mesmo perigo.[22]


Mas sua ânsia de oposição não parava por aí, sempre que julgava necessária, vinha a tona, desafiando os meandros de uma sociedade embebedada de Filosofia Cristã, como neste artigo, intitulado “O fanatismo em São José”[23], no qual tem-se a continuidade de suas críticas a esta questão. Os responsáveis pela ignorância do povo, segundo Lippe, são identificáveis pela batina, pois se a população vive distanciada dos caminhos da razão, (a qual sempre ganhou lugar de destaque entre os anticlericais e livres pensadores), este distanciamento seria fruto das investidas dos frades, ao imporem a fé aos dogmas como única instrução. Também tomam nitidez um embate envolvendo a “emancipação do espírito humano” cultuada pelos que vivem as margens dos preceitos da Igreja versus a degradação do ser humano mediante os ensinamentos ministrados pelos frades. Afrontamento que faria suas vítimas, como o fora no concernente aos sócios da Sociedade Musical de São José.

Em tudo tem aqui o frade ingerência.
Notamos ultimamente num centro de diversão recentemente criado,o sinistro dedo do frade lançando o pomo da discórdia entre seus associados, (....)[24]


Como desfecho de tal intervencionismo alguns sócios teriam sido banidos de tal instituição, sob alegação de não serem casados religiosamente. Álibi ao qual não prescindia com os auspícios da República[25], e que elucida uma relação que ainda por completa não se encontrava resolvida entre o poder sacro e o poder laico.
O intervencionismo dos frades na vida social teria ainda outros desenlaces, como podemos ver neste trecho:

(....) um dos mais respeitáveis negociantes daquela fanática freguezia[26], tem sido bastante perseguido pelo tal jesuíta (...), que além de ameaçar com a perda de absolvições,com excomunhões e outras babozeiras do mesmo quilate, que nada mais conseguem senão redicularizar o seu caracter de homem sagrado, tem feito retirar a freguesia do seu negocio,e isto pelo facto daquele cidadão não obedecer ao horario determinado pelo mesmo padreco, de fechar o seu estabelecimento ao anoitecer e não vender foguetes depois dessa hora.[27]


Desta forma, mais uma vez, vemos sua oposição diante de um poder emanado pelo clero, e que intercede na vida local de alguns cidadãos, pelo fato de transgredirem preceitos e “leis” instituídas pela Igreja, a qual se via enquanto eminente catalizador do poder, da ordem e controle social. Para tanto, Lippe noutro de seus escritos, evoca:

(...) o dever de reunirmo-nos em uma forte associação, secreta se preciso fosse, para que possamos auxiliar-nos reciprocamente,e exercermos uma ação mais eficaz e sem vacilações contra essa horda de vagabundos, cáftens e usurpadores da paz e tranqüilidade (...)[28]


Sendo assim, ao que tudo indica, sua idéia de associação, organização estava aliciada a todo um movimento que tomava corpo a partir da década de 1910, mediante a morte do pedagogo libertário e espanhol Francisco Ferrer y Guardia[29], executado por influência da Igreja Católica. Desta forma, a Europa e o Brasil foram tomados por ímpetos anticlericais, que almejavam criar escolas, associações, ligas, com a finalidade de discutirem e se mobilizarem contra as práticas do clero e em prol do racionalismo. Mas até onde nossa documentação permite sondar, tais planos em solo catarinense não se concretizaram[30].
E nesta senda, ele expõe, “É, portanto, necessário que os anticlericais se unam, para que dessa união resulte a força tendente a atenuar a marcha desse animal feroz”.[31] Preocupações que trariam consigo a indiferença com a qual por vezes era tratada a propaganda anticlerical principalmente em solo catarinense, devendo assim, a mesma ser superada, já que era o único recurso, segundo ele, disponível de combate a uma situação que cada vez mais tomava contornos agravantes, diante da dominação clerical.
Sobre tais preocupações, o jornal A Lanterna, de 1914 instigava, “Anti-clericais ! Livre-pensadores ! Organizai os vossos grupos. É necessário fundar a Federação Brasileira do Livre-Pensamento.”
Como atento observador, C. de Lippe não deixava que acontecimentos de progressão religiosa local escapassem de serem acometidos de comentários, e para tal tarefa sempre contara com sua consorte: a ironia. Então ao tomar nota acerca da despedida de um frade local, chamado Domingos, e do cortejo lacrimoso que evidenciava seu adeus, ele escreve,

No fim do tiroteio de saudações, foi todo o pessoal manifestante alarmado com um enorme milagre que o deixou boquiaberto.
Do alto de uma enorme cruz, a bela imagem de um Cristo que lá se achava suspensa, dirigiu ao Mingote o seu ultimo adeus de despedida. Moveu-se milagrosamente do seu pesado madeiro, desprendeu do cravo a sua descarnada mão direita, deixou-a cair pesadamente sobre a articulação do braço esquerdo, cerrou o punho e gesticulou religiosamente para o seu explorador, proferindo estas santas palavras: Adeus, devorador do meu sangue e amante das minhas esposas! Aceita esta preciosa “fruta catarinense” que te envia o povo anticlerical desta paróquia, para te alimentares durante a tua excursão de embrutecimento por outras paragens de imbecis. Que ela se multiplique como os pães e os peixes dos evangelhos. Amem.[32]


Alegorias e simbolismos religiosos que nas mãos deste livre-pensador se convergiam, em instrumentos de crítica da própria ordem que os exalta, pois se a maioria da população preferia se manter indiferente as possíveis práticas hediondas de um padre, caberia a Cristo[33] travestido de um anticlerical, afrontá-lo com o gesto de uma “banana” e inquiri-lo sobre sua conduta. Contornos de uma linguagem que lembram a mesma utilizada na França do século XVIII e XIX, pelo Marquês de Sade[34], o qual valia-se, em suas obras, de elementos sacros ao efetuar sarcasticamente sua oposição aos preceitos da Igreja e demais divindades.
E nosso cronista deixa-nos o seguinte escrito ainda ao referir-se a Igreja Católica e seus preceitos, antes de despedir-se, “(...) seita intolerante, sanguinária e inimiga de tudo quanto é suscetível de trazer a luz da verdade ao espírito humano (...)”[35]. Palavras que remetem a tradição iluminista de Voltaire[36] e Diderot[37], onde a razão é a luz, lanterna guia de todo conhecimento e emancipação humana, frente às mazelas de uma sociedade alicerçada sobre superstições e demais engodos patrocinados pelos padres.
Acerca deste cronista os únicos vestígios que temos são as suas crônicas, publicadas na imprensa paulista, A Lanterna. Em que trabalhava? Como vivia? Quem era? São dados que nossa documentação não permite vislumbrar, já que possivelmente valia de um pseudônimo. C. de Lippe, ainda nos fomenta certas divagações, onde além de suas crônicas, publicadas em São Paulo no jornal anarquista e anticlerical A Lanterna, tem-se uma carta publicada no jornal anticlerical de Florianópolis O Clarão, que mesmo sem ter o nome do autor, só a localidade (São José), pela linguagem e radicalismo empregados identificamos como sendo de sua possível autoria,

Illm°. Sr. Redactor

(...) o apparecimento do seu pequeno mas denodado “Clarão” tem aumentado o numero daquelles que como eu estão dispostos a pegar em armas para expulsar do solo brasileiro esta peste negra ou bando de vagabundos (...)
S.José, 22-1-1912


Lippe, se realmente este era seus sobrenome, seria um dos tantos imigrantes alemães neste estado? Seria possível, mais nossas buscas não evidenciaram remanescentes desta família, ou que ainda se utilizassem deste sobrenome, caso o realmente o fosse. Ou C. de Lippe, seria seu codinome? Se o era, tudo indica que fora emprestado do príncipe alemão, teórico militar, político e social, Conde Lippe, o qual fora marechal do exército português, mediante indicações do Marquês de Pombal. Inquietações, estas que, ainda não encontram substrato de verdade(s).


[1] Nome emprestado da obra de José Gavronski, publicada em São Paulo pelo jornal A Lanterna em 1935.
[2] Este artigo é uma versão resumida de um dos capítulos da monografia “Entre a luz e as trevas: cultura libertária e aversão ao clero em Santa Catarina (1910-1940)” desenvolvida durante a especialização em História Social na Udesc entre 2004 e 2006, sob a orientação do professor Paulo Rogério Melo de Oliveira. Texto publicado originalmente na Fronteiras - Revista Catarinense de História nº 15, junho de 2007.
[3] Para maiores detalhes acerca da imigração européia e das lides libertárias, consultar , MARAM, Sheldon Leslie.Anarquistas, Imigrantes e o Movimento Operário Brasileiro.Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979..
[4] BAKUNIN, Mikhail. Deus e o Estado. São Paulo: Cortez, 1988. p. 26.
[5] Escrito efetuado com base na obra: WOODCOCK, George. Os Grandes Escritos Anarquistas. 4ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1990, p.345/ 346.
[6] No século XII, os sacramentos foram estipulados em sete, os quais eram: batismo, penitência, eucaristia, crisma, casamento, ordenação e extrema-unção.
[7] Termo derivado do nome São Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus em 1540, o qual elevaria o Brasil em 1553, à categoria de província jesuíta, sendo assim, a denominação loyolas reporta-se aos jesuítas, frades, sendo tal termo, empregado pelos anticlericais do jornal O Clarão, publicado em Florianópolis, nas primeiras décadas do século XX.
[8] Foi fundada em 7-3-1901, durando até 29-2-1904, sob a direção de Benjamin Mota (1ª fase); reaparece em 17-10-1909 indo até 19-11-1916, sob a direção de Edgard Leuenroth (2ª fase); e em 13-7-1933 iniciou sua terceira fase que foi até 10-1935, sob a direção novamente de Edgard Leuenroth. Elaborado com base na obra: RODRIGUES, Edgar. Pequena História da Imprensa Social no Brasil. Florianópolis: Insular, 1997.
[9] Jornal publicado na cidade de Florianópolis, Brasil (em Portugal no começo do século XX editava-se um jornal com o mesmo nome, consagrado as idéias libertárias do espanhol Francisco Ferrer, o qual tinha circulação no Brasil). O Clarão, catarinense, teve sua 1ª fase iniciada em 20 de agosto de 1911, indo até 4 de julho de 1914, e em sua 2ª fase indo de 28 de agosto de 1915 até idos de 1918.
[10] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[11] A Lanterna, São Paulo, 04/ 04/ 1914.
[12] LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. (vol. VI). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945, p. 471.
[13] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[14] idem
[15] A Lanterna, São Paulo, 04/ 04/ 1914.
[16] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[17] Conflito desenrolado no planalto catarinense entre 1912 e 1916, de cunho milenaristas (crença no milênio), ou seja, o reino dos mil anos de Cristo.
[18] A Lanterna, São Paulo, 16/ 05/ 1914.
[19] Para maiores detalhes, consultar, STULZER, AURÉLIO (FREI). A Guerra dos Fanáticos (1912-1916). Vila Velha/ Petrópolis: Vozes, 1982.
[20] O viés do fanatismo, enquanto fator monolítico no Conflito no Contestado, marcaria uma gama de estudos acerca do episódio.
[21] Para buscar elucidar tais invenções e artimanhas, recorremos a uma passagem de, RODRIGUES, Edgar. Socialismo e sindicalismo no Brasil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1969. Onde, “Desde os primórdios do seu aparecimento sobre a face da terra, o clero se organiza no poderoso quartel general de Roma e ali elabora planos e expede-os para as suas sucursais espalhadas pelo universo.
No ano 120, inventaram a água-benta; no ano 157, a penitência; no ano 325, a páscoa da ressurreição; no ano 375, o culto dos santos; no ano 391, a missa; no ano 400, as encomendações dos mortos; no ano 550, o óleo santo; no ano 593, o purgatório; no ano 600, o primado do papa; no ano 699, o culto da cruz e das relíquias; no ano 800, o beijo na sandália do papa; no ano 933, a beatificação dos beatos; no ano 1000, a canonização dos santos; no ano 1015, o celibato dos padres; no ano 1066, a infabilidade da igreja; no ano 1090, o rosário; no ano 1119, a indulgência; no ano 1160, os sete sacramentos; no ano 1200, a consagração da hóstia; no ano 1204, inquisição (...)”. p.295 .
[22] A Lanterna, São Paulo, 16/ 05/ 1914.
[23] A Lanterna, São Paulo, 21/ 02/ 1914.
[24] A Lanterna, São Paulo, 21/ 02/ 1914.
[25] No § 4º , do Art.72, do Capítulo V, da Constituição do Brasil de 24 de fevereiro de 1891,temos: “A República só reconhece o casamento civil, cuja celebração será gratuita.” ( www.soleis.com.br/1-Constituicoes0.htm#12)
[26] A freguesia a qual se refere, seria São Pedro de Alcântara.
[27] A Lanterna, São Paulo, 05/ 09/ 1914.
[28] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[29] Francisco Ferrer y Guardia, era pedagogo e libertário, sendo o criador das Escolas Modernas.Suas escolas foram um das primeiras a utilizar salas mistas (meninos e meninas juntos), sendo os conteúdos elaborados para o desenvolvimento da razão. A Igreja Católica via tais práticas como um atentado aos seus interesses. Vitima de uma trama elaborada entre Governo e Igreja, Ferrer seria fuzilado na fortaleza de Montjuich, em Barcelona, na Espanha, no dia 13 de outubro de 1909.
[30] No O Clarão, nº 16, 2/ 10/ 1911, sairia a seguinte nota, “NOTICIARIO – Consta-nos que por estes dias se iniciará a organização de um Liga anti-clerical.” Mas sobre a mesma não encontramos nada que efetive sua criação.
[31] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[32] A Lanterna, São Paulo, 13/ 06/ 1914.
[33] Nos meios livre-pensadores, um Cristo de contornos humano e altruísta ganhava apreciação.
[34] Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814) – conde e marquês de Sade. O anticlericalismo estava acentuadamente presente em suas obras, as quais eram dotadas de um aguçado espírito crítico e visceralmente contrários aos grilhões das ortodoxias religiosas e morais.(...) Além de atacar com extremo vigor as superstições da religião, tinha especial predileção por demonstrar escárnio pelo papa e pelos demais membros da Igreja. Nota extraída da apresentação efetuada pelo historiador Eduardo Valladares, na obra: SADE, Marquês de. Discursos Ímpios. São Paulo: Imaginário, 1998, p.12.
[35] A Lanterna, São Paulo, 21/ 03/ 1914.
[36] Pseudônimo de François Marie Arouet (1694-1778), escritor e filósofo.
[37] Denis Diderot (1713-1784), escritor francês, um dos maiores “livre-pensadores” de sua época.

R., O Vampiro do Vaticano

R., O VAMPIRO DO VATICANO*
Vulgo Ratzinger, o Bento XVI

Amparado numa tradição que supera um milênio, Bento XVI investido de seu primado papal[1], ao completar dois anos de pontifício, recoloca a Igreja e sua visão sobre as práticas sociais e ou valores morais num patamar de contornos medievais, época aquela a qual a Igreja ao embalo de Dies Irae[2], patrocinava excomunhões, perseguições religiosas, censura e visionava a aproximação do Juízo Final.
Durante sua estadia no Brasil (um dos maiores países católicos do mundo), em maio deste ano sua santidade enquanto elemento de restituição de uma fé abalada[3] deixaria um rastro de hediondas afirmações, tão ad absurdum quanto às idéias totalizantes do nazismo, do qual, Joseph Ratzinger fora participante, via juventude hitlerista.
E entre os Sacramentum Caritatis[5] tem-se, o casamento enquanto união indissolúvel e concebível somente entre um homem e uma mulher, a condenação da homossexualidade, a abominação do aborto, a execração de métodos anticoncepcionais, ainda como a reafirmação da existência do inferno enquanto fim intransponível aos pecadores. Elementos que constituem somente a ponta deste Iceberg de natureza sacra.
Mas os valores de sua doutrina que exalam a incenso vão além, ao AFIRMAR que não houve excessos por parte da Igreja Católica durante a Colonização da América Latina. Seria a opacidade de sua membrana ocular ou a fobia por leituras mais apuradas que o levariam a tais ímpetos anti-históricos? Pois um leve correr dos olhos (mesmo aos que sofrem de estrabismo intelectual, como Ratzinger), pelos escritos de Bartolomé de Las Casas[6], bastariam para revelar que excessos ocorreram e das mais variadas naturezas e tamanhos, e sob os auspícios da CRUZ.
Hoje se nega o Genocídio cultural dos povos ameríndios, amanhã, quem sabe o Holocausto, depois a Inquisição, e neste reboliço de insanidades, não espantaria se expusesse que um míssel balístico, como o SS27 Topol-M[7], é uma ilusão demoníaca.
Sendo assim, sua santidade e suas idéias, que alguns banalmente intitulam de intelectualidade, não comportam afirmativas cabíveis para um mundo que cada vez mais adentra na contemporaneidade do século 21.
Bento XVI, ainda com sua “sapiência” expõe, “a América Latina deve se apoiar na fé, e não em ideologias políticas e movimentos sociais”. Mas contradigo, a América Latina se faz e re-faz mediante lutas emanadas de movimentos sociais e ideologias políticas, enquanto contramão da antiga cultura do medo disseminada pela fé dos algozes, buscando assim, uma outra realidade, concebível aqui mesmo na terra, e não para uma além vida entre o romper de aviões.
E munido mais uma vez de sua oratória conservadora, Ratzinger advertira sobre os suplícios da perdição referentes à sexualidade humana. Se por um lado o italiano Mateo Colombo[8] revelaria no século XVI um tal de Amor Veneris enquanto descoberta, no contraponto a este achado, uma gama de “santos homens”, (renovada neste século pelo Sr. Joseph R.), prosseguiriam na demonização de tal revelação carnal, afirmando: “cruz, credo, isto é pecado”, ou ainda, ruborizando: “Oh, Pai nos afastais de tanto mal”.
Mas após dias tão agitados, entre ser ou não ser... Com a despedida do Papa, a “tranqüilidade” pouco a pouco voltaria a reinar nos lares tupiniquins[9]. Inúmeras beatas e senhoras de família puderam retornar ao alento festivo do seu consolo - torneado em pau de carvalho e benzido nas águas da Santa Madre Igreja -, e entre “uis”, e “ais”, não negam o milagre do “santo instrumento” no combate ao stress de cada dia, que nos daí hoje, tanta euforiaaaa.

Cleber Rudy[10]
* Alegoria ao nome do filme M., o Vampiro de Düsserdorf, de Fritz Lang, editado em 1931.
[1] No ano 600 se institui o primado do Papa, ou seja, sua superioridade.
[2] Hino em latim do século XIII, de contornos apocalípticos.
[3] Abalos perpetuados mediante a disseminação de inúmeras outras igrejas e cultos religiosos, por vezes com valores mais flexíveis do que os instituídos pela Igreja Católica.
[4] Termo em latim para denominar, absurdo.
[5] Documento constituído de 131 páginas, contendo 50 propostas elaboradas pelo Papa e aprovadas por um conselho formado por 256 bispos.
[6] Frei que denunciou os abusos cometidos durante a conquista da América Espanhola, os quais constituem a obra intitulada: O Paraíso Destruído.
[7] Míssel balístico com ogivas múltiplas, lazer entre outras parafernálias de alta-tecnologia destrutiva.
[8] Anatomista que descobriu o clitóris, ou seja, o Amor Veneris.
[9] Termo que remonta aos longínquos habitantes das terras brasileiras, sendo o mesmo, empregado de forma pejorativa para denominar quem nasce no Brasil.
[10] Professor e pesquisador em História Social. Texto Publicado originalmente na Revista Utopia (Lisboa) nº 23 - jan. jun. de 2007.