domingo, 26 de abril de 2009

Primeiro Colóquio do Anarquismo Social em Florianópolis




Em meio a sexta-feira chuvosa que encharcava a paisagem urbana da outrora Desterro, anarquistas, simpatizantes da causa libertária e personas afins se reuniam - rompendo a monotonia citadina -, no começo da noite do dia 24 de abril, no centro da capital catarinense, na sede do Sintespe, para conversas e debates em torno da prática e eficácia do anarquismo social nas atuais lutas implementadas no Brasil.

Giovanni Baldelli define anarquismo social nos seguintes termos: “significa que o anarquismo visa o bem da sociedade (...) os homens, por quererem e estimarem certas coisas, encontrarão no anarquismo o melhor sistema para as salvaguardar”, que no Brasil faz adeptos via experiências levadas a cabo por entidades como a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) e a Federação Anarquista Gaúcha (FAG) de Porto Alegre, representadas no Colóquio por Rafael Viana (FARJ e Movimento dos Trabalhadores Desempregados) e Eduardo Colling (FAG), outrossim contando com a presença de Victor Calejon do Movimento Passe Livre, e do professor José Carlos Mendonça, da área da Sociologia Política e vinculado ao marxismo heterodoxo que sinalizava um contraponto ideológico, enquanto demonstração de distinções e aproximações entre as idéias anarquistas e marxista, no campo da teoria política. Pois como observou o pensador norte-americano Gilbert Green “o marxismo e o anarquismo têm uma coisa em comum: ambos mostram profunda preocupação pelo destino do homem e firme crença na viabilidade de uma sociedade em que, (...) ´o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos`.” Tentativas de aproximações destas duas tendências socialistas – salvo críticas a parte -, ganhariam corpo especialmente a partir dos anos 60, tendo como alguns dos seus importantes representantes o francês Daniel Guerin (defensor de uma espécie de marxismo libertário) e o espanhol Carlos Díaz, ainda como, no Brasil, Mauricio Tragtenberg.

Permeando experiências libertárias voltadas para o âmbito social, especialmente as realizadas pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), - entidade surgida em 2003 -, Rafael Viana dá exemplos através de trabalhos sociais relacionados com reciclagem, agro-ecologia/eco-educação, cooperativa de bolinhos, realizada na periferia do Rio e envolvendo desempregados, assim como, articulações com o movimento dos sem-tetos, etc..., o Colóquio pontuou insistentemente a importância da atuação anarquista nos movimentos sociais, em prol da organização popular e da luta de classes, rumo a revolução social...

Evento que disponibilizava os últimos lançamentos da editora Faísca entre estes Anarquismo Social e Organização elaborado pela FARJ e Catecismo Revolucionário de Mikhail Bakunin e jornais como: Socialismo Libertário e Libera.

Organizado pela FARJ, FAG, Editora Faísca e Grupo da Idéias e Práticas Anarquistas (GEIPA) de Joinville, tal Colóquio surge da troca de idéias e experiências dos membros da Rede de Apoio da FARJ que no começo de fevereiro do corrente reunia-se em Florianópolis, esmiuçando entre as suas propostas o estreitamento de laços entre militantes da Rede de Apoio da FARJ e grupos ou indivíduos anarquistas alhures, assim como, e especialmente com os movimentos sociais, outrossim, da realização para o mês de abril do Primeiro Colóquio do Anarquismo Social nas cidades de Curitiba, Florianópolis e Joinville.

Os articuladores da reunião em sua carta aberta da rede de apoio à FARJ pontuam: “Nas cidades de Curitiba/PR, Joinville/SC e Florianópolis/SC não existem registros históricos de organizações específicas anarquistas, e até onde sabemos, a militância anarquista iniciada nos fins do século XIX pelos imigrantes europeus, em meio as organizações sindicais, aos poucos se desorganizou e se desarticulou, não sendo hoje, nem sombra da ameaça que já representou ao capital, e nem a esperança de justiça e liberdade que já foi referência para as classes exploradas. Atualmente, e desde os anos da ´reabertura democrática` no Brasil, a referência normalmente encontrada nessas cidades é a do Anarquismo Comportamental, defendida e propagandeada pelas correntes identificadas com a contracultura.”

Dito isto, torna-se oportuno uma crítica atrelada a importância de averiguar as formas e cores das trajetórias libertária em Santa Catarina - que situado em suas especificidades se distancia do modelo de luta anarquista implementando na região sudeste -, o Estado catarinense sem grandes mobilizações operárias em grande parte de seu território (a exemplo de Florianópolis, Lages, São José, que jamais abrigaram um grande número de indústrias) seria marcado por experiências dispersas, que agregavam em certo grau muito mais práticas individuais do que coletivas, assim como, efetuando certa vinculação com outros setores revolucionários (socialistas, anticlericais). Não obstante, na primeira metade do século 20 em Santa Catarina, tem-se uma atuação marcada majoritariamente por imigrantes, como os italianos, Giovanni Rossi (em Rio dos Cedros e Florianópolis), José Verzola e Arthur Galletti (em Florianópolis), Nulo Beccari e Cesare Sartori (em Lages) dos espanhóis, Carlos Condor (em Joinville) e Baldomero Miguez (em Curitibanos e Videira) dos alemães Fritz Koch e George Sterneck (Blumenau), que mesmo não compondo agremiações ou no mais das vezes movimentos organizados, interferiam na realidade local, quer via greves, boicotes, distribuição de periódicos como A Plebe e A Lanterna ou através da criação de cooperativas agrícolas ou colônias ácratas. Outrossim, efetuando um estreito contato com centros urbanos politicamente mais dinâmicos como São Paulo e Rio de Janeiro.

Por seu turno, na segunda metade do século 20, especialmente a partir do “processo de abertura” sinalizado pelo governo Geisel nos anos 70, grupos libertários começam a ganhar forma sobre tudo na capital catarinense, a exemplo do Núcleo Anarquista de Florianópolis (NAF) formado por alunos universitários e engajado em campanhas pela Anistia, que se mostrava articulado com outros coletivos sulistas na distribuição do jornal baiano O Inimigo do Rei que naquele período convertia-se num dos importantes veículos de propagação das idéias anarquistas (cingido ao pensamento da contracultura) no Brasil.

Neste sentido, pelos anseios dos “inimigos do rei” articulados em Santa Catarina, e com fortes vínculos como anarquistas gaúchos – e em contato com grupos do sudeste -, se organiza nos anos 80, um importante encontro libertário na esteira da “re-abertura”, realizado na Lagoa da Conceição num espaço cedido por Wilson Rio Apa – importante figura do anarquismo em Santa Catarina, responsável pelo extinto jornal libertário ClãDestino -, em pleno carnaval de 1982, contando com a presença de libertários de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, visando entre outras discussões a reorganização dos trabalhadores segundo os princípios do Sindicalismo Revolucionário – enquanto referência as premissas do Primeiro Congresso Operário Brasileiro de 1906, que deu forma a Confederação Operária Brasileira (COB) -, defendendo a proposta de redução da jornada de trabalho e a produção autogestionária, resoluções acordadas durante este encontro de cariz nacional que seriam encaminhadas ao CONCLAT (Congresso Nacional das Classes Trabalhadoras) que se realizaria em São Paulo. Em 1984, do intercâmbio de militantes de Santa Catarina com a Editora Novos Tempos de Plínio Augusto Coelho, situada em Brasília, marcava presença nas cidades de Florianópolis e Blumenau o pensador francês Jean Bancal, que falava sobre a importância do pensamento de Pierre-Joseph Proudhon, em prol da autogestão e contra o burocratismo estatal.

Tempo depois, via a insistência de libertários do Rio Grande do Sul era realizada a Primeira Jornada Libertária em Florianópolis em fevereiro de 1986, com apoio internacional da CNT da Espanha, FORA da Argentina entre outros, evento que tinha como pauta principal a reconstrução da Confederação Operária Brasileira (COB), enquanto entidade autônoma de luta da classe trabalhadora, versando ainda, preocupações referentes a ecologia social, pedagogia libertária e a articulação dos anarquistas nos movimentos sociais, sinalizando desta forma, para um novo contexto de lutas sociais do pós-ditadura cingido por novos atores (a exemplo: movimento negro, ecológico).

Nesta senda, surge nos anos 90 o Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA) que se definia como um órgão de assessoria para projetos alternativos calcado em perspectivas libertárias, que através de um grupo de Ação Jurídica tinha como meta central o estudo e a pesquisa de um direito alternativo, e que desenvolvia a “prestação de serviços aos movimentos sociais em áreas como direitos humanos, conflitos de propriedade, direitos do consumidor, direito ecológico” . E como um de seus resultados pode ser mencionado o amparo no campo jurídico à luta implementada junto aos moradores do bairro Rio Tavares, contra a ocupação irregular da área de preservação da Lagoinha Pequena. Posicionamentos favoráveis a práticas marcadas pela ecologia social, assim como, pelo municipalismo libertário de Murray Bookchin, fizeram parte das pautas do CECCA, que manteve produtivos vínculos com demais movimentos na Ilha de Santa Catarina como o Movimento Negro, o Movimento Anarco Punk – que em 1993 dava o primeiro passo referente a prática de okupação urbana no Brasil de cariz libertário, enquanto ação agregada do movimento squatter -, e o Libérula – Tribo Cultural, grupo este, responsável pelo informativo LiberNete e pela criação de uma Rede Libertária em 1993 que agregava o coletivo Grávida de Curitiba, Centro de Estudos Libertários (CEL) do Rio de Janeiro, e militantes de São Paulo.

Os anos 90 gestavam ainda práticas realizadas no campo da pedagogia através da criação em 1991 do Núcleo de Alfabetização Técnica (NAT), integrado por Maria Oly Pey, Ierecê Rego Beltrão, Raquel Stela de Sá, entre outros, que propunham um educação libertária, que se valendo da elaboração de oficinas voltadas aos mais diversos grupos sociais, buscava “trabalhar os saberes, aproximando-os da realidade, fazendo sentido para quem aprende e para quem ensina” . Anseios pedagógicos marcados pelo ideal libertário levados a cabo nos dias atuais no bairro Siriú em Garopaba, através do Instituto Amanamanha, que almeja a desenvoltura de práticas autogestionárias, através de práticas educativas com crianças.

Outra experiência que merece registro no presente tempo, é a Ong Anarquistas Contra o Racismo (ACR) de Criciúma, que trabalha conjuntamente com segmentos do Movimento Negro, desenvolvendo trabalhos sociais com crianças de bairros periféricos. Também através do espaço Kaleidoscópio, que abriga biblioteca comunitária, desenvolvem amostra de vídeos, oficinas de culinária, artesanato..., sendo ainda responsáveis pela realização do evento Maio Negro (que vai para 8 anos de existência), que vinculado a UNESC promove palestras e discussões acerca das populações afrodescendentes, enquanto agentes históricos e sociais valorizativos na constituição da sociedade brasileira.

Para tanto, enquanto libertário e pesquisador das experiências libertários em Santa Catarina, almejo com tal mosaico de situações demonstrar que o anarquismo em solo catarinense é "diferente" e não inerte em suas representações e ações, fazendo-se atuante.

Como bem pontuou o editor em Lisboa da revista anarquista Utopia José Maria Carvalho Ferreira, “os anarquismos são práticas diferenciadas da própria anarquia, com isto quero dizer, que o indivíduo por si só, tem uma personalidade, uma maneira de aprender e de viver, por tanto, a partir daí, ele assimila e aprende a anarquia e sua maneira” , e com base em qual pluralidade (que a história já demonstrou estar cingida por divergências, a exemplo dos debates equacionados outrora entre Errico Malatesta e Giovanni Rossi ou na atualidade entre Murray Bookchin e Hakin Bey) podemos ponderar que o Anarquismo Social apresenta-se como um dos caminhos entre outros para a Anarquia. Saluto!


Um comentário:

  1. Muito bom o texto, camarada!

    parabéns pelo grande trabalho!

    abraços!

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